Polícia Federal amplia cerco no Tocantins: novos alvos, provas e rastros de obstrução na Operação Nêmesis
Polícia Federal deflagrou nesta terça-feira (12) uma nova ofensiva no Tocantins, ampliando o cerco contra suspeitos de obstruir as investigações sobre desvios de recursos da pandemia. Batizada de Operação Nêmesis, a ação cumpre 24 mandados de busca e apreensão em Palmas e Santa Tereza do Tocantins, autorizados pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ).
Segundo a PF, o objetivo é interromper tentativas de destruição e ocultação de provas e identificar novos envolvidos em crimes ligados à compra irregular de cestas básicas e ao uso de emendas parlamentares durante a pandemia — um desdobramento direto da Operação Fames-19, que levou ao afastamento do governador Wanderlei Barbosa em setembro.
A nova fase: caçada a provas ocultas
De acordo com a Polícia Federal os investigadores encontraram indícios de que integrantes do grupo teriam removido documentos, apagado dados de celulares e transferido valores para escapar do rastreamento.
A PF afirma que a operação busca “estancar a contaminação probatória” e garantir a preservação de materiais de interesse judicial, todos vinculados ao inquérito sob supervisão direta do STJ.
De acordo com bastidores a deflagração foi precipitada após o monitoramento indicar movimentações suspeitas em imóveis de investigados — inclusive o transporte de caixas e dossiês.
Quem são os novos alvos
Reportagem do Jornal Opção Tocantins revelou que entre os principais investigados estão:
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O governador afastado Wanderlei Barbosa;
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A primeira-dama Karynne Sotero Campos;
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O deputado estadual Léo Barbosa;
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O ex-secretário Rérison Castro Leite;
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O ex-assessor Thomas Jefferson Gonçalves Teixeira;
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O ex-subsecretário Marcos Martins Camilo;
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E a deputada Claudia Lélis.
Todos negam participação em irregularidades e afirmam colaborar com as autoridades.
A linha direta com a Fames-19
A Fames-19, deflagrada em setembro, apurou desvios milionários de emendas parlamentares destinadas à compra de cestas básicas.
Na época, o STJ afastou Wanderlei Barbosa do cargo por 180 dias, após a PF apontar irregularidades em contratos firmados pela Secretaria do Trabalho e Desenvolvimento Social.
Agora, a Operação Nêmesis se concentra em atos posteriores, como remoção de documentos, destruição de mídias e ocultação de valores. Investigadores afirmam que os indícios foram detectados a partir de mensagens trocadas em grupos internos e de registros de câmeras de segurança.
O que está sob análise
1. Destruição de provas — A PF busca confirmar se servidores e assessores removeram ou ocultaram documentos antes das buscas da Fames-19.
2. Ocultação de bens — Os investigadores rastreiam transferências de imóveis e veículos realizadas logo após o afastamento do governador.
3. Interferência política — A PF apura se houve uso de influência institucional para intimidar testemunhas e interferir na coleta de provas.
De acordo com o Poder360, parte do material apreendido pode apontar novos nomes e rotas de dinheiro que passam por empresas de fachada e contas de terceiros.
O papel do STJ e o alcance da operação
As medidas foram autorizadas pelo ministro Francisco Falcão, do STJ, relator do inquérito que investiga autoridades com foro. O despacho destacou o risco de “comprometimento da integridade probatória”, citando informações da PF sobre a possível remoção deliberada de provas.
As buscas foram acompanhadas por representantes da Procuradoria-Geral da República (PGR) e por auditores da Controladoria-Geral da União (CGU).
Fontes ouvidas pelo Correio Braziliense relataram que a PF localizou documentos de licitações, extratos bancários e mídias digitais contendo planilhas com indícios de pagamentos indevidos a empresas contratadas durante a pandemia.
A resposta dos citados
A defesa de Wanderlei Barbosa classificou as medidas como “exageradas e desnecessárias”, alegando que o ex-governador colabora com as investigações e nega qualquer tentativa de interferir na coleta de provas.
A primeira-dama Karynne Sotero também divulgou nota dizendo que “nunca participou de nenhuma decisão administrativa” e que “não tem qualquer relação com contratos públicos”.
Parlamentares aliados ao governador afirmaram que a operação tem “caráter midiático”, enquanto fontes da PF reiteram que a ação é baseada em indícios sólidos e laudos técnicos.
Impacto político e institucional
O desdobramento da Nêmesis reacende tensões na Assembleia Legislativa e entre aliados do governo. Deputados discutem a criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para acompanhar o caso, enquanto o Ministério Público Federal avalia novos pedidos de bloqueio de bens e quebras de sigilo.
Analistas políticos consultados pelo Nexo Jornal destacam que a operação evidencia o enfraquecimento institucional do Executivo estadual e pode ter impacto direto nas eleições municipais de 2026.
O que ainda pode vir

A PF não descarta novas fases da operação, especialmente após a análise de celulares e HDs apreendidos. Entre os próximos passos estão:
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Solicitação de novos mandados de busca e prisão preventiva;
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Bloqueio de contas e quebra de sigilos bancário e fiscal;
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E cruzamento de dados de transferências financeiras ligadas a empresas fantasmas e intermediários políticos.
Segundo fontes ouvidas pelo Migalhas, as diligências devem avançar sobre fornecedores de cestas básicas e consultorias jurídicas que assessoraram prefeituras durante a pandemia.
Linha do tempo
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Setembro de 2025: Operação Fames-19 apura desvios de recursos da pandemia e afasta o governadorWanderlei Barbosa.
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Outubro de 2025: PF coleta novos depoimentos e detecta remoção de documentos de gabinetes e residências.
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Novembro de 2025: Operação Nêmesis cumpre 24 mandados de busca em Palmas e Santa Tereza, sob ordem do STJ.
O que está em jogo
A Operação Nêmesis marca uma nova escalada na ofensiva federal contra fraudes ligadas à pandemia no Tocantins.
Se confirmadas as suspeitas de obstrução, o caso pode se tornar o maior processo criminal da história recente do estado, com implicações diretas na governança local e na elegibilidade de lideranças regionais.
Mais do que uma disputa jurídica, a Nêmesis expõe o conflito entre poder político e investigação policial — um embate que, ao que tudo indica, está longe de terminar.