Saúde: uso de pregabalina por ex-presidente Bolsonaro gera dúvidas médicas

Saúde: uso de pregabalina por ex-presidente Bolsonaro  gera dúvidas médicas
Fernanda CappellessoPor Fernanda Cappellesso 24 de novembro de 2025 21

A revelação de que o ex-presidente Jair Bolsonaro utilizou pregabalina, um medicamento de controle especial, provocou um movimento imediato em Brasília. A substância, administrada por uma médica que chegou à sede da Polícia Federal para prestar esclarecimentos, transformou um caso clínico em um episódio com repercussões políticas, jurídicas e científicas. O ponto central: para que serve o remédio, quais riscos ele oferece e de quem é a responsabilidade pelo uso?

A pregabalina é um fármaco originalmente desenvolvido para tratamento de dor neuropática, epilepsia e transtorno de ansiedade generalizada. Por atuar diretamente no sistema nervoso central, sua venda no Brasil depende de receita controlada, com retenção obrigatória pela farmácia. É uma medicação com eficácia reconhecida, mas que exige acompanhamento rigoroso, ajuste individualizado de dose e atenção contínua a efeitos adversos.

Entre os efeitos mais frequentes, médicos relatam tontura, sonolência, visão turva, dificuldade de concentração, inchaço e redução da coordenação motora. Em quadros mais sensíveis, especialmente quando associada a antidepressivos ou ansiolíticos, podem ocorrer confusão mental, alucinações, lentidão psicomotora, agitação, desorientação e alteração abrupta de comportamento. A combinação com outras substâncias com ação no sistema nervoso central amplia essas possibilidades.

A defesa de Bolsonaro sustenta que o ex-presidente teria recebido a pregabalina por “orientação de outro profissional”, e que a equipe médica habitual não estava ciente da administração. A médica responsável pela aplicação da medicação foi fotografada ao chegar à PF para prestar esclarecimentos, o que reforçou a dimensão pública do caso. Juristas apontam que a situação envolve três eixos de responsabilidade:
1. o médico prescritor, caso tenha havido prescrição formal;
2. o profissional que aplicou o medicamento, se o fez sem respaldo técnico-legal;
3. o próprio paciente, dependendo de como as orientações de uso foram apresentadas e compreendidas.

Especialistas afirmam que o uso de pregabalina fora de suas indicações clássicas não é ilegal, desde que fundamentado e documentado. Entretanto, sua utilização em contexto político-institucional reacende o debate sobre uso inadequado de medicamentos controlados, possíveis efeitos sobre o comportamento e a necessidade de transparência em situações envolvendo autoridades públicas.

O caso também expõe uma preocupação recorrente na medicina brasileira: a automedicação e o consumo irregular de remédios de alto impacto. A pregabalina está entre os fármacos cujo uso vem crescendo no país, tanto para tratamentos válidos quanto para fins inadequados, como melhora do sono, alívio rápido de ansiedade ou uso combinado com outras substâncias.

No cenário atual, a expectativa é de que órgãos de fiscalização médica avaliem se houve prescrição irregular, administração sem respaldo ou falha grave de comunicação entre profissionais de saúde. O episódio transforma um medicamento comum em consultórios e hospitais em tema nacional — e reforça a urgência de discutir ética médica, responsabilidade profissional e segurança farmacológica no Brasil.

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