Mulher evangélica está entre as mais vulneráveis ao feminicídio no Brasil e no Tocantins

Mulher evangélica está entre as mais vulneráveis ao feminicídio no Brasil e no Tocantins
Fernanda CappellessoPor Fernanda Cappellesso 28 de novembro de 2025 53

O debate sobre violência contra a mulher no Brasil ganhou uma camada adicional de complexidade quando pesquisas começaram a indicar que a mulher evangélica aparece, com frequência crescente, entre as vítimas de agressões físicas, psicológicas e verbais dentro de casa. A questão não é simples e exige uma análise rigorosa, porque os registos oficiais de feminicídio não incluem o campo “religião”, o que impede afirmar, estatisticamente, que evangélicas sofrem mais feminicídio. Ainda assim, estudos recentes apontam prevalência significativa de violência doméstica nesse grupo religioso — e a interpretação desses dados exige leitura sociológica, teológica e cultural.

Em um dos levantamentos mais conhecidos sobre o tema, a pesquisa citada no artigo do Le Monde Diplomatique Brasil indica que 42,7% das mulheres evangélicas já sofreram algum tipo de violência doméstica ao longo da vida, percentual superior ao observado entre católicas e mulheres sem religião. O estudo, baseado em dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, revela que a violência não é episódica: ela se repete, se intensifica e costuma ocorrer dentro de relacionamentos estáveis, com forte presença de controle moral, emocional e financeiro.

Outro dado vem de reportagem do Jornal Opção, que repercutiu a pesquisa da socióloga Valéria Cristina Vilhena. Nesse levantamento, 40% das mulheres que relataram ser agredidas por maridos se identificavam como evangélicas. A proporção chamou a atenção dos pesquisadores porque, embora o Brasil tenha grande maioria cristã, o índice de violência entre evangélicas ultrapassou a média proporcional esperada.

Esses números não permitem, por si só, afirmar que a religião seja causa da violência. Mas apontam para um conjunto de fatores que se entrelaçam no cotidiano das mulheres evangélicas. Parte significativa das entrevistadas nos estudos relatou ouvir, de líderes religiosos, aconselhamentos baseados em ideias de submissão, perdão compulsório e preservação da família — mesmo diante de situações de risco. Em vários depoimentos analisados em pesquisas acadêmicas, mulheres relatam que denunciar seria “falta de fé”, “rebeldia espiritual”, ou um ato que “envergonha o evangelho”. Esse tipo de pressão reforça o silêncio e dificulta a busca por ajuda institucional.

Pesquisadores também observam que, em muitos segmentos evangélicos — especialmente pentecostais e neopentecostais —, a figura do homem como “autoridade espiritual” é frequentemente utilizada para justificar comportamentos de controle, ciúme extremo e vigilância sobre a vida da mulher. A interpretação literal de textos bíblicos sobre submissão e liderança masculina aparece, em diversos relatos, como justificativa para manutenção de relações abusivas. Esse ponto não se refere à fé em si, mas à forma específica como determinados grupos interpretam e aplicam a teologia no cotidiano das famílias.

A ausência de dados oficiais sobre feminicídio e religião cria lacunas importantes. Sem registros formais, não há como quantificar quantas mulheres evangélicas, católicas ou de outras religiões são mortas anualmente por parceiros íntimos. O que se conhece, com precisão, é o quadro geral: segundo o último Anuário Brasileiro de Segurança Pública, o Brasil registrou 1.492 feminicídios em 2024, uma média de quatro mulheres assassinadas por dia. Mesmo sem o recorte religioso, estudiosos da violência de gênero afirmam que os padrões observados entre evangélicas — silêncio, culpa, dependência emocional e pressão comunitária — são fatores que podem aumentar a exposição ao risco.

No Tocantins, o tema ganha ainda mais relevância. O estado apresenta forte presença evangélica, especialmente em cidades pequenas e médias, onde a igreja exerce papel comunitário central. Ao mesmo tempo, o Tocantins registrou oscilações preocupantes nos índices de violência doméstica. Dados estaduais apontam que, em 2023, houve ao menos 18 feminicídios, aumento comparado ao ano anterior. No mesmo período, o Ligue 180 registrou crescimento na procura por ajuda, sinal de que as vítimas enfrentam agressões recorrentes, mas começam a buscar mais apoio.

Embora o estado não forneça recorte por religião, organizações que atuam em acolhimento de vítimas apontam que muitas mulheres atendidas se identificam como evangélicas e relatam dificuldades específicas: medo de romper o casamento, receio de julgamento pela comunidade religiosa e conselhos pastorais que priorizam a manutenção da família, não a segurança da mulher. Profissionais que trabalham em casas-abrigo relatam que, frequentemente, mulheres evangélicas chegam ao serviço após anos de violência, tendo buscado ajuda primeiro em líderes religiosos — e não no sistema de proteção estatal.

Por outro lado, cresce também no meio evangélico um movimento de enfrentamento à violência doméstica. Redes de mulheres cristãs, pastoras, teólogas e psicólogas têm promovido leituras bíblicas alternativas, com foco na proteção da vítima, na igualdade de gênero e na responsabilização do agressor. Isso mostra que a religião não é, por si só, um fator de risco: ela pode alimentar tanto estruturas que silenciam quanto iniciativas que salvam vidas.

O que se pode afirmar, com base nos estudos revisados, é que a mulher evangélica enfrenta um conjunto de obstáculos particulares que aumentam a vulnerabilidade: pressão comunitária, doutrinas rígidas sobre família, ausência de educação sexual e de gênero, dependência econômica e uma estrutura patriarcal fortalecida por certas interpretações religiosas. A combinação desses elementos ajuda a explicar por que esse grupo aparece com alta prevalência de violência doméstica, mesmo que faltem dados formais sobre feminicídio.

A análise final aponta para um desafio urgente: incluir, nos registros nacionais de violência contra a mulher, informações sobre filiação religiosa. Sem isso, o Brasil continuará discutindo um problema gigantesco sem a base científica necessária para enfrentá-lo com precisão. Enquanto essa mudança não ocorre, as evidências disponíveis mostram que compreender a situação da mulher evangélica é fundamental para qualquer política pública voltada à redução da violência de gênero — especialmente em estados como o Tocantins, onde estruturas comunitárias religiosas têm peso decisivo no cotidiano das famílias.

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