Portelinhando Crônicas: O Tocantins e a arte de governar sem ser governador
Por João Portelinha – No Tocantins, a política resolveu abraçar de vez o território do inusitado, misturando comédia e drama num espetáculo que nem Shakespeare ousaria escrever. Desde que deixou o cargo, o ex-governador parece não ter entendido que o bastão foi passado — ou, ao menos, deveria ter sido. Agora, circula pelo Estado como se ainda fosse o dono da festa, distribuindo opiniões como quem oferece autógrafos, posando para fotos em toda esquina e surgindo em eventos com a naturalidade de quem nunca saiu do elenco fixo. Se duvidar, só faltou mesmo esquecer a cadeira do governo em casa e pedir para buscar “por engano”, como quem volta para pegar a blusa deixada no sofá do amigo.
O fenômeno já rendeu até memes: “O Tocantins virou condomínio com síndico titular e síndico honorário?” Ou será que viramos uma novela cujo roteiro insiste em repetir a mesma temporada com os mesmos protagonistas, como se o público estivesse condenado a assistir o remake eterno? O fato é que essa presença obstinada criou uma espécie de dualidade governamental — um governador legítimo, no exercício oficial, e outro que vaga pelo território fantasmagórico do poder perdido, mas religiosamente cultivado.
Enquanto isso, o atual governador tenta fazer o básico: governar. Mas a cada passo sente no cangote o sopro dessa sombra política que cochicha: “Eu faria diferente… se ainda estivesse aqui.” A política tocantinense virou uma peça truncada, onde o personagem que já deveria ter deixado o palco insiste em voltar ao centro, roubando luz, confundindo plateia e atores, embaralhando o enredo e deixando a direção teatral em desespero.
E o povo? Esse assiste de camarote, entre o riso nervoso e a irritação silenciosa, vendo uma pantomima em que quem deveria liderar é empurrado para a arquibancada, enquanto um ator aposentado insiste em dirigir o espetáculo pelos bastidores. Não existe magia nenhuma em governar sem mandato; existe, sim, o velho truque da política brasileira: fazer barulho suficiente para parecer que ainda manda.
Mas a democracia não é reality show, muito menos festival de reprises. Não dá para disputar temporadas no mesmo papel quando o contrato já expirou — embora sempre exista aquele que insiste. É o típico personagem que retorna sem ser chamado, o convidado inconveniente que permanece na festa mesmo quando as luzes já se apagaram, as cadeiras foram empilhadas e o anfitrião já está fechando a porta.
No fim, o Tocantins vira cenário desse enredo desconcertante: um governa, outro finge governar, e o povo paga o ingresso de um espetáculo que já queria ver encerrado — porque o futuro político do Estado merece, urgentemente, um roteiro novo.