Cesta básica dispara em 2025: Dieese revela pressão histórica sobre renda nas capitais
O novo relatório do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) mostra que o custo da cesta básica voltou a subir no país em outubro de 2025, com aumento em 16 das 27 capitais monitoradas. Os dados, divulgados após a ampliação da parceria entre Dieese e Conab para coleta nacional de preços, revelam um cenário de pressão alimentar persistente, mesmo em um ano marcado por recuos pontuais em produtos-chave.
Segundo o levantamento, capitais como São Luís (3,11%), Palmas (2,59%), Florianópolis (1,66%) e Rio Branco (1,62%) registraram as maiores altas mensais. O relatório também indica que, apesar de oscilações regionais, a tendência é de encarecimento concentrado em itens que dependem de fatores climáticos, câmbio e demanda internacional.
De acordo com o Dieese, São Paulo segue com a cesta mais cara do país (R$ 847,14), seguida por Florianópolis (R$ 824,57), Porto Alegre (R$ 823,57) e Rio de Janeiro (R$ 801,37). Nas capitais do Norte e Nordeste, onde a composição da cesta é diferente, os menores valores permanecem em Aracaju (R$ 550,18), Maceió (R$ 592,25), Salvador (R$ 606,39) e Recife (R$ 608,03).
Pressão sobre a renda: mais horas de trabalho, menos comida na mesa
O relatório estima que, em outubro, o trabalhador remunerado pelo salário mínimo precisou dedicar 100 horas e 19 minutos para adquirir os itens básicos — número superior ao de setembro (99h53). Isso significa que 49,29% da renda líquida do salário mínimo foram consumidos apenas com alimentação essencial, contra 49,09% no mês anterior.
Embora o percentual seja menor do que o observado em 2024 (51,72%), o Dieese aponta que a melhora não expressa alívio real no cotidiano do consumidor, já que os produtos mais voláteis do conjunto — como tomate, óleo e batata — tiveram novos avanços de preço.
Palmas: alta expressiva e impacto imediato no Tocantins
No Tocantins, Palmas registrou uma das maiores altas do país, com aumento de 2,59% e cesta chegando a R$ 695,42. A pressão veio sobretudo do tomate (27,75%), do óleo de soja (4,19%), da banana (2,23%) e da manteiga (0,18%).
Itens essenciais como carne, leite, feijão e pão francês permaneceram estáveis, enquanto produtos como arroz (-7,91%), açúcar (-1,19%) e café (-1,02%) ajudaram a evitar um salto ainda maior no custo total.
Mesmo com queda acumulada de 6,88% nos últimos seis meses — reflexo do recuo profundo no preço do tomate e do arroz — o consumidor palmense segue destinando uma parcela crescente da renda ao básico. Em outubro, um trabalhador precisou trabalhar 100 horas e 47 minutos para comprar a cesta, contra 98h15 em setembro. O comprometimento da renda líquida chegou a 49,53%, o maior entre as capitais monitoradas no Centro-Norte.
Comportamento dos produtos: o que subiu e o que caiu no país
Entre setembro e outubro, o Dieese registra movimentos distintos:
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Batata subiu em todas as capitais do Centro-Sul, com altas de até 34,32% no Rio de Janeiro — reflexo da entressafra e da menor oferta no mercado interno.
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Óleo de soja teve aumento em todas as 27 capitais, pressionado pelo dólar e pela demanda externa, com variação entre 1,21% e 9,66%.
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Leite mostrou comportamento misto: aumento em nove capitais, estabilidade em Palmas e queda em 17 cidades devido à abundância de leite cru no mercado.
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Carne bovina de primeira apresentou elevação em 19 capitais, estabilidade em Palmas e queda em sete cidades.
O relatório destaca que, embora alguns alimentos tenham perdido força ao longo do ano — como arroz, feijão e farinha — produtos com peso relevante na inflação alimentar continuam pressionando o orçamento das famílias.
Por que comer ficou tão caro?
Economistas ouvidos pelo Dieese apontam três fatores centrais:
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Oscilações climáticas que afetam colheitas sensíveis, como tomate e batata.
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Taxa de câmbio elevada, que encarece commodities como soja e milho.
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Demanda internacional aquecida, especialmente para grãos e derivados.
A combinação desses elementos impõe um desafio adicional às famílias de renda mais baixa, que destinam proporção maior da renda à alimentação.
Perspectivas
Embora o Dieese indique que algumas capitais apresentaram recuo parcial em itens-chave, a projeção para o último bimestre do ano ainda aponta para instabilidade de preços, especialmente em produtos cuja oferta depende diretamente da sazonalidade agrícola.
Para 2026, analistas avaliam que o desempenho da cesta básica deverá depender da taxa de câmbio, das condições climáticas e da recomposição dos estoques nacionais.