OPINIÃO | A violência contra a mulher é ensinada — e muitos púlpitos ajudam a sustentá-la
A violência contra a mulher no Brasil não é acidental: ela nasce de discursos, práticas e estruturas que moldam a desigualdade
Brasil não é obra do acaso. Ela é construída diariamente por um sistema social que ensina homens a ocupar o topo e mulheres a aceitar o chão. Esse sistema se mantém porque é alimentado por instituições, práticas culturais e discursos simbólicos que naturalizam a desigualdade. E entre esses discursos, parte do campo religioso brasileiro exerce influência determinante — não por causa da fé em si, mas pelo uso da fé para legitimar hierarquias de gênero profundamente enraizadas.
A violência contra a mulher aparece nas estatísticas com brutal clareza. Em 2023, o país registrou 1.463 feminicídios, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública — o maior número da série histórica. Uma mulher é assassinada a cada seis horas, enquanto mais de 245 mil denúncias de violência doméstica são formalizadas por ano. A maioria dos agressores é conhecida da vítima: parceiros, ex-parceiros, homens que, em muitos casos, foram educados a acreditar que possuem autoridade sobre a vida das mulheres. Esse padrão não se repete por acaso. Ele se repete porque existe um conjunto de narrativas que ensina, sustenta e justifica essa estrutura.
Violência contra a mulher: quando o púlpito reforça a submissão
Entre essas narrativas está a leitura literal de trechos das cartas paulinas — como “mulheres, sede submissas aos vossos maridos” — repetidas em milhares de comunidades religiosas como se fossem regras aplicáveis à sociedade atual. Quando esses textos deixam o contexto histórico e são tratados como mandamentos imediatos, constroem uma teologia que coloca o homem como autoridade espiritual e a mulher como subordinada. Isso produz efeitos concretos: mulheres são aconselhadas a suportar agressões “para não desagradar a Deus”, e homens se sentem autorizados a controlar comportamento, finanças, rotina e decisões da parceira.
Uma pesquisa do Instituto Avon mostra que uma em cada três mulheres que buscam apoio religioso após sofrer agressão ouve orientações como “volte para casa”, “tenha paciência”, “ore mais”. Trata-se de uma espiritualização da submissão, que não protege a família — protege a desigualdade. A fé deveria acolher, mas parte das interpretações praticadas no Brasil reforça culpa, silêncio e permanência em contextos de risco.
Violência contra a mulher: quando o discurso antecede o crime
Nenhuma agressão surge espontaneamente. Toda violência contra a mulher nasce antes — no discurso. Como especialista em semiótica, observo que o feminicídio é apenas o último estágio de uma cadeia simbólica: primeiro se ensina que a mulher deve ceder, depois que o homem deve liderar, depois que casamento é indissolúvel, depois que sofrimento é virtude. Por fim, a violência aparece como consequência “inevitável” de uma ordem social pré-estabelecida. Quando púlpitos reforçam que a mulher deve “suportar” e o Estado recua de políticas educacionais e de proteção por pressão religiosa, a violência física se torna apenas o sintoma visível de um problema muito mais profundo.
Violência contra a mulher: quando a fé se transforma em ferramenta de controle
É importante dizer com precisão: não é Deus quem legitima desigualdade. São interpretações específicas, produzidas por estruturas de poder, que utilizam a fé como cobertura moral para a dominação masculina. Quando uma igreja ensina que a mulher deve se sacrificar, mas não cobra dos homens a renúncia de privilégios, ela reforça o desequilíbrio. Quando líderes religiosos se opõem a políticas de igualdade de gênero, não estão defendendo valores espirituais — estão defendendo um modelo social que lhes garante influência. A fé é uma força poderosa, mas, quando instrumentalizada, pode se tornar o cimento que sustenta a desigualdade.
Violência contra a mulher: enfrentar o problema exige enfrentar o discurso
O Brasil só reduzirá a violência contra a mulher quando enfrentar o que realmente a sustenta: uma combinação de cultura, omissão estatal e teologias que reforçam a submissão feminina. Não basta construir delegacias especializadas. Não basta criminalizar o agressor. É preciso romper com os discursos que moldam comportamentos, que silenciam vítimas, que transformam agressão em conflito conjugal, que fazem mulheres temer a liberdade mais do que a violência.
Enquanto parte do campo religioso continuar ensinando que a mulher deve obedecer e o homem deve comandar, não haverá política pública capaz de neutralizar o efeito cultural dessa narrativa. Porque a violência não nasce no momento do crime: ela nasce no imaginário.
A sociedade brasileira precisa ter coragem de discutir o que sempre evitou. Não é possível analisar feminicídio sem analisar poder. E não é possível analisar poder sem examinar as instituições que o reproduzem. O Brasil continuará perdendo vidas enquanto tratar violência como acidente. Ela não é exceção: é estrutura.
E estruturas só mudam quando alguém decide nomeá-las.
Fernanda Cappellesso é Jornalista, publicitária, especialista em semiótica, hermenêutica, ciências sociais, editoração e marketing político e digital.