“Nunca se mente tanto”: João Portelinha da Silva analisa eleições, poder e negociações políticas

“Nunca se mente tanto”: João Portelinha da Silva analisa eleições, poder e negociações políticas
João PortelinhaPor João Portelinha 9 de dezembro de 2025 3

O comportamento de lideranças políticas às vésperas do período eleitoral voltou ao centro do debate nacional após declarações recentes do senador Flávio Bolsonaro sobre uma possível candidatura à Presidência da República. Para o articulista João Portelinha da Silva, o episódio expõe uma prática recorrente na política brasileira: a transformação de candidaturas em instrumentos de negociação.

Em artigo publicado na série Sentir a Terra nas Vozes Populares, Portelinha relembra a frase atribuída ao ex-chanceler alemão Otto von Bismarck — “nunca se mente tanto como antes das eleições, durante uma guerra e depois de uma caçada” — para contextualizar o momento atual do país.

Segundo o autor, o senador Flávio Bolsonaro passou, em curto espaço de tempo, de um discurso de convicção firme sobre disputar a Presidência para uma postura aberta à negociação política. “Não houve mudança no cenário nacional em 24 horas. O que mudou foi a conveniência”, avalia.

Para João Portelinha, esse tipo de movimento revela que, em muitos casos, a candidatura não é apresentada como um projeto consolidado de governo, mas como um ativo político. “Quando um político anuncia uma candidatura e, logo em seguida, admite negociá-la, ele sinaliza que sua convicção estava condicionada a acordos”, aponta.

O articulista observa que o processo eleitoral tende a assumir contornos de disputa permanente, em que o debate público dá lugar a negociações internas. “Eleições passam a ser tratadas como guerra, a guerra vira caça a adversários, e a política acaba resolvida em ambientes fechados, distantes da população”, afirma.

Nesse contexto, Portelinha aponta que o eleitor costuma ser o principal afetado. Segundo ele, a repetição desse comportamento gera desgaste, descrédito e sensação de déjà vu a cada novo ciclo eleitoral. “Princípios que se dizem inegociáveis tornam-se flexíveis quando surgem pesquisas desfavoráveis ou rearranjos partidários”, analisa.

O texto também destaca que, na avaliação do autor, a distorção não ocorre de forma casual. “A mentira, nesse cenário, deixa de ser um acidente e passa a ser método. Primeiro se amplia o discurso para acumular capital político; depois, negocia-se esse capital nos bastidores”, escreve.

Para João Portelinha da Silva, esse modelo enfraquece o debate democrático e transforma o processo eleitoral em uma disputa de interesses, afastando propostas estruturais para o país. “O que acaba sendo negociado não é apenas uma candidatura, mas a confiança do eleitor”, conclui.

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