“Da boca dele saem latidos de ordem, mas a coleira é do ódio”, diz João Portelinha em artigo
No artigo desta quinta-feira (11/12), João Portelinha descreve, em tom firme e crítico, a presença recorrente de discursos autoritários que voltam a rondar o país como um cão que nunca deixa a porta da história. Ele afirma que a sociedade brasileira naturalizou sons, gestos e símbolos que, em outros tempos, seriam sinais claros de alerta: o rosnar constante, a baba que escorre, os pelos que se acumulam sobre o tapete institucional.
Para Portelinha, a metáfora central é direta: a cadela do fascismo vive em cio permanente. Não adormece. Apenas repousa entre uma crise e outra, alimentada por manchetes inflamadas, discursos extremos e silêncios que funcionam como anuência. O autor afirma que esse “cio” é movido por medos antigos, saudades inventadas e fantasias de uma ordem idealizada que sempre começa queimando livros e termina suprimindo vidas.
Segundo o texto, cada aplauso aos discursos de violência funciona como um osso lançado ao ar, ensinando que brutalidade rende prestígio. A coleira, diz o autor, é conduzida por mãos que se dizem patrióticas, mas que agem corroendo direitos, minguando garantias e transformando minorias em alvos.
Portelinha alerta ainda para o avanço dessa retórica dentro das instituições, onde projetos de lei passam a cheirar a retrocesso, microfones são usados para alimentar ódio e a estrutura democrática vira espaço de disputa predatória. Quem nomeia essa cadela pelo nome verdadeiro enfrenta dentes velhos, afiadas na sombra onde fingia estar adormecida.
O artigo conclui que, se o autoritarismo está sempre em cio, é porque nunca lhe faltam donos dispostos a acariciá-lo — vestindo-o com palavras como “ordem”, “família”, “pátria”, “paz” ou “democracia verdadeira”. Para Portelinha, a única coleira capaz de conter esse ímpeto destrutivo é a vigilância constante da sociedade: firme, consciente e preparada para impedir que o latido se torne lei.
O autor encerra reforçando que a história não se move sozinha: ou o país segura a coleira, ou será arrastado por ela para o mesmo abismo de onde tantas vezes tentou escapar.