Padrão de corpo masculino muda e impulsiona boom de academias e estética no Brasil
Pressão por músculos, definição e aparência jovem cresce entre homens, impulsionada pelas redes sociais e pela cultura da performance.
A relação dos homens com o próprio corpo passa por uma transformação silenciosa, porém acelerada, no Brasil. A busca por músculos definidos, baixo percentual de gordura e aparência associada a força e sucesso impulsiona um crescimento expressivo do mercado de academias, procedimentos estéticos e serviços ligados ao corpo masculino.
Dados do setor indicam que homens já representam a maioria dos frequentadores regulares de academias no país. Levantamento da International Health, Racquet & Sportsclub Association mostra que cerca de 55% dos alunos ativos são do sexo masculino, percentual que cresce de forma contínua desde a pandemia. No Brasil, o número de academias supera 35 mil unidades, colocando o país entre os três maiores mercados do mundo, atrás apenas de Estados Unidos e México.
O movimento não se limita à atividade física. Clínicas de estética relatam aumento significativo da procura masculina por procedimentos como aplicação de toxina botulínica, harmonização facial, tratamentos capilares e redução de gordura localizada. Dados da Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética indicam que homens já respondem por cerca de 20% dos procedimentos estéticos não cirúrgicos no mundo, proporção que cresce de forma mais acelerada na América Latina.
Especialistas em comportamento apontam que as redes sociais desempenham papel central nesse processo. Plataformas baseadas em imagem amplificam padrões corporais difíceis de alcançar, muitas vezes associados a rotinas extremas de treino, dietas rígidas e corpos editados digitalmente. Diferentemente de décadas anteriores, a pressão estética deixou de ser majoritariamente feminina e passou a atingir homens de diferentes faixas etárias.
Psicólogos alertam que esse novo padrão produz impactos diretos na saúde mental masculina. Casos de insatisfação corporal, ansiedade e distorção da autoimagem tornaram-se mais frequentes nos consultórios. O fenômeno é comparado, por pesquisadores, ao que ocorreu com mulheres a partir dos anos 1990, quando a indústria da imagem passou a ditar modelos de corpo quase inalcançáveis.
Na área médica e esportiva, cresce a preocupação com excessos. Educadores físicos relatam aumento de lesões associadas a sobrecarga, enquanto médicos observam maior procura por substâncias que prometem ganho rápido de massa muscular ou redução de gordura. O uso inadequado de hormônios e anabolizantes segue como um dos principais riscos, com efeitos que podem incluir alterações cardiovasculares, hormonais e psicológicas.
O fenômeno também reflete mudanças culturais mais amplas. O corpo masculino passou a ser tratado como capital simbólico, associado a desempenho profissional, sucesso social e até autoridade. A estética deixa de ser apenas uma questão individual e passa a integrar dinâmicas de mercado, identidade e status.
Pesquisadores ressaltam que cuidar da saúde e do corpo não é, por si só, um problema. O alerta está na substituição do bem-estar por metas estéticas rígidas e na naturalização de práticas potencialmente nocivas. O desafio, segundo especialistas, é ampliar o debate público sobre saúde masculina, imagem corporal e limites entre cuidado, pressão social e risco.
O crescimento desse mercado revela uma mudança profunda no comportamento masculino contemporâneo. Ao mesmo tempo em que amplia oportunidades econômicas, ele expõe uma nova fronteira de tensão entre corpo, identidade e saúde — ainda pouco discutida fora dos círculos especializados.