Retrospectiva 2025: o ano em que o mundo normalizou a instabilidade — e o Brasil sentiu seus efeitos até o nível regional

Retrospectiva 2025: o ano em que o mundo normalizou a instabilidade — e o Brasil sentiu seus efeitos até o nível regional
Fernanda CappellessoPor Fernanda Cappellesso 30 de dezembro de 2025 18

Um ano de confirmação histórica

O ano de 2025 encerrou-se como a consolidação de um padrão que vinha se formando desde o início da década: a instabilidade deixou de ser conjuntural e passou a estruturar o funcionamento do sistema internacional. Guerras prolongadas, desaceleração econômica, crise climática, fragilidade institucional e avanço tecnológico acelerado atuaram de forma simultânea, sem que houvesse respostas coordenadas capazes de reverter o cenário.

Não se tratou de um colapso global, mas de uma normalização do risco. Estados operaram sob contenção fiscal, democracias sob pressão política e economias cresceram abaixo do potencial. Esse ambiente atingiu não apenas as grandes potências, mas também países emergentes, estados e municípios.

Governabilidade no Brasil e limites do Estado

No Brasil, 2025 marcou o terceiro ano do governo de Lula, tradicionalmente um período de consolidação política. O que se observou, no entanto, foi a cristalização de um modelo de governabilidade fortemente condicionado pelo Congresso Nacional. Ao longo do ano, o Parlamento ampliou seu controle sobre o Orçamento da União, com crescimento expressivo das emendas parlamentares e redução da margem de decisão do Executivo.

Esse arranjo limitou a capacidade do governo federal de executar políticas públicas estruturantes e de longo prazo. Áreas como educação, ciência, tecnologia e políticas sociais enfrentaram restrições orçamentárias, enquanto o debate fiscal concentrou-se na contenção de despesas e na estabilidade da dívida pública.

O arcabouço fiscal, aprovado para substituir o teto de gastos, funcionou como instrumento de previsibilidade das contas públicas, mas também como freio à ampliação do investimento estatal. A agenda econômica foi marcada mais pela gestão de riscos do que por estratégias de crescimento acelerado.

Economia brasileira: crescimento moderado e desigual

A economia brasileira encerrou 2025 com crescimento moderado do Produto Interno Bruto, sustentado principalmente pelo setor de serviços e pelo agronegócio. A indústria manteve trajetória de perda relativa de participação no PIB, reflexo de juros reais elevados, baixa produtividade e dependência tecnológica externa.

A inflação permaneceu abaixo dos picos observados entre 2021 e 2023, mas o custo de vida continuou elevado. Alimentos, energia elétrica, transporte e serviços essenciais seguiram pressionando o orçamento das famílias, especialmente nas faixas de renda mais baixa.

O mercado de trabalho apresentou melhora gradual, com redução da taxa de desemprego em relação aos anos anteriores. Ainda assim, a informalidade permaneceu elevada e a renda média mostrou estagnação, limitando o impacto social do crescimento econômico.

Clima e meio ambiente como fatores econômicos

Em 2025, o clima consolidou-se como variável econômica central. Estiagens prolongadas, ondas de calor e episódios de enchentes afetaram a produção agrícola, pressionaram preços e impactaram cadeias de abastecimento.

Dados oficiais indicaram redução do desmatamento ilegal na Amazônia em comparação com anos anteriores, resultado de maior fiscalização e uso de tecnologia de monitoramento. Em contrapartida, as queimadas voltaram a crescer em períodos críticos de seca, especialmente no Cerrado e em áreas de transição amazônica, evidenciando limites estruturais das políticas ambientais.

Os eventos climáticos extremos passaram a influenciar diretamente inflação, exportações e segurança alimentar, deixando de ser tratados apenas como pauta ambiental.

Tocantins: crescimento do agro e fragilidade social

No plano regional, o Tocantins refletiu, em escala local, as contradições do cenário nacional. A economia estadual permaneceu fortemente ancorada no agronegócio, com destaque para soja, milho e pecuária bovina. O estado manteve posição estratégica no Matopiba, beneficiando-se da expansão agrícola e da integração logística com outros mercados.

Esse crescimento, no entanto, apresentou limites claros. A dependência do setor primário expôs o Tocantins à volatilidade climática e às oscilações de preços das commodities. Estiagens e queimadas no Cerrado afetaram áreas produtivas e elevaram custos operacionais.

Do ponto de vista social, o avanço econômico não se converteu de forma proporcional em melhoria dos serviços públicos. Municípios enfrentaram dificuldades na manutenção da saúde, da educação e da infraestrutura urbana. Palmas concentrou investimentos e serviços, enquanto cidades do interior permaneceram altamente dependentes de transferências estaduais e federais.

O orçamento estadual operou sob forte restrição, influenciado pelo cenário fiscal nacional, com priorização de projetos ligados à logística e energia, em detrimento de políticas sociais de maior alcance.

Conflitos armados e esvaziamento do multilateralismo

No cenário internacional, 2025 foi marcado pela continuidade de conflitos armados que moldaram a política global. A guerra em Gaza permaneceu como a principal crise humanitária do planeta, com elevado número de vítimas civis, destruição de infraestrutura básica e restrições à ajuda humanitária.

A guerra na Ucrânia entrou em fase prolongada de desgaste, com impactos econômicos diretos sobre a Europa. Países ampliaram gastos militares, pressionando orçamentos públicos e reconfigurando matrizes energéticas.

Esses conflitos evidenciaram a fragilidade do sistema multilateral. O Conselho de Segurança da ONU seguiu paralisado por vetos sucessivos, reduzindo a capacidade de mediação internacional e reforçando a lógica da força sobre a lógica das normas.

Estados Unidos e efeitos sistêmicos do nacionalismo

A posse de Donald Trump, em janeiro de 2025, marcou uma inflexão na política externa dos Estados Unidos. O novo governo adotou postura nacionalista, revisando compromissos ambientais, pressionando aliados comerciais e enfraquecendo fóruns multilaterais.

O impacto foi imediato nos mercados globais, com aumento da volatilidade financeira e incertezas sobre cadeias globais de suprimento. Economias emergentes, como a brasileira, sentiram os efeitos por meio de flutuações cambiais e mudanças no fluxo de capitais.

Economia global e concentração de poder

A economia mundial cresceu abaixo da média histórica em 2025. Apesar da desaceleração da inflação global, as taxas de juros permaneceram elevadas nas principais economias, restringindo investimentos produtivos.

Países emergentes enfrentaram maior vulnerabilidade externa, enquanto economias centrais concentraram tecnologia, capital e capacidade de inovação. A China manteve crescimento controlado, priorizando estabilidade interna, inovação tecnológica e autonomia em setores estratégicos.

Tecnologia e inteligência artificial como eixo estratégico

Em 2025, a inteligência artificial consolidou-se como infraestrutura estratégica de poder. A disputa por semicondutores, dados e talentos tornou-se central na geopolítica. Estados Unidos e China lideraram investimentos, enquanto a União Europeia avançou em regulação.

Países periféricos atuaram majoritariamente como consumidores dessas tecnologias, ampliando dependências estruturais. No mercado de trabalho, os ganhos de produtividade coexistiram com substituição de funções intermediárias e maior concentração de renda.

Um retrato de transição prolongada

A retrospectiva de 2025 revela um padrão consistente: crises deixaram de ser exceção e passaram a operar como estrutura. Democracias funcionaram sob tensão, economias cresceram pouco, conflitos se prolongaram e o clima tornou-se fator permanente de risco.

No Brasil, esse cenário global alcançou estados e municípios, como o Tocantins, evidenciando a distância entre crescimento econômico e desenvolvimento social. Mais do que um ano difícil, 2025 consolidou o ambiente que molda a segunda metade da década.

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