Energia furtada em Goiás em 2025 abasteceria Goiânia por 6 dias, aponta levantamento

Energia furtada em Goiás em 2025 abasteceria Goiânia por 6 dias, aponta levantamento
Fernanda CappellessoPor Fernanda Cappellesso 8 de janeiro de 2026 8

O furto de energia elétrica segue como um dos principais problemas estruturais do sistema de distribuição em Goiás e alcançou, em 2025, um patamar que ajuda a dimensionar o tamanho do prejuízo coletivo. Levantamento da Equatorial Goiás aponta que o volume de energia consumida de forma irregular no estado ao longo do ano passado chegou a 22,47 gigawatt-hora (GWh) — quantidade suficiente para abastecer toda a cidade de Goiânia por seis dias consecutivos, considerando o consumo médio residencial.

Para efeito de comparação, esse mesmo montante permitiria manter Anápolis abastecida por 23 dias e Aparecida de Goiânia por 19 dias, evidenciando que o furto de energia deixou de ser um fenômeno pontual para se tornar um fator relevante de pressão sobre o sistema elétrico e sobre a tarifa paga pelos consumidores regulares.

Os dados revelam ainda que, apenas em 2025, foram realizadas mais de 370 operações de combate às ligações clandestinas, com 188 prisões efetuadas. O número indica não apenas a persistência do crime, mas também sua capilaridade territorial. Goiânia lidera o ranking de ocorrências, com 5.118 casos, seguida pela Região Metropolitana (5.105), Luziânia (4.341) e municípios do interior como Uruaçu, Morrinhos, Montes Belos, Anápolis, Rio Verde e Iporá, todos com milhares de registros.

Especialistas do setor elétrico apontam que o impacto do furto vai muito além da perda financeira das concessionárias. A energia desviada compromete o equilíbrio da rede, provoca sobrecarga em transformadores, aumenta o risco de interrupções no fornecimento e eleva a probabilidade de acidentes graves, como curtos-circuitos e incêndios. Na prática, trata-se de um custo social diluído entre todos os consumidores, já que as perdas técnicas e comerciais acabam influenciando a estrutura tarifária do sistema.

Outro aspecto que chama atenção é o perfil do consumo irregular. Diferentemente do senso comum que associa o “gato” apenas a residências de baixa renda, operações recentes têm identificado fraudes em estabelecimentos comerciais, indústrias e imóveis de médio e alto padrão, onde o desvio de energia ocorre por meio de adulteração de medidores ou ligações ocultas, muitas vezes com alto grau de sofisticação técnica.

Para dar maior robustez às ações de fiscalização, a Equatorial Goiás passou a contar com laboratório próprio de ensaios em medidores de energia, certificado pelo Inmetro conforme a norma internacional ISO/IEC 17025. A certificação garante que as análises técnicas realizadas em equipamentos suspeitos de fraude sigam padrões internacionais de precisão, rastreabilidade e confiabilidade, reduzindo contestações e fortalecendo a segurança jurídica dos processos.

No campo legal, o enfrentamento ao furto de energia ganhou respaldo adicional em 2025 com a sanção da Lei nº 15.181, que endureceu as penas para crimes envolvendo fios, cabos e equipamentos do sistema elétrico. O furto qualificado passou a ter pena de 2 a 8 anos de reclusão, enquanto roubos que comprometam serviços públicos essenciais podem resultar em 6 a 12 anos de prisão. A receptação de materiais ligados ao sistema elétrico também teve agravamento de pena, podendo chegar a 8 anos na forma qualificada.

Apesar do reforço legal e das operações policiais, o volume de energia furtada indica que o problema permanece estrutural. Especialistas defendem que o combate ao crime elétrico precisa combinar repressão, tecnologia, educação e políticas públicas de regularização do acesso à energia, especialmente em áreas vulneráveis. Sem isso, o ciclo se perpetua: o furto gera prejuízo, o prejuízo pressiona o sistema, e o custo final recai sobre quem paga a conta em dia.

Em um estado com 3,5 milhões de unidades consumidoras distribuídas em 237 municípios, o desvio de energia em escala tão elevada deixa claro que o furto elétrico não é apenas uma infração individual, mas um problema coletivo, que afeta a segurança, a qualidade do serviço e o bolso de toda a população goiana.

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