Uso excessivo de telas acelera avanço da miopia infantil no Brasil e no mundo

Uso excessivo de telas acelera avanço da miopia infantil no Brasil e no mundo
Especialistas reforçam a importância da luz natural na prevenção e alertam para uso excessivo de telas durante as férias
Fernanda CappellessoPor Fernanda Cappellesso 9 de janeiro de 2026 9

O avanço da miopia entre crianças e adolescentes tem se consolidado como um problema de saúde pública no Brasil e em outros países. Dados do Conselho Brasileiro de Oftalmologia indicam que 7,6% das crianças e jovens entre 3 e 18 anos já apresentam a condição no país. Especialistas apontam que o crescimento está diretamente associado ao uso prolongado de telas digitais, à redução do tempo ao ar livre e à exposição insuficiente à luz natural.

O cenário brasileiro acompanha uma tendência internacional. A Organização Mundial da Saúde estima que mais de 30% da população mundial seja míope atualmente e projeta que até 50% das pessoas poderão desenvolver miopia até 2050, caso os padrões atuais de comportamento visual se mantenham.

Telas e foco prolongado em curtas distâncias

O aumento da miopia infantil ocorre em paralelo à expansão do uso de dispositivos eletrônicos desde a primeira infância. Celulares, tablets e computadores passaram a ocupar parte significativa da rotina diária, tanto em atividades escolares quanto no lazer.

Segundo estudos citados pela OMS e por entidades oftalmológicas internacionais, o foco contínuo em curtas distâncias, característico do uso de telas, contribui para alterações no crescimento do globo ocular. Esse crescimento excessivo é o principal mecanismo fisiológico associado ao desenvolvimento da miopia.

No Brasil, levantamento do Datafolha aponta que 78% das crianças de até 3 anos e 94% das crianças entre 4 e 6 anos têm contato diário com telas, com tempo médio entre duas e três horas por dia — patamar acima do recomendado por sociedades médicas.

Comparação internacional

Em países do Leste Asiático, como Coreia do Sul, Japão e China, a prevalência da miopia entre adolescentes ultrapassa 70%, segundo dados de associações médicas locais e da OMS. Na Europa e nos Estados Unidos, estudos recentes mostram crescimento contínuo da miopia infantil desde a popularização dos smartphones e do ensino digital.

Embora o Brasil ainda apresente índices inferiores aos asiáticos, especialistas alertam que o ritmo de crescimento é semelhante, especialmente após o período de aulas remotas durante a pandemia, quando crianças passaram longos períodos em ambientes fechados e em frente às telas.

Luz natural como fator de proteção

A oftalmologista Millane Vieira dos Santos, do Hospital de Olhos de Palmas, explica que a baixa exposição à luz natural agrava o problema. A luz solar estimula a liberação de dopamina na retina, substância que ajuda a regular o crescimento ocular.

Estudos internacionais indicam que crianças que passam ao menos duas horas por dia ao ar livre apresentam menor risco de desenvolver miopia ou de acelerar a progressão do grau. A ausência desse estímulo, comum em rotinas centradas em telas, contribui para o aumento dos casos.

Rotina digital e impacto nas famílias

Em Goiânia, a administradora Patrícia Alves, mãe de um menino de 9 anos diagnosticado com miopia, relata que o problema surgiu após aumento do tempo de tela nas férias escolares. Em Palmas, a professora Renata Moura, mãe de uma criança de 6 anos, relata experiência semelhante após a intensificação do uso de tablet em casa. Casos como esses refletem um padrão observado em consultórios oftalmológicos em todo o país.

Recomendações médicas

A Sociedade Brasileira de Pediatria recomenda:

  • nenhuma exposição a telas para crianças menores de 2 anos;

  • até 1 hora diária entre 2 e 5 anos;

  • até 2 horas diárias entre 6 e 10 anos;

  • limite de 3 horas para adolescentes, com pausas frequentes.

Além do controle do tempo de tela, especialistas indicam ambientes bem iluminados, pausas regulares durante atividades de perto e acompanhamento oftalmológico periódico.

Um desafio de saúde pública

A OMS classifica o avanço da miopia como um dos principais desafios de saúde ocular do século XXI. O início precoce da condição aumenta o risco de graus elevados na vida adulta, associados a complicações como glaucoma, catarata precoce e descolamento de retina.

Para especialistas, a prevenção depende menos de soluções complexas e mais de mudanças estruturais na rotina infantil, especialmente no equilíbrio entre tecnologia, luz natural e atividades ao ar livre.

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