Portelinhando Crônicas: O troféu que reflete luz

Portelinhando Crônicas: O troféu que reflete luz
Fernanda CappellessoPor Fernanda Cappellesso 16 de janeiro de 2026 9

Tratada como excesso de bagagem, a vitória pousa no palco com passos de vidro. Um ator ergue um Globo dourado como quem levanta um espelho rachado: reflete luz, mas também devolve fissuras. Dizem que é prêmio, consagração, passaporte para o Olimpo das estrelas. Aqui embaixo, no chão áspero da república remendada, há quem torça pelo apagão do brilho, pela dissolução do nome de Wagner Moura no teleprompter — como se nunca tivesse existido.

Em qualquer outro lugar, seria dia de festa nacional: bandeiras nas janelas, manchetes orgulhosas, o país inteiro se reconhecendo na travessia de um filme falado em língua estrangeira e língua ferida. Aqui, porém, patriotas de ocasião afiam os dentes nos comentários. Acusam Hollywood, o globalismo, a conspiração comunista — tudo o que poupe o esforço de admitir o incômodo real: alguém pensando por conta própria, sem autorização do coro, sem bênção do quartel. O filme leva prêmio, o ator leva prêmio, a equipe se abraça sob o clarão das câmeras.

E, no fundo de cada fotografia, um país que desconfia de si mesmo. A vitória cruza o oceano na velocidade das notificações, mas tropeça nos mesmos muros de sempre. Os que relativizaram o golpe, os que chamaram de exagero falar em ataque à democracia, agora se contorcem ao ver a arte nomear o que preferiam esquecer. Autonomia dói mais do que derrota eleitoral. Dói ver um brasileiro aplaudido por denunciar fantasmas que ainda rondam os quartéis, por lembrar que há valores teimosos — herdados como cicatriz, transmitidos como sussurro entre gerações que recusam a amnésia programada.

No mesmo calendário em que o prêmio é anunciado, o Supremo Tribunal Federal fecha um capítulo da trama golpista. Distribui sentenças como quem devolve espelhos quebrados aos conspiradores. Lá fora, na tela grande, um agente atravessa corredores sombrios de um passado que insiste em sobreviver; aqui dentro, togas negras percorrem os autos de um presente que quase se deixou sequestrar.

A coincidência não é mero símbolo: é a cultura dizendo “não” em voz alta, enquanto a Justiça escreve esse “não” em linguagem jurídica, parágrafo por parágrafo. Cultura também cura — devagar, puxando pela mão a memória que muitos empurraram escada abaixo.

Talvez por isso doa tanto quando o cinema traz os pesadelos à luz do dia. Ontem, a dor veio com Fernanda Torres, reabrindo os porões, os desaparecimentos que nunca desaparecem, o nome de Rubens Paiva aceso no escuro da sala. Lembrança incômoda: a tortura ainda sangra nos degraus do Congresso e nas fotos de família.

Hoje, é a vez de a hora do pesadelo retornar aos golpistas — não o filme dos monstros da infância, mas o longa em que o monstro veste verde-e-amarelo de shopping center e sorri para selfies diante de prédios depredados. Tentaram reescrever a história com minuta de golpe; a história respondeu com roteiro de resistência.

Num Brasil cansado de servir de palco a experimentos autoritários, o troféu que brilha em Los Angeles parece pequeno diante das favelas, das filas, das estatísticas. Ainda assim, carrega um peso silencioso. Não é só a consagração de um ator ou de um diretor: é a lembrança de que a autonomia segue sendo o verdadeiro escândalo nacional. Autonomia de olhar um golpe e chamá-lo de golpe. Autonomia de afirmar que a democracia não é adereço de cenário, mas o próprio set onde a vida acontece — com erros de continuidade, falas improvisadas e cenas cortadas pela censura de plantão.

A cada prêmio, um país possível ensaia existir, entre um processo no STF e um discurso de agradecimento. No fim, este artigo não encerra nada. Apenas mantém acesa a imagem de um homem segurando um Globo de Ouro como quem segura uma vela na escuridão do pós-golpe. Enquanto houver quem torça contra, a chama tremerá — mas não se apagará.

Porque a arte, teimosa, atravessa gerações como recado rabiscado no verso de um velho cartaz de cinema: não se esqueçam.

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