“A água pode parecer segura, mas carrega riscos invisíveis”, diz pesquisadora após estudo sobre resistência antimicrobiana

“A água pode parecer segura, mas carrega riscos invisíveis”, diz pesquisadora após estudo sobre resistência antimicrobiana
Fernanda CappellessoPor Fernanda Cappellesso 22 de janeiro de 2026 17

água tratada distribuída à população pode atender a todos os parâmetros bacteriológicos exigidos pela legislação brasileira e, ainda assim, abrigar riscos que não aparecem nos métodos tradicionais de monitoramento. Essa é a principal conclusão de um estudo desenvolvido em Porto Alegre (RS), que identificou a presença de genes associados à resistência a antibióticos em amostras de água residual e de água tratada, analisadas ao longo das quatro estações do ano.

Segundo a pesquisadora Tiane Moura, responsável pelo estudo, os resultados revelam uma lacuna relevante na forma como a qualidade da água é avaliada atualmente no país. “A água pode parecer segura, mas carrega riscos invisíveis. Quando falamos de resistência antimicrobiana, estamos lidando com material genético que não é detectado pelos testes convencionais, focados apenas em bactérias cultiváveis”, explica.

A pesquisa combinou análises físico-químicas, microbiológicas e moleculares, permitindo uma leitura mais ampla da dinâmica dos contaminantes nos sistemas hídricos urbanos. Mesmo em amostras de água tratada que cumpriam integralmente os padrões legais de coliformes e Escherichia coli, foram identificados genes de resistência a antibióticos, como o blaOXA-48-like, associado à resistência a carbapenêmicos — antimicrobianos considerados de uso crítico na medicina.

Do ponto de vista ambiental, o achado é relevante porque ambientes aquáticos urbanos funcionam como reservatórios e vetores de disseminação desses genes. A detecção de material genético resistente na ausência de bactérias cultiváveis indica a presença de DNA extracelular ou de microrganismos em estado viável, porém não cultivável, que escapam aos métodos clássicos de laboratório, mas permanecem ativos no ambiente.

O estudo também identificou variações sazonais significativas. Durante o verão, não houve detecção de genes de resistência, possivelmente em razão de fatores como maior diluição hídrica, temperaturas elevadas e maior incidência de radiação solar, que favorecem a degradação do DNA. Já na primavera, observou-se maior frequência de detecção, inclusive em amostras de água tratada, indicando que condições climáticas e hidrológicas influenciam diretamente a circulação desses genes.

Esses resultados refletem as características climáticas do sul do Brasil, onde as estações do ano são bem definidas. Em regiões como o Norte e o Centro-Oeste, incluindo o Tocantins, a dinâmica ambiental é distinta, marcada por períodos de estiagem prolongada e chuvas intensas. Nesses contextos, os padrões de concentração, diluição e persistência de contaminantes podem seguir outras lógicas, o que reforça a necessidade de estudos regionais sobre resistência antimicrobiana na água.

Apesar dos achados, a pesquisadora destaca que os dados não indicam que a água distribuída seja imprópria para consumo nem representam risco imediato à população. O estudo, no entanto, evidencia limitações importantes dos modelos tradicionais de monitoramento ambiental, que não contemplam a circulação de genes de resistência no ambiente aquático.

Sob a perspectiva da saúde ambiental, os resultados reforçam a importância de abordagens integradas, alinhadas ao conceito de Saúde Única (One Health), que reconhece a interdependência entre saúde humana, animal e ambiental. A incorporação de ferramentas moleculares ao monitoramento da qualidade da água pode ampliar a vigilância de riscos emergentes e contribuir para estratégias preventivas diante do avanço global da resistência aos antimicrobianos.

O estudo foi desenvolvido a partir de uma parceria entre universidade pública, instituições estaduais e setor privado, integrando pesquisa acadêmica, estruturas de monitoramento ambiental e expertise técnico-operacional, evidenciando o papel estratégico da ciência colaborativa na identificação de riscos invisíveis à saúde pública.

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