Guinada à direita na América Latina expõe medo, frustração e crise de segurança

Guinada à direita na América Latina expõe medo, frustração e crise de segurança
Fernanda CappellessoPor Fernanda Cappellesso 2 de fevereiro de 2026 15

A vitória de Laura Fernández na Costa Rica não é um episódio isolado. Ela se soma a uma sequência de resultados eleitorais recentes que indicam um reposicionamento do eixo político na América Latina, com o fortalecimento de lideranças identificadas com a direita ou com discursos conservadores, sobretudo em torno da segurança pública, da crítica às elites tradicionais e da rejeição a modelos progressistas clássicos.

Esse movimento não representa uma direita homogênea, ideologicamente organizada ou alinhada em bloco. Trata-se, antes, de uma direita pragmática, moldada por crises concretas — violência, corrupção, estagnação econômica e desconfiança institucional — e menos por debates doutrinários.

O novo perfil da direita latino-americana

Diferente da direita liberal dos anos 1990 ou da direita militar do século XX, a atual direita latino-americana combina elementos variados: discurso de ordem, linguagem anti-establishment, apelo direto ao eleitorado e uso intenso das redes sociais. Em muitos casos, essas lideranças chegam ao poder não prometendo reformas estruturais profundas, mas respostas rápidas a problemas cotidianos, especialmente a criminalidade.

Esse perfil aparece com nuances distintas em países como El Salvador, Equador, Chile e agora na Costa Rica.

Segurança pública como eixo eleitoral comum

O denominador comum entre esses governos é a centralidade da segurança pública. Em regiões marcadas pelo avanço do narcotráfico, das facções e da violência urbana, o eleitorado tem demonstrado disposição para apoiar discursos mais duros, mesmo quando os resultados concretos ainda são incertos.

Na Costa Rica, por exemplo, os homicídios atingiram níveis recordes durante o governo de Rodrigo Chaves, mas sua popularidade permaneceu alta. A eleição de Laura Fernández, herdeira política direta de Chaves, indica que o eleitorado valoriza mais a postura de enfrentamento do que estatísticas imediatas.

Do progressismo ao desgaste institucional

Outro fator decisivo é o desgaste dos projetos progressistas tradicionais. Em vários países da região, governos de centro-esquerda ou esquerda passaram a ser associados, por parcelas do eleitorado, a ineficiência administrativa, corrupção ou incapacidade de lidar com o crime organizado.

Esse desgaste abriu espaço para candidaturas que se apresentam como “fora do sistema”, mesmo quando vinculadas a estruturas de poder já existentes. A direita atual cresce menos por entusiasmo ideológico e mais por frustração acumulada.

A direita venceu — mas governa com limites

Apesar das vitórias eleitorais, a maioria desses governos enfrenta freios institucionais relevantes: parlamentos fragmentados, constituições rígidas e sistemas judiciais relativamente independentes. Isso limita projetos autoritários clássicos e cria um paradoxo: discursos fortes convivem com capacidade limitada de execução.

Na Costa Rica, o partido de Laura Fernández conquistou maioria simples no Congresso, mas não uma supermaioria. No Chile, a direita governa sob forte vigilância institucional. No Equador, o Executivo enfrenta resistência parlamentar constante.

O que isso significa para o Brasil

Para o Brasil, a ascensão da direita na América Latina funciona como espelho e alerta. Espelho porque reforça que temas como segurança pública e rejeição às elites políticas seguem mobilizando o eleitorado. Alerta porque demonstra que, mesmo em democracias estáveis, o medo pode reorganizar rapidamente o campo político.

Além disso, o fortalecimento de governos com discurso de ordem tende a influenciar cooperação regional em segurança, políticas de fronteira e alinhamentos diplomáticos menos ideológicos e mais pragmáticos.

Um movimento menos ideológico e mais reativo

A chamada “virada à direita” na América Latina não deve ser lida como retorno automático ao conservadorismo clássico. Ela expressa um movimento reativo, impulsionado por crises reais e pela percepção de que o Estado perdeu capacidade de garantir segurança, previsibilidade e confiança.

O pêndulo voltou a girar — não por convicção profunda, mas por exaustão social. E isso ajuda a explicar por que esse movimento é, ao mesmo tempo, forte eleitoralmente e frágil institucionalmente.

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