Goiás registra 7,4 raios por km² e Tocantins chega a 18: por que dois estados do Cerrado viraram epicentro das tempestades elétricas no Brasil
Em 2025, o Tocantins ultrapassou 5 milhões de descargas atmosféricas, incluindo 140.777 raios em apenas 24 horas; já Goiás começou 2026 concentrando 35% de todo o volume de 2025 em um único mês. A combinação entre geografia, clima e escala populacional explica a exposição desigual — e pressiona redes operadas por Energisa Tocantins e Equatorial Goiás.
O céu do Centro-Norte brasileiro deixou de ser apenas um marcador do período chuvoso. Os dados consolidados de 2025 e o início anômalo de 2026 reposicionaram Tocantins e Goiás como um epicentro nacional de tempestades elétricas, com efeitos que transbordam a meteorologia e alcançam a segurança pública, a confiabilidade do fornecimento de energia e o cotidiano de milhões de pessoas.
Em números absolutos, o Tocantins encerrou 2025 com mais de 5 milhões de descargas nuvem-solo. Novembro concentrou 1.037.623 raios; dezembro superou 900 mil e entrou para a história no dia 29, quando 140.777 descargasocorreram em 24 horas, superando o recorde anterior. Goiás, por sua vez, somou 2.498.825 raios ao longo de 2025, mas abriu 2026 em ritmo acelerado: quase 900 mil descargas em janeiro, o equivalente a 35% do total do ano anterior comprimido em 31 dias.
Quando a comparação incorpora área, população e número de municípios, o risco ganha contornos mais claros. O Tocantins ocupa cerca de 277 mil km², com 1,6 milhão de habitantes distribuídos em 139 municípios; Goiás tem 336.871 km², 7,2 milhões de habitantes e 246 municípios. Em 2025, isso se traduziu em 18 raios por km² no Tocantins contra 7,4 por km² em Goiás — mais que o dobro de densidade territorial no estado tocantinense. No recorte populacional, a assimetria é ainda maior: 3,1 raios por habitante no Tocantins frente a 0,35 em Goiás, quase nove vezes mais exposição individual.
A ciência aponta uma convergência de fatores físicos para explicar por que tantos raios caem aqui. O clima tropical úmido, a alta umidade do período chuvoso, o relevo predominantemente plano, as grandes áreas abertas do Cerrado e a posição de transição entre a Amazônia e o Centro-Oeste favorecem a formação de nuvens convectivas profundas. O aquecimento intenso do solo durante o dia carrega essas nuvens de energia, que se descarrega de forma concentrada — ora em picos diários extremos, como no Tocantins, ora em janelas mensais comprimidas, como em Goiás.
Essa energia não fica apenas no céu. Uma descarga atmosférica pode alcançar 100 milhões a 1 bilhão de volts, com correntes de até 30 mil ampères. Mesmo sem impacto direto na rede, surtos de tensão se propagam pelas fiações, capazes de danificar transformadores, queimar equipamentos, provocar incêndios e interromper o fornecimento. Em redes majoritariamente aéreas, o risco se multiplica.
No Tocantins, a Energisa opera sob pressão constante durante o período chuvoso. A empresa mantém planos anuais de manutenção preventiva e contingência, com inspeções, manejo de vegetação, podas técnicas, equipes reforçadas e uso de tecnologias de religamento automático. Até o fim de 2025, foram R$ 605 milhões investidos em subestações, modernização de equipamentos e automação, o que permite restabelecer trechos da rede com maior rapidez mesmo antes do término das frentes de serviço.
Em Goiás, a escala do desafio é outra. A Equatorial Goiás atende cerca de 3,5 milhões de unidades consumidorasem 237 municípios, cobrindo 98,7% do território estadual. A concentração de quase 900 mil raios em um único mês amplia a probabilidade de interrupções simultâneas e exige coordenação operacional ampliada para manter a continuidade do serviço em um sistema vasto e interligado.
Diante desse cenário, as concessionárias reforçam orientações de segurança que fazem diferença quando o céu escurece. Evitar abrigo sob árvores, afastar-se de rios, lagos e piscinas, buscar locais fechados como casas ou veículos, desligar aparelhos das tomadas, não usar chuveiro elétrico e manter distância de estruturas metálicassão medidas simples que reduzem riscos. Nunca tocar em fios caídos e providenciar aterramento elétrico nos imóveis também são ações essenciais.
Os recordes recentes indicam que não se trata de um episódio isolado. Um dia no Tocantins concentrou mais raios do que meses inteiros em outros estados; um mês em Goiás já reproduziu um terço de um ano completo. No coração do Cerrado, o céu tornou-se um fator estrutural de risco. Compreender essa dinâmica — e preparar redes, cidades e pessoas para ela — deixou de ser opcional. É uma exigência de segurança em um Brasil cada vez mais exposto aos extremos.