Lula reabre a história da reforma agrária e transforma Sapé em símbolo de uma nova virada no campo brasileiro

Lula reabre a história da reforma agrária e transforma Sapé em símbolo de uma nova virada no campo brasileiro
Fernanda CappellessoPor Fernanda Cappellesso 4 de fevereiro de 2026 32

O Governo Federal prepara um dos atos mais simbólicos da política agrária recente ao oficializar, em Sapé, na Paraíba, a criação do Assentamento Agroextrativista Elizabeth Teixeira, iniciativa que une memória histórica, investimento público e estratégia social voltada ao fortalecimento da agricultura familiar. A entrega, liderada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva por meio do Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, é tratada como um marco na retomada da reforma agrária como política estruturante.

Com investimento direto de R$ 8,29 milhões e impacto total que ultrapassa R$ 11,9 milhões, o projeto beneficiará 21 famílias em uma área de mais de 133 hectares. O gesto ocorre em um território carregado de simbolismo político: Sapé foi palco das Ligas Camponesas e da trajetória de Elizabeth Teixeira, uma das figuras mais emblemáticas da luta pela terra no Brasil.

Um assentamento que conecta passado e futuro

O nome Elizabeth Teixeira não aparece apenas como homenagem. Ele representa a história de uma liderança que atravessou décadas de conflitos agrários, perseguições políticas e resistência social. Viúva do líder camponês João Pedro Teixeira, assassinado em 1962, Elizabeth assumiu a organização das Ligas Camponesas e tornou-se símbolo da luta por direitos no campo — história eternizada no documentário “Cabra Marcado para Morrer”, de Eduardo Coutinho.

Ao escolher Sapé como cenário da entrega, o governo Lula transforma a reforma agrária em narrativa histórica e política, sinalizando que o país busca virar a página da violência fundiária para um modelo baseado em produção sustentável e inclusão social.

Reforma agrária como política de desenvolvimento

A entrega ocorre em um momento em que o governo federal tenta reposicionar a agricultura familiar dentro do debate econômico nacional. Durante os primeiros mandatos de Lula, entre 2003 e 2010, mais de 600 mil famílias foram assentadas em programas oficiais, consolidando a reforma agrária como ferramenta de combate à pobreza rural e incentivo à produção de alimentos.

Agora, o novo ciclo aposta em modelos agroextrativistas, que combinam cultivo agrícola com preservação ambiental. Especialistas apontam que essa abordagem responde tanto às demandas sociais quanto às exigências internacionais por práticas sustentáveis no campo.

Segundo o ministro Paulo Teixeira, a iniciativa representa uma mudança de paradigma: “Não há democracia plena sem reforma agrária. Entregar terra para quem quer produzir é também garantir desenvolvimento regional e justiça social”.

Investimentos e novos projetos no Nordeste

Além do Assentamento Elizabeth Teixeira, o pacote anunciado inclui a criação do PAE Dom José Maria Pires, liberação de créditos habitacionais, linhas de apoio inicial para famílias assentadas e a entrega de títulos de domínio em diferentes municípios da Paraíba. A estratégia busca ampliar a permanência das famílias no campo e fortalecer cadeias produtivas locais.

Analistas avaliam que a retomada da reforma agrária ocorre em paralelo ao crescimento da agricultura familiar como fornecedora de alimentos para programas sociais e mercados regionais, ampliando a relevância econômica desse segmento.

Um gesto político com alcance nacional

Mais do que uma entrega administrativa, o evento em Sapé representa um movimento político que recoloca a reforma agrária no centro do projeto de governo. A iniciativa dialoga com pautas históricas da base social de Lula e reforça uma narrativa de reconstrução de políticas públicas voltadas à inclusão social.

Ao resgatar o legado das Ligas Camponesas e conectar passado e presente, o governo aposta em um discurso que mistura memória histórica, justiça social e desenvolvimento sustentável — estratégia que tende a ampliar o debate sobre o papel da terra e da produção rural no futuro do país.

Para apoiadores, o assentamento simboliza o retorno de uma agenda social interrompida. Para o governo, é a prova de que a reforma agrária segue sendo vista não apenas como política agrária, mas como instrumento de transformação econômica e democrática no Brasil.

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