Portelinhando Crônicas: TRUMP TEM QUE PROVAR AO MUNDO QUE ESTA SÃO
O presidente norte‑americano, Donald Trump, anda dando entrevistas como quem toma remédio de horário marcado: duas vezes desde dezembro, pontuais, com a receita na mão, para provar ao mundo que continua são, forte, incansável.
A cada pergunta sobre a idade, ele repete, quase em mantra: “Minha saúde é perfeita”, como se a perfeição pudesse ser decretada em coletiva de imprensa, entre um piscar mais demorado e outro. No fundo, o que se vê é um homem de 79 anos sentado sob luzes implacáveis, o rosto coberto por uma maquiagem que tenta esconder o cansaço e, talvez, alguma dúvida que nem ele ousa formular em voz alta.
Na semana passada, a Casa Branca precisou ir além do remédio caseiro e chamar ambulância diplomática: apressou‑se a desmentir uma matéria do site Politico que atribuía a um primeiro‑ministro europeu, o eslovaco Robert Fico, o diagnóstico informal de que Trump estaria em “estado psicológico perigoso”.
Robert Fico, nacionalista e aliado, correu às redes para negar tudo em letras maiúsculas, acusando o portal de “mentiras” e “ódio liberal”, enquanto assessores norte‑americanos carimbavam a história como “fake news” saída da boca de diplomatas anônimos em busca de relevância.
O resultado é uma cena curiosa: um presidente defendido por um aliado que tenta provar que nunca chamou o amigo de louco, ao mesmo tempo em que metade da Europa cochicha nos corredores que algo não vai bem na cabeça do homem mais poderoso do planeta.
Há vídeos em que Trump parece cochilar em reuniões, os olhos semicerrados, o corpo afundado na cadeira, enquanto as câmeras congelam o instante e a internet transforma um provável cansaço em certidão de incapacidade. Em resposta, surgem cartas do médico da Casa Branca garantindo que o presidente “permanece em excelente saúde geral” após exames de imagem e testes cardiovasculares, como se um laudo pudesse silenciar o julgamento global que se faz, frame a frame, nas redes sociais.
Entre o piscar e o diagnóstico, entre a aspiração diária para o coração e as manchetes sobre hematomas nas mãos, constrói‑se um corpo público em disputa, em que cada gesto é lido como prova, sintoma ou arma política.
Os aliados europeus, por sua vez, falam de saúde sempre pela tangente.
Em documentos e entrevistas, preocupam‑se com a “imprevisibilidade” da Casa Branca, com o “novo mundo” que Trump tenta impor ao Velho Continente, com estratégias de segurança que soam mais como ultimatos do que como alianças.
A dúvida sobre a sanidade funciona, aí, como metáfora conveniente: é mais fácil atribuir a um cérebro desajustado a guinada agressiva da política externa americana do que admitir que o colapso está na própria arquitetura do Ocidente, que já não sabe se teme mais a velhice de seus líderes ou a decrepitude de seus projetos.
No fim, talvez a pergunta menos interessante seja se Trump está “bem da cabeça”, como insistem em perguntar jornalistas, médicos de plantão e diplomatas alarmados. Mais perturbador é perceber como nos acostumamos a medir a saúde de um governante pelos boatos que o cercam, pelos cortes de câmera, pelos vazamentos e desmentidos sucessivos, enquanto decisões que afetam milhões são tomadas entre um exame de ressonância e outro.
A verdadeira febre, quem sabe, esteja no mundo que produz presidentes assim: tão poderosos que podem mandar em guerras e mercados, tão frágeis que precisam provar, todos os dias, que ainda conseguem ficar acordados até o fim da reunião.
PORTELINHADO CRÔNICAS
Joao Portelinha da Silva