Pacto contra feminicídio tenta antecipar ação do Estado em país que registra 4 mortes por dia
O lançamento do Pacto Nacional Brasil contra o Feminicídio representa uma tentativa de reorganizar a política pública de proteção às mulheres em um país que ainda registra índices elevados de violência letal de gênero. Em entrevista ao programa A Voz do Brasil, a ministra das Mulheres, Márcia Lopes, afirmou que a estratégia central da nova política é inverter a lógica histórica de resposta tardia do Estado.
“Precisamos chegar antes. O Estado precisa chegar antes”, declarou a ministra, ao detalhar o conjunto de ações que envolve Executivo, Legislativo e Judiciário na prevenção à violência contra mulheres.
A fala ocorre em um cenário em que o Brasil mantém números elevados de feminicídio. Dados nacionais indicam média próxima de quatro assassinatos de mulheres por dia em crimes motivados por gênero, evidenciando que a legislação existente ainda enfrenta dificuldades para se transformar em prevenção efetiva nos territórios.
Um pacto que tenta reorganizar o sistema
Diferentemente de programas isolados, o pacto propõe uma articulação institucional ampla. A iniciativa pretende acelerar medidas protetivas, ampliar o acesso ao registro de ocorrências e fortalecer a rede de acolhimento — pontos considerados críticos por especialistas em segurança pública.
Segundo a ministra, o país enfrenta o desafio de coordenar políticas em 5.570 municípios e 27 unidades federativas, o que exige diálogo permanente entre as instâncias locais e federais. A proposta busca reduzir a fragmentação das ações, que hoje dependem de estruturas desiguais entre estados.
Outro eixo central é a integração entre os Poderes. A avaliação do governo federal é que o enfrentamento à violência de gênero não pode depender apenas de programas sociais, mas também da atuação legislativa e da resposta judicial.
Violência estrutural e desigualdade social
A política surge em meio a dados que revelam o caráter estrutural da violência contra mulheres no Brasil. Levantamentos oficiais apontam que mulheres negras e moradoras de periferias aparecem com maior frequência entre as vítimas, refletindo a combinação entre racismo estrutural, desigualdade econômica e fragilidade institucional.
Além dos homicídios, o país registra milhares de denúncias diárias no Ligue 180, canal nacional de atendimento. A ministra destacou que o pacto pretende reduzir barreiras institucionais que ainda dificultam o registro de boletins de ocorrência e o acesso a medidas protetivas.
“O Pacto traz como objetivos fundamentais dar celeridade aos processos envolvidos com as mulheres e assegurar que elas tenham espaço para registrar ocorrência sem resistência”, afirmou.
Mudança de narrativa: homens no centro da prevenção
Um dos pontos mais enfatizados pela ministra é a mudança de paradigma que coloca os homens como agentes centrais no enfrentamento à violência. Segundo ela, a responsabilização social precisa deixar de recair exclusivamente sobre as vítimas.
A estratégia inclui campanhas nacionais, ações educativas em estádios de futebol e iniciativas específicas durante o Carnaval, período em que, segundo dados apresentados pelo Ministério das Mulheres, os registros de violência podem aumentar até 25% nos dias de jogos e grandes eventos.
Entre política pública e disputa cultural
Analistas avaliam que o pacto também reflete uma disputa simbólica sobre o papel do Estado na proteção social. Ao recriar o Ministério das Mulheres e priorizar campanhas nacionais, o governo federal tenta reposicionar a pauta de igualdade de gênero como eixo transversal de políticas públicas.
A ministra citou iniciativas recentes, como a Lei de Igualdade Salarial sancionada em 2023, como parte de uma estratégia mais ampla de enfrentamento às desigualdades.
Ainda assim, especialistas apontam que o maior desafio será transformar compromissos institucionais em resultados concretos, especialmente em regiões onde a rede de proteção ainda é limitada.
O teste será a implementação
Embora o pacto seja apresentado como marco histórico, a efetividade dependerá da capacidade de articulação local. Delegacias especializadas, patrulhas Maria da Penha e Casas da Mulher Brasileira continuam sendo peças-chave para que a política chegue às vítimas antes da escalada da violência.
A expectativa do governo é que a atuação coordenada entre os Poderes reduza a fragmentação das respostas e antecipe a proteção estatal — exatamente o ponto central defendido pela ministra.
“Quando falamos Todos por Todas, isso não é vazio. É compromisso ético entre os três Poderes e a sociedade”, afirmou Márcia Lopes.