Portelinhando Crônicas: Dançando sobre escombros pensando que é Carnaval enquanto o Brasil enfrenta tragédias e abandono social
Há momentos em que o país parece viver em dois planos ao mesmo tempo. Em um deles, a luz é intensa, o som é alto e a alegria ocupa cada espaço da avenida. No outro, a iluminação é fraca, o chão ainda está coberto de lama e o silêncio pesa mais que qualquer trio elétrico. O contraste não é apenas visual. É moral.
Enquanto o Carnaval ganha forma com cores vibrantes, fantasias luxuosas e discursos festivos, muitas famílias ainda recolhem o que restou de suas casas após a passagem da chuva. Não é uma metáfora poética. É a água real que invade salas, arrasta móveis, apaga fotografias, destrói colchões e transforma o pouco em quase nada. A dor alheia não combina com confete, mas o país parece ter aprendido a sobrepor brilho ao luto com impressionante naturalidade.
O Brasil acorda com sirene de ambulância, mas prefere ouvir tamborim. Chove sobre telhados improvisados, mas a previsão para os camarotes é de céu aberto e celebração. Há crianças dividindo espaço em abrigos provisórios enquanto a televisão contabiliza curtidas, patrocínios e transmissões ao vivo da folia. O que deveria ser exceção se tornou rotina. A tragédia passa a ser pano de fundo, ruído distante, imagem desfocada atrás da selfie.
Não se trata de negar a importância cultural e econômica do Carnaval. Ele é expressão popular, identidade nacional, fonte de renda para milhares de trabalhadores. O ponto não é a festa em si, mas a prioridade. Sempre há verba, estrutura e mobilização para o espetáculo. Quase nunca há a mesma urgência para a prevenção, para a drenagem urbana eficiente, para moradias seguras, para políticas públicas que impeçam que a mesma cena se repita ano após ano.
Quando a água leva uma casa, leva também uma história. Mas no relatório oficial essa história vira número. Estatística. Dado técnico. Não entra no enredo, não sobe no carro alegórico, não recebe aplauso. O poder público ensaia discursos na avenida, mas hesita diante do abrigo improvisado. Carrega bandeiras em comissão de frente, mas raramente carrega colchões, cestas básicas ou responsabilidade efetiva.
O dinheiro circula com facilidade quando se trata de som, palco e iluminação. Já para a ponte que precisa de reforço, para o dique que precisa de manutenção, para o bairro que precisa de infraestrutura, ele se move lentamente, quase como se esperasse a próxima tragédia para voltar ao debate público. O governante sorri no camarote porque, lá de cima, não se ouve o choro de quem perdeu tudo. O som da festa é mais alto que o apelo da consciência.
Há quem argumente que o povo precisa de alegria e que o país não pode parar. Talvez não possa mesmo. Mas o que não para é a repetição da negligência. O que não para é a transformação da dor em estatística e da estatística em esquecimento. A máquina que vende quatro dias de euforia oficial funciona com precisão, enquanto o luto coletivo é comprimido em notas curtas de rodapé.
O Brasil tem se especializado em transformar tragédia em cenário secundário. A imagem aérea da enchente some rapidamente do noticiário, substituída pelo desfile, pela fantasia bordada, pelo brilho coreografado. Tudo é grandioso na avenida, exceto a responsabilidade de enfrentar as causas que deixam milhares vulneráveis a cada nova temporada de chuva.
Talvez o verdadeiro desfile esteja longe das câmeras. Está nas fileiras de colchões empilhados em ginásios, nas panelas vazias esperando doação, nos olhos cansados de quem já não acredita em promessas repetidas. Talvez o único samba honesto seja o que ecoa como cobrança, lembrando que não há nada a comemorar enquanto o barro ainda está na altura do peito de tantos brasileiros.
Decência não depende do calendário festivo. Ela exige urgência. Não se trata de silenciar a cultura, mas de recusar a indiferença. Se o país não aprender a interromper a música diante da morte e da destruição, continuará dançando sobre escombros, convencido de que é apenas mais um Carnaval.