Portelinhando Crônicas: Edgar Morin aos 104 anos; O pensamento complexo e a lição de carregar todas as idades dentro de si
Há homens que atravessam o século como quem atravessa uma rua, de olhos baixos, atentos apenas ao tempo do semáforo. E há aqueles que transformam o próprio século em laboratório vivo. Edgar Morin pertence a essa segunda linhagem.
Aos 104 anos, o pensador francês segue defendendo o que chamou de pensamento complexo, uma maneira de compreender o mundo sem reduzi-lo a fórmulas apressadas. Ele afirma conservar a curiosidade da infância, as aspirações da adolescência, as responsabilidades da vida adulta e, na velhice, alimentar-se da experiência acumulada por todas essas fases.
Talvez esteja aí o seu segredo: não expulsar nenhuma idade de dentro de si.
Em um tempo marcado por respostas rápidas, rankings, tutoriais e algoritmos que prometem explicar a vida em poucos passos, Morin insiste na incerteza como parte essencial do conhecimento. Ele desconfia do olhar que transforma o humano em estatística, o amor em cálculo e a política em slogan. Prefere as perguntas demoradas, as ideias que se tensionam, as frases que não cabem em um post.
Vivemos uma era que cobra produtividade até da velhice. Envelhecer tornou-se projeto, performance, meta. É preciso parecer jovem, consumir como jovem, desejar como jovem. Os que não seguem o script são discretamente deslocados para fora do palco.
Morin faz o movimento inverso. Reivindica a velhice como território fértil de criação e rebeldia, tempo em que se pode olhar o mundo sem a obrigação de provar nada a ninguém. “Tenho todas as idades dentro de mim”, costuma dizer. A frase é simples, mas carrega uma crítica profunda à obsessão contemporânea por segmentar pessoas em gerações, bolhas e nichos.
O pensamento complexo recorda que nada existe isolado. O menino curioso, o adolescente inquieto, o adulto responsável e o velho teimoso coexistem na mesma pessoa. Convivem, entram em conflito, se corrigem. É dessa tensão que nasce a maturidade.
Imagino o filósofo centenário abrindo o jornal e deparando-se com guerras, crises democráticas, extremismos, pandemias e tecnologias que parecem conhecer mais sobre nós do que nós mesmos. Ele poderia render-se ao cinismo. Poderia repetir que sempre foi assim ou que não há saída. No entanto, mesmo consciente das catástrofes do século, insiste em falar de esperança, fraternidade, amizade e poesia como anticorpos contra a barbárie.
Não se trata de otimismo ingênuo. É lucidez histórica. Ao longo de um século, Morin viu impérios ruírem, ideologias se dissolverem e avanços impensáveis acontecerem. Aprendeu que o improvável também encontra brechas.
Talvez seja essa a lição que toca nossa vida miúda.
Em vez de perguntar qual é o segredo para viver mais, talvez devêssemos perguntar que tipo de vida estamos tecendo. Quanto da curiosidade infantil preservamos ao ler uma notícia? Quais aspirações adolescentes ainda nos movem quando falamos de justiça? Que responsabilidade adulta assumimos diante do outro? Que sabedoria envelhecida estamos dispostos a ouvir, dentro e fora de nós?
Enquanto as telas oferecem versões simplificadas da realidade, um filósofo de mais de um século sussurra cautela: o mundo é contraditório, ambíguo e surpreendente. Justamente por isso merece ser vivido com profundidade.
A verdadeira juventude talvez não esteja na pele esticada, mas na capacidade de continuar se espantando com o que parece óbvio. E quem sabe, um dia, possamos dizer sem pressa de concluir a frase: carrego todas as idades dentro de mim e, por isso mesmo, ainda não terminei de nascer.