94% dos reajustes salariais superam a inflação e sinalizam virada inédita no poder de compra do trabalhador brasileiro, aponta DIEESE

94% dos reajustes salariais superam a inflação e sinalizam virada inédita no poder de compra do trabalhador brasileiro, aponta DIEESE
Reajustes acima da inflação devolvem fôlego ao orçamento e sinalizam recuperação do poder de compra em 2026. Foto: Canta
Fernanda CappellessoPor Fernanda Cappellesso 23 de fevereiro de 2026 7

O poder de compra do trabalhador brasileiro iniciou 2026 em trajetória de recuperação consistente. Levantamento do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos mostra que 94% das negociações coletivas registradas em janeiro garantiram reajustes salariais acima da inflação. O ganho real médio foi de 2,12%, o maior resultado desde o início do ciclo de recomposição salarial após a pandemia.

Os dados fazem parte do boletim De Olho nas Negociações, publicado mensalmente pelo DIEESE com base em acordos coletivos registrados no Sistema Mediador do Ministério do Trabalho. O indicador mede a diferença entre o percentual de reajuste e a inflação acumulada no período, apontando quando há aumento efetivo da renda do trabalhador.

Na prática, o resultado representa mudança estrutural na dinâmica salarial brasileira. Após anos em que os reajustes apenas compensavam a inflação ou ficavam abaixo dela, o cenário atual indica crescimento real da renda.

Ganho real amplia renda e impacta economia

O ganho real ocorre quando o reajuste salarial supera o índice inflacionário. Considerando inflação anual próxima de 4,5% e reajuste médio total de aproximadamente 6,6%, o trabalhador passa a ter aumento efetivo de poder de compra.

Em termos matemáticos, um trabalhador com salário de R$ 3.000 que recebe ganho real médio de 2,12% passa a receber cerca de R$ 3.198 após o reajuste completo, considerando inflação e ganho adicional. Isso representa aumento anual superior a R$ 2.300 na renda total.

Segundo estimativas baseadas na massa salarial formal brasileira, que supera R$ 1,3 trilhão por ano, um ganho real médio de 2,12% pode representar acréscimo superior a R$ 29 bilhões diretamente na renda dos trabalhadores. Com efeito multiplicador do consumo, o impacto total pode ultrapassar R$ 50 bilhões na economia.

O economista André Braz, coordenador de índices de preços da Fundação Getulio Vargas, afirma que o dado indica mudança relevante no comportamento do mercado de trabalho.

Quando a inflação desacelera e o nível de emprego se mantém elevado, o poder de negociação salarial aumenta. O resultado é a recomposição gradual do poder de compra, com impacto direto sobre o consumo e a atividade econômica, afirma.

Resultado é o melhor desde o início da recuperação econômica

A evolução do indicador mostra trajetória consistente de recuperação. Em 2021, apenas 38% dos reajustes superaram a inflação. Em 2022, o percentual subiu para 52%. Em 2023, atingiu 61%. Em 2024, chegou a 78%. Em 2025, alcançou 87%. Agora, em janeiro de 2026, chegou a 94%.

O resultado coincide com a queda da inflação nos últimos anos. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo, referência oficial do país, caiu de 10,06% em 2021 para cerca de 4,5% em 2025, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.

Para a economista Luciana Garcia, professora de economia do trabalho da Universidade Federal do Rio de Janeiro, o aumento real dos salários tende a impulsionar a economia.

O salário é o principal componente da renda das famílias brasileiras. Quando cresce acima da inflação, o impacto é imediato no consumo, especialmente em setores como alimentação, comércio e serviços, afirma.

Trabalhadores relatam melhora gradual no orçamento

O efeito já começa a ser percebido no cotidiano. A auxiliar administrativa Juliana Ferreira, de Goiânia, afirma que o reajuste salarial deste ano trouxe alívio financeiro.

Nos últimos anos, os aumentos apenas acompanhavam os preços. Agora, consegui perceber melhora real no orçamento. Foi possível organizar melhor as contas e voltar a economizar, diz.

O operador logístico Marcos Silva relata experiência semelhante.

O aumento fez diferença no supermercado e nas despesas mensais. Antes, o salário aumentava, mas o custo de vida subia na mesma proporção, afirma.

Empresas reajustam salários para reduzir rotatividade

Segundo o economista Ricardo Alves, especialista em mercado de trabalho, o aumento salarial também reflete estratégia empresarial.

A substituição de trabalhadores qualificados tem custo elevado. Empresas preferem reajustar salários para manter produtividade e reduzir rotatividade. Isso contribui para o aumento real da renda, afirma.

Esse movimento ocorre em um contexto de melhora do mercado de trabalho. A taxa de desemprego no Brasil caiu de 14,9% em 2021 para cerca de 7,5% em 2025, segundo o IBGE.

Com menor desemprego, trabalhadores passam a ter maior poder de negociação, pressionando reajustes salariais acima da inflação.

Brasil supera economias desenvolvidas em crescimento salarial real

O ganho real médio de 2,12% registrado no Brasil supera o crescimento salarial real recente de economias desenvolvidas. Nos Estados Unidos, o aumento real médio foi de cerca de 1,4% em 2025. Na zona do euro, ficou próximo de 1,1%.

Isso indica que o Brasil vive ciclo de recomposição salarial mais acelerado, impulsionado pela desaceleração inflacionária e pela recuperação gradual da atividade econômica.

Tendência depende da inflação e do mercado de trabalho

Especialistas afirmam que a continuidade do ganho real dependerá da estabilidade da inflação e da manutenção do nível de emprego.

Se a inflação permanecer controlada e o mercado de trabalho continuar aquecido, a tendência é de manutenção do crescimento real dos salários. Caso contrário, o poder de compra pode voltar a sofrer pressão.

O levantamento do DIEESE indica que o país entra em 2026 com o cenário salarial mais favorável dos últimos cinco anos. Após período prolongado de perda de renda, os dados mostram que o trabalhador brasileiro volta a registrar aumento real de poder de compra, com impacto direto sobre a economia e o consumo das famílias.

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