Paraíso quer virar referência em plantas medicinais e pode mudar a relação da população com a saúde
A Prefeitura de Paraíso do Tocantins iniciou um movimento que pode transformar o município em um polo regional de pesquisa e cultivo de plantas medicinais, em um momento em que o Brasil e o mundo voltam a olhar para a medicina baseada em conhecimento tradicional e científico combinado. A proposta, discutida em reunião oficial no dia 24 de fevereiro entre a Secretaria Municipal de Meio Ambiente e a Universidade Estadual do Tocantins (Unitins), prevê a criação de um espaço dedicado ao cultivo, preservação e estudo de espécies com potencial terapêutico.
O projeto nasce em um contexto global de crescimento acelerado do uso de medicamentos fitoterápicos. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 80% da população mundial utiliza plantas medicinais como parte do cuidado primário de saúde. No Brasil, o Ministério da Saúde mantém desde 2006 a Política Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos, que incentiva municípios a desenvolverem programas próprios para integrar essas espécies ao sistema público de saúde.
Em Paraíso do Tocantins, a proposta é estruturar esse avanço a partir do Viveiro Municipal, que já atua na produção e distribuição de mudas arbóreas. A ampliação permitiria incorporar espécies medicinais, criando uma base local de pesquisa, preservação e educação ambiental. O projeto envolve diretamente a Unitins, representada pela professora Juliana Maria, do curso de Tecnologia em Gestão do Agronegócio, e pela pesquisadora Geovanna Teixeira, que atua na área de plantas medicinais.
A iniciativa conecta dois eixos estratégicos: saúde pública e desenvolvimento econômico. O Brasil possui a maior biodiversidade do planeta, com cerca de 20% de todas as espécies vegetais conhecidas, segundo dados do Ministério do Meio Ambiente. Apesar disso, o país ainda explora apenas uma pequena fração desse potencial para uso medicinal estruturado. Municípios que investem nesse tipo de estrutura conseguem criar cadeias produtivas que envolvem agricultura familiar, pesquisa científica e políticas públicas de saúde.
Experiências semelhantes em outras regiões mostram impacto direto na economia local. No Paraná, por exemplo, programas municipais de cultivo de plantas medicinais integrados ao Sistema Único de Saúde reduziram custos com medicamentos e estimularam a produção rural. Em Minas Gerais, iniciativas desse tipo geraram novas oportunidades de renda para pequenos produtores e ampliaram o acesso a tratamentos complementares.
No Tocantins, o potencial é ainda maior devido às características do Cerrado, um dos biomas com maior diversidade de plantas com propriedades farmacológicas. Espécies como arnica-do-campo, barbatimão e sucupira são estudadas por universidades e centros de pesquisa por seus efeitos anti-inflamatórios, cicatrizantes e analgésicos.
Para a gestão municipal, o projeto também representa um investimento em educação ambiental e formação científica. Ao integrar universidade e poder público, o município cria condições para que estudantes, pesquisadores e a própria população tenham acesso direto ao conhecimento sobre espécies medicinais e seu uso seguro.
A criação desse espaço coloca Paraíso do Tocantins dentro de uma tendência nacional de valorização da biodiversidade como ativo estratégico. Mais do que um projeto ambiental, trata-se de uma iniciativa que conecta saúde, ciência, economia e preservação, com potencial para posicionar o município como referência regional em pesquisa e cultivo de plantas medicinais.
Se implementado plenamente, o projeto pode alterar não apenas o uso das plantas no município, mas também o papel da ciência local na construção de soluções baseadas na própria biodiversidade brasileira — um recurso abundante, mas ainda subutilizado em grande parte do país.