Projeto “Sabores e Saberes da Barra da Aroeira” fortalece protagonismo feminino em comunidade quilombola no Tocantins
A comunidade quilombola Barra da Aroeira, localizada no município de Santa Tereza do Tocantins, recebeu no último sábado (8) uma visita técnica que marcou o início das atividades do projeto “Sabores e Saberes da Barra da Aroeira”, iniciativa voltada à valorização da gastronomia tradicional e ao fortalecimento do protagonismo feminino na comunidade.
A ação reuniu lideranças comunitárias e mulheres quilombolas para apresentar as etapas do projeto, ouvir sugestões das moradoras e identificar ingredientes e receitas tradicionais que serão trabalhados nas oficinas gastronômicas previstas para as próximas semanas.
Realizada no mesmo período em que se celebra o Dia Internacional da Mulher, a atividade também abriu espaço para discussões sobre autonomia financeira, empreendedorismo e valorização da identidade cultural quilombola.
Gastronomia do Cerrado como estratégia de geração de renda
O projeto utiliza a culinária tradicional do Cerrado como ferramenta de capacitação e geração de renda para mulheres da comunidade. A proposta envolve a realização de oficinas práticas de gastronomia sustentável, encontros de empreendedorismo e atividades voltadas à educação financeira.
A iniciativa é desenvolvida pelo Instituto Brasil Sustentável em parceria com as organizações A Barraca e Raízes Gastronômicas, reunindo profissionais das áreas de cultura, gastronomia e desenvolvimento social.
O projeto foi selecionado no edital Sementes da Ancestralidade: Fomento à Cultura Afro-Brasileira, iniciativa voltada ao apoio de ações que valorizam tradições culturais afro-brasileiras.
Segundo a presidente do Instituto Brasil Sustentável, Lucivânia Brito, a escolha do mês de março para o início das atividades reforça o compromisso com o fortalecimento das mulheres da comunidade.
“Realizar essa visita justamente no mês da mulher tem um significado muito especial. Nosso objetivo é valorizar o conhecimento que essas mulheres já possuem e transformar esses saberes em oportunidades concretas de geração de renda”, afirmou.
Comunidade preserva saberes ancestrais
A comunidade quilombola Barra da Aroeira reúne cerca de 150 famílias descendentes de africanos escravizados e possui um patrimônio cultural associado a práticas tradicionais, culinária ancestral e relação histórica com o território.
Apesar do reconhecimento oficial do território após anos de mobilização e luta por direitos, a comunidade ainda enfrenta desafios ligados à vulnerabilidade social e à pouca visibilidade cultural.
De acordo com os organizadores do projeto, a iniciativa busca justamente ampliar o reconhecimento desses saberes tradicionais e transformá-los em oportunidades econômicas por meio da chamada economia criativa.
A parceria entre o Instituto Brasil Sustentável e a comunidade não é recente. O trabalho conjunto teve início em 2015, com a realização de outras iniciativas sociais voltadas ao desenvolvimento local.
Escuta comunitária orienta o projeto
A produtora executiva do projeto, Marinez Santana, explica que a visita técnica foi fundamental para alinhar as próximas etapas e garantir que as ações respeitem a realidade da comunidade.
“Esse primeiro contato é essencial para ouvir as mulheres, compreender suas histórias e identificar quais receitas fazem parte da memória coletiva da Barra da Aroeira. A partir disso, construímos juntos o processo de formação”, afirmou.
A expectativa é que cerca de 50 mulheres participem diretamente das atividades formativas ao longo das próximas semanas.
Sabores do Cerrado e identidade cultural
As oficinas gastronômicas serão conduzidas pela chef de cozinha Ruth Almeida, diretora-geral do projeto Raízes Gastronômicas, que destaca a riqueza cultural presente na culinária do Cerrado.
“A culinária do Cerrado carrega muita história. Nosso objetivo é unir o conhecimento ancestral dessas mulheres com técnicas gastronômicas que permitam transformar esses ingredientes em pratos que possam gerar renda, sem perder a identidade cultural”, explicou.
Entre os ingredientes que poderão ser trabalhados nas oficinas estão frutos, raízes, sementes e ervas típicas do bioma, além de preparos tradicionais transmitidos entre gerações na comunidade.
Cultura como ferramenta de transformação social
Para a produtora cultural Cinthia Abreu, idealizadora do projeto, a iniciativa parte do entendimento de que cultura e economia podem caminhar juntas no desenvolvimento de comunidades tradicionais.
“A gastronomia é um patrimônio cultural e também pode ser um caminho para autonomia econômica. As mulheres quilombolas são guardiãs de saberes ancestrais e queremos ajudar a transformar esse conhecimento em oportunidades de empreendedorismo”, afirmou.
Como resultado final das atividades, está prevista a realização de uma Feira Gastronômica e Cultural na própria comunidade. O evento deverá reunir pratos desenvolvidos nas oficinas, manifestações culturais locais e produtos produzidos pelas participantes.
A proposta é fortalecer a economia comunitária e ampliar o reconhecimento da Barra da Aroeira como um território de cultura, tradição e resistência no Tocantins.