Exclusivo: professor Filipe Vieira é autor principal de pesquisa que liga maruins ao risco de transmissão da febre do Oropouche fora da Amazônia; Tocantins também entra em alerta
A expansão da febre do Oropouche para fora da Amazônia ganhou um novo capítulo com a publicação de uma pesquisa assinada pelo professor Filipe Vieira Santos de Abreu, do Instituto Federal do Norte de Minas Gerais (IFNMG), que aparece entre os autores de correspondência do artigo científico divulgado nesta segunda-feira, 16, na revista Viruses. O trabalho investiga a presença de maruins, também conhecidos como mosquito-pólvora, em áreas de Minas Gerais com casos humanos recentes da doença.
O estudo parte de um dado que preocupa autoridades e pesquisadores: o vírus Oropouche já avançou para além de sua faixa histórica de circulação na Amazônia e passou a ser registrado em novas regiões do Brasil. Em Minas Gerais, os pesquisadores concentraram a investigação em cinco comunidades com transmissão autóctone confirmada, buscando entender quais espécies de Culicoides estão presentes, como se comportam e de que forma variáveis ambientais podem influenciar o risco de transmissão.
Ao todo, os pesquisadores coletaram 1.171 insetos de cinco espécies. As mais abundantes foram Culicoides leopoldoi, com 79,1%, e Culicoides paraensis, com 20,3%. O ponto mais importante do trabalho é que C. paraensis, reconhecida no próprio artigo como o principal vetor do vírus Oropouche nas Américas, foi registrada pela primeira vez nas cinco áreas de surto analisadas em Minas Gerais.
Os maruins pertencem ao gênero Culicoides e são insetos muito pequenos, hematófagos, conhecidos por picar humanos e outros vertebrados. No caso do Oropouche, eles entram no centro da discussão porque algumas espécies podem ter papel decisivo na cadeia de transmissão viral. O estudo mostra ainda que 90% dos exemplares de C. paraensis foram capturados pelo método de atração humana protegida, o que reforça o comportamento antropofílico da espécie, ou seja, sua tendência a buscar sangue humano.
Outro dado relevante é que, dos 819 espécimes testados por RT-qPCR, nenhum apresentou resultado positivo para o vírus Oropouche. Ainda assim, os autores deixam claro que esse resultado não elimina o risco epidemiológico. Em estudos de campo, taxas de infecção podem ser muito baixas, e a ausência de detecção em uma amostra finita não significa ausência de circulação. Por isso, a pesquisa propõe um índice de alerta entomológico para orientar onde a vigilância deve ser intensificada primeiro.
A análise também concluiu que umidade e temperatura influenciam de forma significativa a abundância desses insetos, enquanto a precipitação não mostrou associação estatística relevante no modelo final. Para os autores, esse tipo de leitura ajuda a transformar dados ainda escassos em base prática para monitoramento, resposta rápida e priorização de áreas mais sensíveis durante a expansão inicial da doença fora da Amazônia.
Embora o trabalho tenha sido realizado em Minas Gerais, o alerta dialoga com outras unidades da federação. Dados oficiais mostram que o Brasil vem registrando aumento importante de casos de Oropouche desde 2023, com circulação identificada em 22 estados. No Tocantins, a Secretaria de Estado da Saúde informou oito casos confirmados em 2024, número que, embora distante dos estados mais afetados, coloca o tema no radar da vigilância local.
Na prática, o estudo assinado por Filipe Vieira reforça uma mensagem central: a febre do Oropouche já não pode mais ser tratada como um problema restrito à Amazônia. Ao documentar a presença do principal vetor em áreas extra-amazônicas e ao propor uma ferramenta para priorizar o monitoramento, a pesquisa amplia o debate sobre vigilância, prevenção e resposta em estados que precisam acompanhar de perto a movimentação da doença — entre eles, o Tocantins.