O PSD quer derrotar Lula ou está ajudando Lula sem dizer isso?
A oposição brasileira já entendeu uma coisa que o eleitor comum talvez ainda esteja começando a perceber: em 2026, o problema de Lula pode não ser a força da direita. Pode ser a capacidade da direita de se dividir. E, nesse jogo, nenhum partido hoje provoca mais desconfiança do que o PSD.
A pergunta parece simples, mas ela carrega a tensão real do tabuleiro: o PSD quer, de fato, derrotar Lula ou está, na prática, ajudando Lula ao atrasar uma definição nacional, fragmentar a oposição e manter governadores em posições ambíguas que preservam pontes com o Planalto? Não se trata de acusação fechada. Trata-se de leitura fria de poder. E, olhando o que o partido faz — não apenas o que diz — a desconfiança da oposição não é paranoia. É cálculo.
No discurso público, o PSD tenta vender a imagem de alternativa à polarização. Gilberto Kassab repete que a legenda terá candidato próprio e chegou a ironizar que isso só não ocorreria se “um helicóptero caísse com os três” presidenciáveis do partido: Ratinho Junior, Eduardo Leite e Ronaldo Caiado. O partido inclusive antecipou a decisão e anunciou que pretende definir seu nome até o fim de março, antes do prazo inicial, justamente para mostrar que não quer ser visto como satélite nem do lulismo nem do bolsonarismo. Kassab rejeitou o rótulo de “terceira via” e disse que o PSD apresentará “a melhor via”, tentando ocupar o espaço de um centro-direita moderado, competitivo e institucionalmente palatável.
No papel, isso parece coerente. Na prática, é aí que nasce a desconfiança.
Porque o mesmo PSD que posa como alternativa nacional é o partido que preserva, simultaneamente, liberdade regional para apoiar Lula onde isso for conveniente. Em fevereiro, Kassab reafirmou publicamente o aval para que o PSD apoiasse, no Piauí, a reeleição de Rafael Fonteles e a candidatura de Lula, consolidando a lógica que já incomoda adversários: o partido pode ter discurso nacional de independência e, ao mesmo tempo, operar regionalmente como força útil ao campo governista. Esse movimento não é um acidente. É uma estratégia. O PSD se tornou valioso justamente porque sua ambiguidade produz um ativo que Lula conhece bem: neutralidade seletiva. E, em eleição presidencial, neutralidade seletiva muitas vezes vale mais do que um apoio formal.
É isso que a oposição teme. Não necessariamente que o PSD suba no palanque de Lula em bloco. O medo é mais sofisticado: que o partido não precise declarar apoio para já estar ajudando. Ao manter três nomes competitivos em tese, mas frágeis em termos de consolidação nacional, o PSD pode cumprir uma função objetiva no tabuleiro: ocupar espaço no centro e na centro-direita, drenar energia de unificação anti-Lula, retardar a convergência oposicionista e deixar o presidente chegar ao segundo turno com um adversário fragmentado ou desgastado.
As pesquisas recentes ajudam a explicar por que essa suspeita cresceu. Levantamento AtlasIntel/Bloomberg citado por Veja mostrou desempenho fraco dos três presidenciáveis do PSD. Já recorte publicado a partir de Datafolha indica Ratinho Junior em torno de 7%, Caiado em 4% e Eduardo Leite em 3% em cenários de primeiro turno, enquanto Lula aparece na faixa de 38% a 39% e Flávio Bolsonaro entre 32% e 34%. Em outras palavras: os nomes do PSD existem, circulam, têm peso estadual, mas ainda não ameaçam de forma consistente os polos dominantes da disputa. Politicamente, isso produz um paradoxo. A legenda é grande o bastante para atrapalhar uma convergência, mas ainda não demonstrou força suficiente para substituí-la. E é exatamente nesse intervalo que Lula pode lucrar.
O ponto central é este: há uma diferença entre ser oposição e ser funcional à oposição. O PSD hoje tenta ser as duas coisas ao mesmo tempo, mas nem sempre consegue. Quando Kassab reúne Ratinho Junior, Eduardo Leite e Ronaldo Caiado em eventos públicos, posa para fotos, organiza “tour presidencial” em São Paulo e acelera a definição do nome, ele sinaliza ambição nacional. Mas quando libera governadores para palanques distintos, mantém autonomia regional ampla e preserva alianças estaduais com o PT ou com bases lulistas, ele sinaliza algo ainda mais importante: o partido não quer queimar pontes. E um partido que não quer queimar pontes com o governo, em ano eleitoral, dificilmente é lido pela oposição como aliado confiável.
A ambiguidade aumenta porque os próprios presidenciáveis do PSD não falam a mesma língua política. Ratinho Junior é lido como nome mais facilmente absorvível por setores conservadores e pelo eleitorado que rejeita Lula, mas sem carregar o desgaste direto do bolsonarismo raiz. Caiado, agora filiado ao PSD, chega com musculatura regional, discurso duro e perfil mais nitidamente alinhado à direita clássica do agro e da segurança, o que o torna mais competitivo no campo anti-PT, mas também mais sensível à disputa de espaço com o bolsonarismo. Eduardo Leite, por sua vez, é o nome que mais desconforta a direita ideológica, justamente por manter uma imagem de centro liberal, institucional e menos aderente ao radicalismo bolsonarista. Dentro do mesmo partido, coexistem três linguagens eleitorais que podem até caber num congresso partidário, mas dificilmente cabem num projeto nacional coeso sem gerar ruído.
É por isso que a oposição desconfia do PSD não apenas pelo que ele pode fazer, mas pelo que ele pode deixar de fazer. Um partido que se vende como alternativa, mas demora a consolidar um polo nacional; que abriga três presidenciáveis, mas ainda sem um vetor unificado; que fala em candidatura própria, mas libera governadores para palanques múltiplos; que disputa o eleitor moderado, mas preserva relações regionais com o lulismo; que quer ser protagonista, mas sem fechar completamente a porta para composições futuras — tudo isso produz a sensação de que o PSD, se não for aliado de Lula, pode ser o partido que mais ajuda Lula sem precisar se declarar.
Essa leitura fica ainda mais forte quando se observa a natureza do próprio PSD no sistema político brasileiro. O partido cresceu ocupando o vácuo deixado pelo colapso do PSDB, abriga hoje um número relevante de governadores e se tornou, para muitos analistas, uma espécie de novo centro pragmático da federação. Isso o torna forte. Mas o mesmo atributo que lhe dá capilaridade também lhe impõe um limite: o PSD é um partido de poder regional antes de ser um partido de identidade nacional. Em termos práticos, isso significa que sua prioridade não é necessariamente construir um projeto ideológico coeso para derrotar Lula; sua prioridade é preservar governabilidade, presença territorial, influência sobre o próximo ciclo e capacidade de negociar com quem vencer. É aí que a oposição enxerga risco. Porque quem joga para permanecer forte em qualquer cenário raramente entra de corpo inteiro na guerra de um único campo.
Há, ainda, um dado que poucos oposicionistas admitem em voz alta, mas que pesa no cálculo: o PSD talvez seja hoje mais útil para Lula dividido do que unificado contra ele. Se Ratinho Junior, Caiado ou Eduardo Leite não decolarem o suficiente para tomar a posição de principal desafiante, mas permanecerem competitivos o bastante para fragmentar o eleitorado anti-Lula ou adiar a convergência, o presidente ganha tempo. E tempo, em eleição presidencial, é ativo estratégico. Tempo para estabilizar narrativa, tempo para dividir adversários, tempo para forçar o voto útil apenas na reta final, tempo para explorar a rejeição de um nome mais ideológico do outro lado. O PSD não precisa estar no palanque do Planalto para cumprir esse papel. Basta estar no caminho.
No caso de Ronaldo Caiado, essa leitura ganha ainda mais sensibilidade em Goiás. Para a direita goiana, a ida de Caiado ao PSD pode ser lida como tentativa de ganhar estrutura nacional e escapar do estrangulamento partidário que o União Brasil vinha impondo. Mas, no plano nacional, isso o insere numa legenda em que a lógica de Kassab é menos a pureza do confronto e mais a flexibilidade do poder. O que em Goiás pode soar como fortalecimento, em Brasília pode ser lido como moderação forçada. E é justamente esse tipo de diferença entre a leitura local e a leitura nacional que torna o PSD tão difícil de decifrar — e tão útil para quem está no Planalto.
Nada disso significa que o PSD esteja secretamente “fechado com Lula”. Essa formulação seria simplista e, até aqui, desonesta. O partido tem, de fato, ambição presidencial real. Tem governadores fortes. Tem densidade territorial. Tem estrutura. Tem tempo de TV, capilaridade e um discurso de alternativa à polarização que pode encontrar algum espaço num eleitorado cansado. O problema é que, até o momento, o comportamento concreto da legenda permite duas leituras simultâneas — e ambas são verdadeiras ao mesmo tempo: o PSD pode tentar derrotar Lula, mas enquanto não decide como, também ajuda Lula a enfrentar uma oposição menos unificada.
E essa é a análise que mais incomoda a direita. Porque obriga a reconhecer um fato incômodo: nem todo partido que se apresenta como alternativa ao lulismo atua, na prática, como vetor imediato de derrota do lulismo. Às vezes, o partido que mais atrapalha Lula é o que o confronta frontalmente. E, às vezes, o partido que mais ajuda Lula é o que se vende como independente enquanto prolonga a dispersão do campo adversário.
No fim, a pergunta que hoje ronda gabinetes, campanhas e estrategistas não é apenas se o PSD terá candidato. É se o partido quer mesmo vencer ou se quer chegar forte o bastante para continuar indispensável, independentemente de quem vença. Porque há uma diferença brutal entre disputar o Planalto para ganhar e disputar o Planalto para negociar. E, na política brasileira, poucos sabem administrar essa fronteira com tanta habilidade quanto Gilberto Kassab.
Se o PSD definir logo um nome, unificar discurso, nacionalizar palanque e cortar ambiguidades regionais, poderá provar que a desconfiança era exagerada. Mas, se mantiver o jogo duplo — candidatura própria no discurso, liberdade total nos estados, pontes abertas com o lulismo e fragmentação do centro-direita — a oposição continuará vendo no partido não um aliado hesitante, mas um amortecedor estratégico que protege Lula sem precisar vestir a camisa do PT.
Em 2026, isso pode ser decisivo. Porque eleição presidencial não se decide apenas entre quem tem mais votos. Às vezes, se decide entre quem consegue impedir o adversário de se unir a tempo.