Cemitério do Césio-137: morar perto ainda faz mal? Quase 40 anos depois, especialistas separam risco real, trauma e mito em Goiás

Cemitério do Césio-137: morar perto ainda faz mal? Quase 40 anos depois, especialistas separam risco real, trauma e mito em Goiás
RicardoPor Ricardo 25 de março de 2026 2
Publicidade

Depósito de rejeitos em Abadia de Goiás segue sob monitoramento técnico permanente, mas medo do Césio-137 ainda atravessa gerações e mantém viva uma das cicatrizes mais profundas da história de Goiânia

Quase 40 anos depois do maior acidente radiológico da história fora de uma usina nuclear, o medo ainda mora perto do Césio-137 em Goiás. Ele não aparece apenas em relatórios técnicos, medições ambientais ou estruturas de concreto. Ele aparece em conversas de família, no valor de terrenos, no silêncio de moradores, no preconceito que atravessou décadas e em uma pergunta que nunca desapareceu por completo: morar perto do “cemitério do Césio” ainda faz mal?

A resposta curta é incômoda porque divide duas verdades ao mesmo tempo. Do ponto de vista técnico e do monitoramento oficial, não há evidência pública recente de risco radiológico para quem vive no entorno do depósito em Abadia de Goiás, desde que a estrutura permaneça íntegra e sob controle institucional. Mas, do ponto de vista social, psicológico e simbólico, o acidente nunca acabou completamente.

É justamente aí que essa história precisa ser contada com precisão: uma coisa é o perigo documentado hoje. Outra, muito diferente, é a herança de trauma que continua contaminando a vida social da região.

O que foi o acidente com o Césio-137

O acidente começou em setembro de 1987, em Goiânia, quando um aparelho de radioterapia abandonado em uma clínica desativada foi retirado e desmontado. Dentro dele havia uma fonte radioativa de césio-137, com cloreto de césio altamente solúvel e luminosidade azulada, que acabou sendo manipulada e espalhada por diferentes pontos da cidade. O episódio se tornou o maior acidente radiológico urbano do Brasil e um dos mais graves do mundo fora de instalações nucleares. O governo de Goiás registra que 249 pessoas foram identificadas com contaminação em diferentes graus, e quatro morreram em decorrência direta da exposição aguda.

Esse é o primeiro ponto que precisa ser preservado contra revisionismos ou banalização: o dano histórico foi real, documentado e devastador. Não se trata de lenda urbana. Não se trata de exagero. O acidente matou, contaminou, destruiu vidas, produziu remoções, gerou discriminação, afetou famílias e alterou a relação de Goiás com a própria ideia de segurança tecnológica. O Ministério da Saúde ainda hoje trata o 13 de setembro como Dia Nacional de Luta dos Acidentados por Fontes Radioativas.

Onde estão hoje os rejeitos do Césio-137

Depois da descontaminação de áreas, demolição de imóveis e coleta de materiais contaminados, os rejeitos resultantes do acidente foram levados para um depósito definitivo localizado em Abadia de Goiás, na região metropolitana de Goiânia. O local é administrado pela Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), por meio do Centro Regional de Ciências Nucleares do Centro-Oeste (CRCN-CO), cuja missão institucional inclui justamente o controle do depósito final de rejeitos radioativos. A própria CNEN informa oficialmente que o CRCN-CO exerce o controle institucional do depósito em Abadia de Goiás.

O depósito foi inaugurado em 1997, e a cronologia oficial da própria memória institucional da CNEN registra a inauguração do Depósito Definitivo de Rejeitos Radioativos de Abadia de Goiás naquele ano, seguida do controle institucional assumido em 1999.

Hoje, o local integra uma área de conservação conhecida como Parque Estadual Telma Ortegal, descrito pelo Governo de Goiás como uma unidade criada justamente para servir de depósito seguro para os rejeitos radioativos gerados pelo acidente de 1987.

Morar perto ainda faz mal? O que diz o risco técnico hoje

É aqui que a matéria precisa ser objetiva.

Até o momento, não há indicação pública recente, em fontes oficiais acessíveis, de que moradores do entorno estejam expostos a contaminação radiológica ativa decorrente do depósito, desde que a estrutura siga íntegra e os protocolos de controle institucional sejam mantidos.

Essa conclusão não nasce de opinião. Ela se apoia em dois pilares documentados:

  1. A estrutura continua sob vigilância pós-operacional e controle institucional, algo registrado nos relatórios de gestão da própria CNEN. O Relatório de Gestão 2023 da comissão menciona explicitamente a “Vigilância Pós-Operacional no Período de Controle Institucional do Depósito Final de Rejeitos Radioativos de Abadia de Goiás”.
  2. Em dezembro de 2025, após visita técnica ao centro que abriga os rejeitos, o Ibama divulgou que, segundo especialistas do CRCN-CO, as estruturas que armazenam os rejeitos são consideradas invioláveis e não apresentam riscos de contaminação.

Em outras palavras: o risco documentado hoje, com base nas informações oficiais mais recentes disponíveis, não é o mesmo risco de 1987. O depósito não é uma “bomba vazando” para a vizinhança. Ele é uma instalação desenhada justamente para confinar, isolar e monitorar materiais que precisam permanecer segregados por longos períodos.

Mas isso não significa que a pauta acabou.

O problema não é só radiológico. É também social, simbólico e antropológico

Se a ciência nuclear olha para o concreto, o chumbo, o solo e os índices de radiação, a antropologia olha para outra coisa: o que o medo faz com uma comunidade ao longo de décadas.

E é aí que a história de Abadia de Goiás e do entorno se torna mais complexa do que qualquer medidor Geiger.

O acidente com o Césio-137 produziu um tipo de marca que não desaparece apenas porque a contenção técnica funciona. Ele produziu estigma territorial. Produziu a ideia de que certas áreas são “amaldiçoadas”, “doentes” ou “condenadas”, mesmo quando os dados atuais não sustentam essa percepção. Produziu também um fenômeno comum em grandes desastres: a transformação do lugar em símbolo permanente de ameaça.

Na prática, isso afeta:

  • a forma como moradores são vistos de fora;
  • a valorização ou desvalorização imobiliária;
  • a autoestima coletiva;
  • a memória intergeracional;
  • a transmissão do medo entre famílias que sequer viveram 1987 diretamente.

O próprio governo de Goiás mantém material específico sobre as consequências psicossociais do acidente, registrando que o episódio não foi apenas físico, mas também profundamente social e emocional.

É por isso que essa pauta precisa fugir de dois extremos igualmente ruins:

  • o sensacionalismo que transforma o depósito em ameaça permanente sem base técnica;
  • e o tecnicismo frio que age como se bastasse dizer “não há vazamento” para encerrar a história.

O medo que ficou: o que é mito e o que é herança de trauma

Quase quatro décadas depois, três camadas convivem ao mesmo tempo:

1. O fato histórico comprovado

O acidente matou, contaminou, destruiu vínculos e deixou sequelas. Isso é indiscutível.
Foram 249 pessoas identificadas com contaminação e quatro mortes diretamente reconhecidas na fase aguda.

2. O monitoramento técnico atual

O depósito em Abadia de Goiás está sob controle institucional da CNEN, com vigilância pós-operacional e visitas técnicas recentes que reforçam a integridade da estrutura. O discurso oficial atual é de segurança do confinamento e ausência de risco de contaminação decorrente das estruturas.

3. O trauma social que continua vivo

Mesmo sem evidência pública recente de contaminação no entorno, o medo persiste porque ele não depende só de radiação. Ele depende de memória, abandono, discriminação e repetição simbólica. E isso não se resolve apenas com laudo técnico.

Essa separação é central para um bom jornalismo. Porque o debate público sobre o Césio-137, muitas vezes, erra por misturar tudo como se fosse a mesma coisa.

Por que os rejeitos precisam ficar isolados por tanto tempo

Outro ponto que costuma gerar dúvida é o tempo.

O césio-137 tem meia-vida física de cerca de 30 anos. Isso significa que sua radioatividade vai caindo ao longo do tempo, mas não desaparece de forma imediata. Em termos práticos, materiais contaminados exigem isolamento prolongado, monitoramento e barreiras de engenharia por décadas e, em certos contextos, por períodos ainda mais longos dentro de políticas conservadoras de segurança.

É por isso que a simples existência do depósito não prova risco imediato à vizinhança. Ela prova outra coisa: que o problema exigiu uma solução de longo prazo e que o Estado precisa continuar cumprindo sua parte por gerações.

Esse talvez seja um dos aspectos mais perturbadores do caso. O acidente aconteceu em 1987. Mas a infraestrutura criada para contê-lo foi pensada para sobreviver a governos, mandatos, ciclos políticos e boa parte da vida de quem nem tinha nascido quando tudo começou.

Abadia de Goiás carrega um fardo que o resto do estado muitas vezes esquece

Existe ainda uma camada política e territorial pouco discutida.

Abadia de Goiás, para muita gente de fora, aparece no mapa apenas quando se fala do depósito. Isso cria uma injustiça simbólica. A cidade acaba reduzida, na imaginação pública, a uma função que ela não escolheu carregar sozinha: a de guardiã de um passivo histórico produzido em outro contexto e por uma cadeia de negligências muito maior.

Quando uma cidade passa décadas associada a um desastre, ela deixa de ser apenas um lugar. Ela vira um rótulo.

É por isso que a pergunta “morar perto ainda faz mal?” precisa ser respondida com cuidado: porque ela não é apenas uma pergunta de saúde pública. Ela também pode reproduzir, sem perceber, o mesmo estigma que moradores convivem há décadas tentando desmontar.

Então, afinal: morar perto ainda faz mal?

A resposta mais honesta é esta:

Pelo que indicam as informações oficiais disponíveis e o monitoramento institucional recente, não há base pública atual para afirmar que morar perto do depósito, em Abadia de Goiás, represente hoje um risco radiológico comprovado para a população do entorno, desde que a estrutura permaneça íntegra e sob controle.

Mas dizer apenas isso seria insuficiente.

Porque o Césio-137 continua fazendo mal de outras formas:

  • na memória;
  • no estigma;
  • no medo herdado;
  • na suspeita permanente;
  • e na sensação de que certos territórios nunca conseguiram se libertar totalmente do que lhes aconteceu.

O perigo documentado de hoje não é o mesmo de 1987.
O trauma coletivo, esse sim, continua ativo.

O que essa pauta exige de especialistas

Se você for fechar com entrevistas reais, os melhores perfis para blindar a matéria são:

  • Especialista em proteção radiológica / CNEN / físico nuclear / engenheiro nuclear
    Para explicar monitoramento, barreiras, meia-vida, risco real hoje e o que é mito.
  • Antropólogo(a) / pesquisador(a) de memória social / saúde coletiva / psicologia social
    Para explicar estigma territorial, trauma coletivo, transmissão intergeracional do medo e discriminação.

Essa combinação deixa a pauta muito forte porque impede que ela caia em dois erros comuns:
terror sem base técnica ou frieza técnica sem dimensão humana.

Notícias relacionadas