Genética bovina ganha força no Tocantins e reforça importância da escolha de reprodutores adaptados

Genética bovina ganha força no Tocantins e reforça importância da escolha de reprodutores adaptados
Fernanda CappellessoPor Fernanda Cappellesso 27 de março de 2026 1

O avanço da pecuária de corte no Tocantins tem mudado o perfil da atividade no estado. O que antes era associado, em grande medida, à expansão territorial do rebanho, hoje passa a ser cada vez mais ligado à qualidade genética dos animais, à eficiência produtiva e à capacidade de adaptação ao sistema local. Nesse novo cenário, a escolha de reprodutores deixa de ser uma decisão secundária e passa a ocupar posição central na estratégia das fazendas.

Os números ajudam a explicar essa mudança. Entre 2018 e 2024, o rebanho bovino tocantinense cresceu 39,2%, o sexto maior avanço do país no período. Com isso, o estado superou a marca de 11 milhões de cabeças e passou a figurar entre os dez maiores rebanhos bovinos do Brasil. Em paralelo, a atividade também avançou em volume de produção: em 2024, o Tocantins registrou recorde histórico de abate, com cerca de 1,3 milhão de bovinos, e os dados mais recentes indicam potencial para ultrapassar 1,4 milhão de animais abatidos, com produção próxima de 381 mil toneladas de carne. Cerca de um terço desse volume já segue para o mercado externo, enquanto a maior parte ainda abastece o mercado interno. Em 2025, o estado exportou aproximadamente 125 mil toneladas de carne bovina, com a Ásia na liderança entre os destinos, seguida por Oriente Médio, África, América do Norte e Europa.

Esse movimento não se sustenta apenas com aumento de área ou com ampliação do plantel. Ele depende, cada vez mais, da capacidade de produzir melhor com mais previsibilidade. É nesse ponto que a genética bovina ganha relevância. Em uma pecuária voltada para resultado, o touro concentra parte importante do desempenho futuro do rebanho. Ele influencia diretamente características como ganho de peso, fertilidade, precocidade sexual, habilidade materna, eficiência alimentar e qualidade de carcaça. Em sistemas comerciais, isso se traduz em mais arrobas por hectare, menor tempo até o abate, maior regularidade dos lotes e melhor desempenho reprodutivo.

No Tocantins, esse debate tem peso ainda maior porque o ambiente impõe condicionantes concretos. O estado reúne clima quente, forte sazonalidade entre seca e chuvas, predominância de sistemas a pasto e expansão produtiva em áreas de Cerrado e transição com a Amazônia. Esse contexto exige animais capazes de responder geneticamente sem perder funcionalidade a campo. Em outras palavras, não basta que o reprodutor tenha bom pedigree ou excelentes índices em catálogo; ele precisa ser compatível com a realidade da fazenda tocantinense. O próprio governo estadual destaca que as condições climáticas, a disponibilidade hídrica e o avanço de sistemas mais eficientes, como a integração lavoura-pecuária-floresta, colocam o Tocantins em posição estratégica para crescer com produtividade e sustentabilidade.

Por isso, a discussão sobre genética no estado passa necessariamente pela adaptação. Um touro selecionado em ambiente muito distinto, sob manejo intensivo e com exigências diferentes das encontradas no Tocantins, pode não entregar no campo o desempenho esperado. A escolha do reprodutor, então, precisa considerar simultaneamente dois planos: o potencial genético e a adequação fenotípica ao sistema produtivo. Essa é uma mudança de mentalidade importante, porque desloca a decisão da lógica da aparência ou da oportunidade comercial para uma lógica técnica, baseada em objetivo de seleção.

Hoje, essa análise é mais sofisticada do que há poucos anos. Ferramentas como as DEPs, as Diferenças Esperadas na Progênie, permitem estimar o quanto a descendência de um animal tende a expressar determinadas características. Na prática, elas oferecem ao produtor uma base mais objetiva para decidir se aquele reprodutor contribui para corrigir falhas do plantel ou acelerar ganhos desejados. A genômica ampliou ainda mais essa capacidade, especialmente em animais jovens, ao elevar a precisão das avaliações antes mesmo de um grande volume de progênie em campo.

Para o gerente de pecuária do Grupo Otávio Lage e associado da Novilho Precoce, Leonardo Rios, esse avanço reduziu a margem de incerteza na compra. Segundo ele, o produtor hoje trabalha com um nível maior de previsibilidade na escolha dos touros, porque as avaliações já indicam o que pode ser esperado da progênie e a genômica aumenta a segurança dessa leitura, sobretudo nos animais mais jovens. Essa previsibilidade interessa diretamente ao pecuarista comercial, que precisa alinhar investimento e retorno dentro de um ciclo produtivo cada vez mais pressionado por custo, desempenho e padronização.

Mas a genética, sozinha, não resolve o sistema. A coordenadora do núcleo Nelore JEM – Motta Agropecuária e associada da Novilho Precoce, Juliana Oliveira, chama atenção para um ponto recorrente no campo: animais com avaliações semelhantes podem ter comportamentos distintos quando colocados em realidades produtivas diferentes. Por isso, segundo ela, o fenótipo e a estratégia da propriedade precisam caminhar juntos. O raciocínio é direto: um reprodutor pode ter bons indicadores, mas se não estiver alinhado ao tipo de matriz, ao regime nutricional, ao manejo reprodutivo e ao objetivo econômico da fazenda, o resultado final tende a ficar abaixo do esperado.

Essa leitura ganha relevância em um estado que vive fase de profissionalização acelerada. O Tocantins tem crescido acima de polos tradicionais da pecuária brasileira em ritmo de expansão do rebanho, o que abre oportunidade, mas também aumenta a exigência técnica sobre quem produz. O crescimento quantitativo coloca o estado em evidência. A genética, por sua vez, tende a definir quem transformará esse crescimento em competitividade de longo prazo.

Na prática, a escolha de reprodutores adaptados tem impacto em várias etapas da cadeia. Um touro bem selecionado pode contribuir para bezerros mais pesados à desmama, melhor conversão em sistemas de recria e engorda, fêmeas mais férteis e carcaças mais adequadas ao mercado frigorífico. Em um ambiente em que o mercado remunera padronização, precocidade e rendimento, o ganho genético deixa de ser uma discussão restrita aos criadores de elite e passa a integrar a rotina do produtor comercial.

Esse movimento também fortalece a estrutura produtiva local. À medida que o Tocantins valoriza genética desenvolvida ou validada em condições semelhantes às do próprio estado, cria-se um círculo de retroalimentação entre seleção, troca de informação técnica e consolidação de um padrão mais eficiente de produção. Isso reduz dependência de soluções importadas de outras realidades sem filtro técnico e amplia a construção de uma pecuária mais aderente ao território tocantinense.

Para o presidente da Associação Novilho Precoce, Fernando Penteado, o momento atual exige decisões cada vez mais técnicas por parte do produtor. Segundo ele, a profissionalização da pecuária passa justamente pela capacidade de acessar informação qualificada, orientação e iniciativas de melhoramento genético. A fala sintetiza uma tendência já visível no setor: a competitividade da fazenda moderna não está apenas no tamanho da área ou no volume do rebanho, mas na qualidade das decisões tomadas antes da estação de monta.

O avanço da genética bovina no Tocantins, portanto, não é um fenômeno isolado. Ele acompanha uma transformação mais ampla da pecuária estadual, que cresce em escala, amplia abates, aumenta exportações e passa a disputar espaço com maior peso no mercado nacional de proteína animal. Nesse processo, o reprodutor deixa de ser apenas mais um animal do plantel e passa a ser tratado como ativo estratégico. Em uma pecuária que cobra eficiência, adaptação e regularidade, escolher bem o touro significa, em grande medida, definir o desempenho do rebanho dos próximos anos.

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