Pedro Taques diz que MT repassou R$ 755 milhões ao Master e caso explode na CPI

Pedro Taques diz que MT repassou R$ 755 milhões ao Master e caso explode na CPI
Fernanda CappellessoPor Fernanda Cappellesso 27 de março de 2026 1

Ex-governador de Mato Grosso afirma no Senado que recursos públicos e operações ligadas a consignados, acordo com a Oi e concessão da BR-163 abasteceram estruturas associadas ao Banco Master; fala amplia crise e nacionaliza um escândalo que já deixou de ser apenas financeiro

Quando um escândalo de consignados começa a falar a linguagem de R$ 755 milhões, fundos de investimento, acordo tributário com uma gigante das telecomunicações e recursos vinculados a uma das rodovias mais estratégicas do Centro-Oeste, a crise deixa de ser regional. Foi exatamente isso que aconteceu nesta semana, quando o ex-governador de Mato Grosso Pedro Taques levou à CPI do Crime Organizado, no Senado Federal, uma acusação que reposiciona o caso Banco Master em outro patamar: segundo ele, desde 2023, o governo de Mato Grosso teria repassado ao menos R$ 755 milhões a estruturas ligadas ao banco, em operações que envolveriam crédito consignado, um acordo com a empresa Oi e recursos relacionados à BR-163. A declaração foi registrada oficialmente pela cobertura institucional do Senado e repercutida por veículos nacionais e regionais.

O peso político da fala não está apenas no valor. Está no desenho do enredo. Em vez de uma denúncia restrita a descontos abusivos em folha de servidores — já suficientemente grave —, Taques apresentou à comissão uma narrativa de interconexão entre sistema financeiro, estruturas de investimento, recursos públicos, concessões e supostos beneficiários políticos. Em outras palavras: o caso, que já pressionava o debate sobre consignados, agora passa a dialogar com suspeitas mais amplas sobre o uso de engrenagens financeiras sofisticadas para movimentar dinheiro público e privado em circuitos de difícil rastreio.

O que Pedro Taques disse na CPI

Na versão levada ao Senado, Pedro Taques afirmou que o montante de R$ 755 milhões seria composto por pelo menos duas frentes centrais. A primeira, de R$ 308 milhões, estaria ligada a um acordo tributário envolvendo a Oi, em que valores originalmente relacionados à devolução de tributos teriam sido direcionados a dois fundos constituídos, geridos e administrados pelo Banco Master. A segunda, de R$ 447 milhões, teria relação com recursos públicos aplicados em um fundo vinculado à concessão da BR-163, administrada pela estatal MT Participações e Projetos (MT-PAR), segundo a descrição que ele apresentou na comissão. O ex-governador citou nominalmente os fundos Royal Capital e Lotte World como estruturas que teriam recebido repasses milionários.

A formulação correta, do ponto de vista jornalístico e jurídico, é direta: trata-se de uma acusação feita por Pedro Taques em depoimento à CPI, ainda sem conclusão final da comissão e sem sentença judicial sobre os fatos narrados. Mas isso não diminui o impacto. Ao contrário. O simples fato de a denúncia ter sido apresentada em um colegiado do Senado, com gravação oficial e repercussão nacional, já desloca o caso para o centro do debate político e institucional.

De consignado a suspeita de engenharia financeira

O caso ganhou musculatura porque Taques não falou apenas como ex-governador. Ele depôs na condição de advogado de entidades sindicais e representativas de servidores públicos estaduais, que denunciaram possíveis irregularidades em contratos de crédito consignado em Mato Grosso. Segundo a cobertura oficial do Senado, ele afirmou que o Banco Master teria coordenado uma rede de instituições que atuariam de forma irregular, com dificuldade de transparência para os servidores e uso de empresas “satélites” ou marcas que imitariam instituições financeiras tradicionais para induzir confiança. Taques disse ainda que cerca de 45 mil servidores do estado teriam consignados em empresas ligadas a esse ecossistema.

Esse detalhe é central. O escândalo dos consignados, por si só, já é explosivo porque toca em um ponto sensível: servidor público com desconto em folha, margem comprometida, contratos múltiplos e dificuldade de compreensão do que está sendo cobrado. Quando isso passa a se conectar, na narrativa apresentada à CPI, com fundos financeiros, direitos creditórios, operações estruturadas e repasse de recursos vultosos, o caso deixa de parecer apenas uma disputa contratual e passa a sugerir um possível modelo de captura mais amplo.

Por que o valor de R$ 755 milhões muda a escala do caso

Em política e investigação, números têm função narrativa. Não é a mesma coisa falar em “irregularidade em consignado” e falar em R$ 755 milhões. O valor muda a escala de percepção pública e institucional. Ele aproxima o caso de outros grandes escândalos de intermediação financeira e amplia imediatamente três pressões:

  1. Pressão sobre a CPI, que agora precisa demonstrar se vai aprofundar ou apenas registrar a denúncia;
  2. Pressão jurídica, porque as falas podem alimentar pedidos de quebra de sigilo, rastreamento de fundos e investigação sobre beneficiários finais;
  3. Pressão política, porque a denúncia passa a atingir o entorno do poder estadual e não apenas o setor financeiro.

É por isso que a fala de Taques repercutiu rápido. O Senado destacou que ele acusou o Banco Master de coordenar fraudes em consignados e de transferir valores de devolução de impostos para estruturas que, segundo ele, beneficiariam aliados do governo de Mato Grosso. O Metrópoles e a Única News também reproduziram o núcleo da denúncia, com o detalhamento de que os R$ 308 milhões estariam ligados ao acordo com a Oi e os R$ 447 milhões a recursos vinculados à BR-163.

A BR-163 e a Oi entram no centro da crise

Dois elementos tornam essa história especialmente tóxica: Oi e BR-163.

A Oi não é apenas uma empresa em recuperação judicial ou um nome conhecido do mercado. Ela carrega um histórico de disputas tributárias, reestruturações, cessões de créditos e negociações complexas. Quando um ex-governador afirma que um acordo envolvendo a companhia teria desaguado em fundos ligados a uma instituição hoje no centro de um escândalo nacional, o caso ganha contornos de engenharia financeira sofisticada.

Já a BR-163 tem peso simbólico e econômico próprio. É uma das artérias logísticas mais relevantes do agronegócio e da circulação de cargas no Centro-Oeste. Associar recursos ligados à rodovia a fundos apontados em uma CPI é, politicamente, devastador. Porque a rodovia deixa de ser apenas infraestrutura e passa a aparecer como parte de um circuito financeiro sob suspeita. Isso aumenta a gravidade percebida pelo público, pelos agentes econômicos e pela oposição.

A CPI agora é pressionada a sair do discurso e entrar no rastreamento

O grande teste institucional começa agora. A fala de Pedro Taques, sozinha, não condena ninguém. Mas ela cria material político e narrativo suficiente para justificar uma escalada investigativa. E é justamente esse o ponto: se a CPI do Crime Organizado aceitar a lógica apresentada no depoimento, o próximo passo natural é mirar quebra de sigilo de fundos, fluxos de transferência, contratos, cessões de crédito, beneficiários finais e eventuais conexões com agentes públicos ou privados.

A comissão já vinha demonstrando disposição de avançar sobre o universo Banco Master. Na semana passada, a Agência Brasil noticiou que a CPI aprovou pedido para investigar beneficiários do banco e também destacou a convocação de Pedro Taques dentro desse contexto.

Ou seja: a oitiva não foi um episódio isolado. Ela se encaixa em uma sequência de movimentos que indicam expansão do foco da CPI sobre o caso Master.

O caso deixa de ser mato-grossense e vira pauta nacional

Há uma mudança de patamar aqui que muita gente ainda não percebeu. Até pouco tempo, o escândalo dos consignados em Mato Grosso podia ser tratado como uma crise de estado — grave, mas localizada. A partir do momento em que o Senado institucionaliza a denúncia, o caso passa a integrar um roteiro maior: Banco Master, estruturas satélites, possíveis fraudes em consignados, conexões interestaduais, fundos de investimento, figuras políticas e suspeitas de lavagem ou circulação opaca de recursos.

É isso que transforma o episódio em pauta nacional.

A própria cobertura institucional do Senado mostra que a CPI já vinha tratando o depoimento de Taques como parte de uma investigação mais ampla sobre o ecossistema do Banco Master e suas conexões. Em material anterior, a Casa informou que a convocação estava ligada à sua atuação em denúncias sobre irregularidades no crédito consignado que teriam causado prejuízos a cerca de 14 mil servidores. No depoimento efetivo, o número apresentado por Taques já aparece em patamar ainda maior de alcance, com menção a 45 mil servidores afetados no estado.

Essa variação, por si só, já indica que o caso está em movimento e que a narrativa investigativa ainda está se consolidando.

O impacto político: Mauro Mendes entra na zona de pressão

Embora a fala de Pedro Taques tenha sido feita em condição de advogado e ex-governador, o efeito político imediato recai sobre o atual governo de Mato Grosso e, por tabela, sobre o governador Mauro Mendes. Isso porque Taques afirmou que parte dos recursos teria chegado a empresas ligadas a aliados do governador e mencionou, segundo a cobertura do Senado, estruturas que alcançariam beneficiários relacionados ao entorno político local.

Aqui, a cautela precisa ser máxima: são alegações apresentadas em CPI, não fatos definitivamente comprovados. Mas, do ponto de vista político, o estrago não espera o trânsito em julgado. Em pré-campanha, uma denúncia desse porte não precisa estar concluída para produzir dano. Basta ser crível, numericamente robusta e institucionalmente visível.

E ela é.

O que isso significa para o caso Banco Master

A fala de Taques não resolve o caso Master. Ela o complica.

Até aqui, o escândalo já vinha acumulando episódios envolvendo investigação policial, liquidação extrajudicial, suspeitas de fraude financeira e movimentação intensa no Congresso. Com a entrada do capítulo Mato Grosso — e com a cifra de R$ 755 milhões —, o banco deixa de ser visto apenas como protagonista de um colapso financeiro e passa a ser associado, no debate público, a um possível modelo de captação, triangulação e redistribuição de recursos em ambientes politicamente sensíveis.

Isso é devastador para a imagem institucional de qualquer grupo financeiro.

A leitura mais dura: não é mais sobre consignado, é sobre poder

Se a denúncia de Taques for aprofundada, o caso pode deixar de ser lido apenas como uma fraude em produtos financeiros voltados a servidores. Ele passa a sugerir algo maior: o uso de instrumentos financeiros complexos para construir relações de dependência, captação de ativos, intermediação de recursos públicos e eventual distribuição política indireta.

É por isso que essa história incomoda tanto.

Porque, se confirmada em parte relevante, ela não revelaria apenas um banco problemático. Revelaria um método.

O que é fato agora

Até o momento, os fatos verificáveis são estes:

  • Pedro Taques depôs na CPI do Crime Organizado no Senado em 25 de março;
  • Ele acusou o Banco Master de coordenar fraudes em consignados e afirmou que Mato Grosso repassou ao menos R$ 755 milhões a estruturas ligadas ao banco desde 2023;
  • Segundo ele, o valor envolve consignados, um acordo com a Oi e recursos vinculados à BR-163;
  • Ele citou os fundos Royal Capital e Lotte World;
  • A denúncia foi registrada e repercutida por veículos nacionais e regionais, mas ainda depende de aprofundamento investigativo e eventual contraditório formal dos citados.

Abomba saiu do cofre e entrou na política

O caso dos consignados em Mato Grosso acaba de atravessar uma fronteira decisiva. Até aqui, ele era grave. Agora, ele é estruturalmente perigoso. Porque passa a envolver não só contratos e descontos em folha, mas a hipótese — ainda em fase de denúncia e apuração — de que recursos públicos, fundos privados, concessões e acordos bilionários possam ter operado dentro de uma engrenagem que beneficia o mesmo ecossistema financeiro já sob suspeita.

A partir desta semana, a pergunta já não é apenas se houve abuso contra servidores.

A pergunta passa a ser outra, muito mais pesada:

o caso Banco Master revela um escândalo financeiro ou um modelo de poder?

E, em Brasília, quando uma pergunta dessas entra em CPI com cifra de R$ 755 milhões, ninguém mais consegue fingir que o incêndio é local.

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