Primeiro emprego ainda trava o futuro de jovens no TO mesmo com queda histórica do desemprego
O Tocantins entrou em 2026 com um dado que, à primeira vista, parece desmontar qualquer discurso de crise no mercado de trabalho: o estado registrou em 2025 a menor taxa anual de desocupação de toda a série histórica da PNAD Contínua, iniciada em 2012. Segundo o IBGE, a taxa anual de desemprego no Tocantins caiu para 4,7%, abaixo dos 5,6% da média nacional e inferior ao índice do próprio estado em 2024. É um resultado relevante, sobretudo num país em que emprego continua sendo um dos principais termômetros sociais e eleitorais. (agenciadenoticias.ibge.gov.br)
Mas, no Tocantins real, o dado macro não resolve tudo. Porque, ao mesmo tempo em que o desemprego cai, o primeiro emprego continua sendo um gargalo para milhares de jovens, especialmente aqueles que saem da escola sem experiência, sem rede de indicação e sem qualificação adicional. O paradoxo é esse: o mercado melhorou, o saldo de vagas aumentou, o estado performa acima da média em alguns indicadores — e, ainda assim, muitos jovens seguem ouvindo a mesma exigência que bloqueia a entrada no mundo do trabalho: “precisa ter experiência”.
Essa contradição não é apenas percepção. Ela aparece nos números nacionais e nos recortes locais. E é justamente por isso que a pauta é forte: o desemprego caiu, mas a porta de entrada continua estreita.
Tocantins teve a menor taxa anual de desemprego da série histórica
Os dados mais recentes da PNAD Contínua, divulgados pelo IBGE em fevereiro, mostram que 20 unidades da federação registraram em 2025 a menor taxa anual de desocupação desde o início da série histórica. O Tocantins está nesse grupo. No estado, a taxa caiu para 4,7%, consolidando o melhor resultado já registrado desde 2012. No Brasil, a média anual ficou em 5,6%. (agenciadenoticias.ibge.gov.br)
O dado é importante porque muda o patamar do debate. Não se trata mais de um estado que apenas “melhorou um pouco” no emprego. O Tocantins entra em 2026 com um indicador historicamente favorável no agregado.
Esse avanço tem relação com:
- expansão do emprego formal em 2025;
- desempenho positivo em setores como serviços, comércio e construção;
- maior participação de trabalhadores com ensino médio completo nas vagas abertas;
- e manutenção de saldo positivo no mercado formal ao longo do ano.
Mas a leitura correta exige cuidado: taxa de desemprego baixa não significa facilidade universal de acesso ao trabalho. Significa que, no conjunto, mais gente está ocupada. Só que esse dado não captura com a mesma precisão quem continua ficando do lado de fora, nem revela, sozinho, quais grupos entram com mais dificuldade.
E, quando se olha para juventude, a realidade fica mais complexa.
Jovens lideraram a criação de vagas formais — mas isso não elimina a barreira do primeiro emprego
Se o dado do IBGE mostra um estado com desemprego em baixa, o Novo Caged reforça o lado positivo: os jovens de 18 a 24 anos foram justamente o grupo com melhor desempenho na geração de empregos formais no Tocantins.
Segundo o balanço anual do Ministério do Trabalho, o estado encerrou 2025 com mais de 7,4 mil vagas formais criadas, e o grupo de 18 a 24 anos liderou o saldo, com 5.313 novos postos — o melhor resultado entre as faixas etárias. Além disso, o Tocantins abriu 1,4 mil novas vagas formais em janeiro de 2026, mostrando continuidade do aquecimento no começo do ano. (gov.br) (gov.br)
À primeira vista, isso poderia encerrar a pauta. Se os jovens foram o grupo que mais entrou no mercado, então o problema estaria resolvido. Só que não está.
Porque o dado do Caged mostra quem entrou, mas não mostra, sozinho, quantos tentaram e não conseguiram. E não separa com nitidez o jovem que conquistou uma vaga de primeiro emprego daquele que já teve alguma experiência, passou por rotatividade ou retornou ao mercado.
Na prática, o que o Caged revela é que os jovens estão presentes na geração de vagas.
O que ele não prova, automaticamente, é que a transição entre escola e trabalho ficou fácil.
E é exatamente nesse ponto que mora o problema.
O Brasil ainda tinha 8,9 milhões de jovens sem estudar e sem trabalhar
Enquanto o Tocantins melhora no agregado, o cenário nacional ajuda a mostrar por que a sensação de travamento persiste. Segundo levantamento do Dieese, com base na PNAD Contínua do IBGE, o Brasil ainda tinha, no 2º trimestre de 2025, cerca de 8,9 milhões de jovens entre 14 e 29 anos na condição conhecida como “nem-nem” — ou, na formulação mais técnica, sem frequentar escola e sem trabalho.
Esse contingente representa 17,9% de um universo de 49,5 milhões de jovens nessa faixa etária. O próprio Dieese ressalta que o número caiu em relação ao período pós-pandemia e atingiu o menor patamar da série, mas continua enorme em termos absolutos. Em outras palavras: houve melhora, mas a exclusão juvenil ainda segue em escala nacional relevante. (dieese.org.br)
Esse dado é decisivo para a leitura da pauta no Tocantins. Ele mostra que a melhora macroeconômica, por si só, não elimina o desalinhamento entre juventude, escola e mercado de trabalho. O jovem pode até viver em um estado com desemprego historicamente baixo e ainda assim enfrentar três travas clássicas:
- falta de experiência;
- baixa escolaridade ou qualificação incompleta;
- e ausência de ponte concreta entre formação e contratação.
O que trava o primeiro emprego no Tocantins
No Tocantins, a dificuldade do primeiro emprego costuma se concentrar em quatro obstáculos estruturais que se repetem no discurso de empresas, candidatos e postos de intermediação.
1. Exigência de experiência para vaga de entrada
É a contradição mais conhecida. Empresas anunciam vagas “iniciais”, mas pedem vivência anterior, conhecimento prático ou histórico mínimo em carteira. Para quem tenta a primeira oportunidade, isso funciona como filtro quase automático.
2. Ensino médio virou o piso — mas não garante entrada
Os próprios dados do Caged mostram que pessoas com ensino médio completo foram as principais beneficiadas pelas novas vagas formais no Tocantins em 2025. Isso significa que terminar a escola ajuda. Mas terminar a escola, sozinho, já não basta. O mercado pede, cada vez mais, pacote mínimo de comportamento profissional, habilidade digital, disponibilidade e, muitas vezes, experiência anterior. (gov.br)
3. Falta de conexão entre qualificação e vaga real
O estado ampliou ações de capacitação e intermediação, mas ainda existe um problema clássico: o curso nem sempre conversa diretamente com a vaga disponível. O jovem faz oficina, palestra ou formação breve, mas não necessariamente encontra uma empresa pronta para absorvê-lo logo depois.
4. Mercado aquecido não significa mercado inclusivo
Há geração de vagas, sim. Mas parte delas exige jornada pesada, deslocamento, flexibilidade de horário, informalidade prévia ou perfil que exclui quem está tentando entrar pela primeira vez. Em setores com alta rotatividade, o jovem entra mais — mas também sai mais rápido.
Sine e Setas ampliam intermediação, mas desafio segue na ponta
O governo estadual tem reforçado a narrativa de fortalecimento da intermediação de mão de obra. Em março, a Secretaria de Estado do Trabalho e Desenvolvimento Social (Setas) destacou que o Tocantins tem o maior índice de trabalho formal da Região Norte, e informou que o Sine Tocantins realizou, apenas em 2025, 134 atividades formativas, alcançando 4.247 trabalhadores. (to.gov.br)
Além disso, o estado mantém a orientação de acesso às vagas pela Carteira de Trabalho Digital, com intermediação pelo Sine e pelos canais oficiais. O portal da Setas informa que as oportunidades são disponibilizadas por meio do aplicativo e da rede de atendimento. (to.gov.br)
Há também programas direcionados a públicos específicos. Em dezembro de 2025, por exemplo, o governo anunciou parceria entre o Sine Tocantins e o Exército Brasileiro para qualificação e inserção de jovens egressos do serviço militar, mirando justamente a transição para o primeiro emprego. (to.gov.br)
Esse conjunto de ações mostra que o estado tenta construir pontes. O problema é que, na ponta, a percepção de muitos jovens continua sendo outra: há vaga no sistema, mas falta vaga compatível com quem nunca trabalhou.
A sensação de melhora não chega igual para todos
Esse é o ponto mais importante da matéria. O Tocantins melhorou no mercado de trabalho? Sim.
Os números oficiais mostram isso com clareza.
O desemprego caiu para 4,7%, menor taxa anual da série.
Os jovens de 18 a 24 anos lideraram o saldo de vagas formais em 2025.
Janeiro de 2026 abriu com saldo positivo de 1,4 mil empregos.
Mas isso não significa que o jovem tocantinense sinta o mercado como um ambiente aberto.
Na prática, há um descompasso entre o dado agregado e a experiência cotidiana.
O dado diz:
- mais vagas;
- menor desemprego;
- mais formalização.
A vivência do jovem diz:
- pedem experiência;
- a vaga exige algo além da escola;
- o salário de entrada é baixo;
- a concorrência é alta;
- e a primeira chance ainda depende, muitas vezes, de indicação, sorte ou programas específicos.
Por que essa pauta é forte no Tocantins agora
Essa pauta funciona porque ela junta duas verdades ao mesmo tempo — e as duas são reais.
Verdade 1: o Tocantins está, de fato, melhor no mercado de trabalho do que esteve em muitos anos.
Verdade 2: isso não impediu que a juventude continue vivendo um bloqueio concreto na transição para o primeiro emprego.
É exatamente esse contraste que dá força jornalística à matéria. Não é uma pauta pessimista contra os números. Também não é uma pauta triunfalista que ignora a realidade de quem está tentando entrar.
É uma pauta de fricção entre:
- crescimento e exclusão;
- vaga e acesso;
- melhora estatística e frustração social.
O que precisa mudar para o primeiro emprego deixar de ser gargalo
Se o problema está na porta de entrada, a resposta também precisa estar nela.
Especialistas e experiências já consolidadas apontam alguns caminhos que tendem a funcionar melhor:
- ampliar vagas de aprendizagem e trainee regionalizado;
- estimular empresas a abrirem vagas sem exigência de experiência prévia;
- integrar escolas técnicas, ensino médio e empregadores locais;
- criar trilhas curtas de qualificação com contratação vinculada;
- expandir programas de intermediação ativa do Sine com foco em juventude;
- trabalhar orientação profissional e currículo ainda na escola.
No Tocantins, onde o mercado é menor e mais concentrado em polos urbanos, isso ganha peso adicional. Sem ponte concreta, o jovem do interior continua chegando atrasado ao mercado — mesmo quando os números gerais melhoram.
O paradoxo do Tocantins em 2026
O Tocantins começa 2026 com um paradoxo que resume bem o momento do mercado de trabalho no Brasil profundo.
De um lado, o estado exibe um dado robusto: a menor taxa anual de desemprego da série histórica, com 4,7% em 2025.
De outro, o debate sobre juventude continua urgente porque a entrada no mercado ainda é marcada por filtro, baixa previsibilidade e exigências incompatíveis com quem está tentando o primeiro passo.
O estado está melhor.
Mas isso não significa que o começo da vida profissional tenha ficado simples.
No fim, a pergunta que move essa pauta é direta — e continua sem resposta completa para milhares de jovens tocantinenses:
se o desemprego caiu, por que a sensação de porta fechada ainda é tão forte para quem tenta o primeiro emprego?
Porque, no Tocantins de 2026, o mercado pode até estar aquecido.
Mas, para muitos jovens, o problema não é a falta de vagas no sistema. É a dificuldade de conseguir a primeira chance.