Caso Master muda de arena no Senado após fim da CPMI do INSS e pode ganhar capítulo explosivo em relatório da CPI do Crime Organizado
O caso Banco Master não saiu do radar de Brasília com o esvaziamento da CPMI do INSS. Ao contrário: a crise apenas mudou de arena. Com o encerramento político da comissão mista que vinha servindo de palco paralelo para desdobramentos sensíveis, o foco agora migra de forma mais explícita para a CPI do Crime Organizado no Senado, onde o tema já ganhou corpo, avançou em requerimentos e deve aparecer com destaque no relatório final. A leitura entre parlamentares e bastidores da Casa é que o escândalo financeiro entrou em uma fase potencialmente mais dura, porque passa a ser tratado sob a chave de lavagem de dinheiro, infiltração institucional e possível conexão com estruturas de crime organizado.
A mudança não é apenas semântica. É política. E pode ser mais pesada. A CPI do Crime Organizado, originalmente criada para investigar a expansão de facções e milícias, já incorporou formalmente o caso Master à sua linha de apuração. O próprio relator, senador Alessandro Vieira (MDB-SE), afirmou em fevereiro que a comissão investigaria as fraudes do banco justamente porque o plano de trabalho aprovado permite apurar o uso de instituições financeiras para lavagem de dinheiro de organizações criminosas. A partir desse enquadramento, o caso deixou de ser tratado apenas como escândalo bancário ou colapso regulatório e passou a ser inserido em uma moldura institucional muito mais grave.
Esse reposicionamento ficou ainda mais claro nos últimos dias. Na terça-feira (31), a CPI aprovou uma nova rodada de movimentações diretamente ligadas ao caso Master, entre elas a convocação dos ex-governadores Ibaneis Rocha (MDB) e Cláudio Castro (PL), além de medidas voltadas a aprofundar o rastreamento de conexões políticas e empresariais ao redor da instituição. A decisão foi interpretada em Brasília como um sinal inequívoco de que o colegiado não apenas manteve o tema vivo, mas decidiu ampliar seu alcance político em um momento pré-eleitoral. O avanço foi confirmado por diferentes veículos e reforçado pela cobertura de bastidores publicada nesta semana.
A convocação de Ibaneis Rocha tem peso especial porque recoloca no centro da investigação a tentativa de compra do Master pelo BRB, banco público controlado pelo Governo do Distrito Federal. Já no caso de Cláudio Castro, o movimento amplia o eixo Rio de Janeiro dentro de uma apuração que, para senadores, deixou de tratar apenas de fraude financeira isolada e passou a examinar relações políticas, institucionais e operacionais entre agentes públicos e privados. A CPI, na prática, está transformando o caso em algo maior: não apenas “o escândalo de um banco”, mas um possível sistema de conexões entre mercado financeiro, poder político e estruturas de proteção institucional.
O ponto central é que o Senado já vinha preparando esse deslocamento antes mesmo do colapso da CPMI do INSS. Em fevereiro, a Rádio Senado informou que a CPI do Crime Organizado iria investigar as fraudes do Master, e o relator confirmou que o caso se encaixava no escopo da comissão pelas suspeitas de uso do sistema financeiro em esquemas de lavagem. Ainda em janeiro, a mesma estrutura do Senado já sinalizava que a comissão ampliaria sua atuação para examinar o banco e suas relações com o Judiciário. Ou seja: o que agora aparece como “novo front” já vinha sendo montado nos bastidores. A diferença é que, com a perda de tração da CPMI do INSS, esse front virou o principal palco político do caso dentro do Congresso.
O Senado também abriu outras frentes paralelas que ajudam a mostrar que o tema está longe de ser enterrado. A Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) criou em fevereiro uma subcomissão específica para acompanhar as fraudes do Banco Master, com foco em documentos, audiências e monitoramento das investigações do Banco Central, da Polícia Federal e da CVM. Em março, a própria Agência Senado registrou debates em que especialistas falaram em gestão fraudulenta, ativos superdimensionados e barreiras à atuação de auditores independentes, reforçando a gravidade técnica do caso. Na prática, há hoje no Senado ao menos duas trilhas simultâneas: uma econômica-regulatória, via CAE, e outra político-criminal, via CPI do Crime Organizado.
Esse duplo movimento é o que torna a pauta explosiva. A CPMI do INSS vinha sendo vista por parte da oposição como um espaço de desgaste político mais amplo, mas seu esvaziamento não matou o tema. Apenas reduziu a disputa de superfície e empurrou o caso para uma comissão onde o enquadramento tende a ser mais agressivo. Na CPI do Crime Organizado, o Master aparece ligado a palavras que pesam muito mais no imaginário político e institucional: organização criminosa, lavagem de dinheiro, corrupção, intimidação, infiltração e possível captura de estruturas do Estado. Esse vocabulário, por si só, altera o potencial de dano político do relatório final.
O relator da comissão, Alessandro Vieira, já indicou em manifestações públicas que o caso Master não será tratado como apêndice secundário. A leitura em Brasília é que o relatório deve reservar um capítulo específico para o tema, justamente porque o banco passou a funcionar como eixo narrativo capaz de conectar diferentes frentes de investigação: sistema financeiro, uso de fundos, relações com autoridades, tentativas de blindagem institucional e desdobramentos criminais apontados pela Polícia Federal. Embora o texto final ainda não tenha sido apresentado, o acúmulo de requerimentos, oitivas e convocações mostra que o caso se tornou uma das linhas mais politicamente sensíveis da CPI.
Há ainda um dado importante no pano de fundo: enquanto a CPMI específica do Banco Master foi protocolada no Congresso com apoio suficiente, ela ainda depende de leitura em sessão conjunta para ser instalada formalmente. Ou seja, o vácuo deixado por essa demora acabou sendo ocupado por colegiados já em funcionamento — especialmente a CPI do Crime Organizado e a CAE. Isso ajuda a explicar por que o Senado se tornou, neste momento, o centro mais ativo da ofensiva política sobre o caso. O tema segue sem uma CPMI exclusiva instalada, mas já está sendo investigado por estruturas que, na prática, acumulam material e aumentam o custo político para qualquer tentativa de abafamento.
No fim das contas, o que aconteceu em Brasília foi o seguinte: o caso Master não foi desidratado; ele foi redistribuído. Saiu de uma comissão que perdeu sustentação e entrou de vez em colegiados onde o enquadramento é mais técnico, mais institucional e, em alguns pontos, mais devastador. Para o governo, para a oposição e para os grupos que orbitam o escândalo, o recado é claro: o caso não morreu com a CPMI do INSS. Ele apenas entrou em uma fase em que o Senado pode produzir um documento final com peso político muito maior — e com potencial de transformar o escândalo bancário em um capítulo mais amplo sobre poder, influência e crime organizado no coração de Brasília.