Governo do Tocantins firma parceria com Terra Viva e garante R$ 8 milhões por ano para ampliar investimentos no campo
Acordo com programa de alcance internacional promete reforçar assistência técnica, crédito rural com juros reduzidos e recuperação de áreas degradadas; Estado entra como um dos protagonistas da iniciativa
O Governo do Tocantins oficializou uma nova parceria voltada ao fortalecimento do campo e da assistência técnica rural no estado e colocou o nome do Tocantins no centro de um projeto de escala internacional. Em reunião realizada em Palmas, na sede do Instituto de Desenvolvimento Rural do Tocantins (Ruraltins), nesta semana, o Estado formalizou adesão ao Programa Terra Viva, iniciativa global voltada à segurança alimentar, bioeconomia e regeneração de terras, com previsão de R$ 8 milhões anuais para ampliar ações no setor rural tocantinense.
Na prática, o movimento representa mais do que um novo convênio institucional. Ele abre espaço para uma estrutura de financiamento e assistência que mira desde a agricultura familiar até o agronegócio sustentável, com foco em crédito mais barato, apoio técnico e recuperação de áreas degradadas. Em um estado onde o campo segue como um dos principais motores da economia, a entrada em um programa com promessa de grande escala nacional reposiciona o Tocantins em uma agenda que mistura produção, sustentabilidade e mercado internacional.
Segundo o governo estadual, o Programa Terra Viva conta com aporte de investidores dos Emirados Árabes Unidose projeta um volume total superior a R$ 500 bilhões em investimentos no Brasil. Dentro desse pacote, R$ 240 milhões devem ser destinados a empresas de Assistência Técnica e Extensão Rural (ATER) em todo o país. O Tocantins, por sua vez, foi apresentado como um dos estados estratégicos da iniciativa e deve receber aproximadamente R$ 8 milhões por ano para reforçar a atuação do Ruraltins e ampliar a capilaridade das políticas voltadas ao desenvolvimento rural.
O governador Wanderlei Barbosa tratou a parceria como um passo importante para consolidar o estado como destino de grandes investimentos ligados à produção e à sustentabilidade. “O Tocantins está preparado para receber grandes investimentos e transformá-los em desenvolvimento real. Essa parceria fortalece a assistência técnica, amplia oportunidades para nossos produtores e garante que o crescimento do campo aconteça com sustentabilidade, geração de renda e melhoria da qualidade de vida para quem produz”, afirmou.
O centro da estratégia está justamente no desenho operacional do programa. De acordo com o CEO do Terra Viva, Vitor Andrade, o modelo de financiamento previsto para os produtores chama atenção por oferecer juros em torno de 6% ao ano, patamar inferior ao praticado em muitas linhas tradicionais do mercado. Outro diferencial é a lógica de quitação: em vez de depender apenas de desembolso financeiro convencional, o produtor pode liquidar o financiamento com a própria produção agrícola, como soja, milho e feijão. A engenharia busca, ao mesmo tempo, estimular a cadeia produtiva local e abastecer mercados internacionais que dependem da importação de alimentos, como os Emirados Árabes.
Esse desenho cria uma nova narrativa para o campo tocantinense: crédito mais acessível, assistência técnica integrada e conexão com demanda externa. Em tese, isso pode favorecer especialmente produtores que hoje enfrentam dificuldade de acesso a financiamento em condições competitivas, sobretudo no pequeno e médio porte. O programa também promete custear a elaboração de projetos e garantir acompanhamento técnico qualificado, o que reduz barreiras históricas para quem precisa estruturar investimento produtivo com segurança institucional.
No Tocantins, a operacionalização passa diretamente pelo Ruraltins, que terá papel central na validação técnica, na assistência ao produtor e na execução dos projetos. Durante a reunião, o presidente do instituto, Edmilson Rodrigues, oficializou inclusive a entrega de uma sala dentro da sede do órgão para a instalação da equipe técnica do programa. A medida, segundo ele, permite integração imediata entre os profissionais do Terra Viva e os técnicos estaduais, com foco em acelerar a execução das ações no campo.
“A instalação do Terra Viva diretamente na nossa estrutura permite um trabalho integrado. Nossos técnicos atuarão em conjunto na execução de projetos que levarão desenvolvimento real ao campo, garantindo que o recurso chegue à ponta com segurança institucional e validação técnica”, destacou Edmilson.
O presidente do Ruraltins também classificou a parceria como um marco para a assistência técnica e a extensão rural no estado, áreas que historicamente funcionam como base para a consolidação de produtividade no interior. “O que mais buscamos é a melhoria da qualidade de vida dos nossos agricultores e produtores. Essa iniciativa vai financiar a cadeia produtiva desde a assistência técnica até a comercialização, fortalecendo a extensão rural, que é o pilar mais importante para o desenvolvimento do nosso Estado”, afirmou.
Além do impacto financeiro, o discurso institucional do programa tenta associar produtividade a sustentabilidade. O Terra Viva afirma que seu foco é transformar “passivos em produtividade”, com recuperação de áreas degradadas, otimização do uso da terra e incentivo à produção com base em critérios de regeneração e segurança alimentar. O projeto conta, segundo a apresentação feita ao governo estadual, com apoio institucional da Embrapa, do Consórcio Brasil e do Governo Federal.
Esse componente é politicamente relevante porque conecta o Tocantins a uma agenda cada vez mais estratégica no agro brasileiro: produzir mais sem ampliar a pressão sobre novas áreas, combinar crédito com assistência técnica e vender ao mercado externo uma imagem de eficiência produtiva atrelada à sustentabilidade. Em um momento em que estados disputam investimentos e espaço em cadeias internacionais, o governo tenta sinalizar que quer posicionar o Tocantins como território de expansão agrícola com lastro técnico e institucional.
No plano econômico, a promessa de R$ 8 milhões anuais para ações ligadas ao Ruraltins pode parecer modesta diante do volume total anunciado nacionalmente, mas tem peso concreto quando direcionada à assistência técnica, extensão rural e estruturação de projetos produtivos. Em estados como o Tocantins, onde o desempenho do campo tem efeito direto sobre renda, arrecadação, emprego e circulação econômica em municípios do interior, recursos desse tipo costumam produzir impacto mais relevante quando chegam acompanhados de execução técnica consistente.
A parceria, portanto, chega embalada por uma narrativa de grande escala, mas será medida, no fim, pela capacidade de sair do anúncio e alcançar a ponta. Para o produtor tocantinense, o que estará em jogo não é apenas a cifra divulgada, mas a efetividade do crédito, a velocidade da assistência técnica e a transformação real da promessa em produtividade, renda e competitividade.