“Infelizmente, os deputados dessas duas comissões não estão pautando essa matéria”, diz Wanderlei sobre os R$ 56 milhões do BNDES; “Essa informação está totalmente equivocada”, rebate Jorge; “Não houve quórum necessário”, afirma Olyntho

“Infelizmente, os deputados dessas duas comissões não estão pautando essa matéria”, diz Wanderlei sobre os R$ 56 milhões do BNDES; “Essa informação está totalmente equivocada”, rebate Jorge; “Não houve quórum necessário”, afirma Olyntho
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Ricardo Fernandes AlmeidaPor Ricardo Fernandes Almeida 16 de abril de 2026 3
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Governador aponta comissões da Assembleia como responsáveis por atraso na tramitação de proposta ligada ao Fundo Amazônia, enquanto parlamentares negam travamento e devolvem pressão ao Palácio Araguaia

O embate entre o governador Wanderlei Barbosa e deputados estaduais da Assembleia Legislativa do Tocantins subiu de tom e colocou no centro da crise política um projeto considerado estratégico para o Estado. A disputa gira em torno do Projeto de Lei nº 1/2026, que trata da autorização legislativa necessária para a formalização de um contrato de cerca de R$ 56 milhões junto ao BNDES, com recursos do Fundo Amazônia voltados a ações ambientais e de apoio ao setor produtivo tocantinense.

A crise explodiu depois que Wanderlei Barbosa afirmou publicamente que a matéria não estava avançando por causa das comissões presididas pelos deputados Olyntho Neto, da Comissão de Finanças, e Jorge Frederico, da Comissão de Administração, Trabalho, Defesa do Consumidor, Transportes, Desenvolvimento Urbano e Serviço Público. Ao cobrar a liberação do projeto, o governador disparou: “Infelizmente, os deputados e essas duas comissões não estão pautando essa matéria”. A fala foi feita no momento em que o governo anunciou a necessidade de pedir ao BNDES a prorrogação por 60 dias do prazo para assinatura da operação, numa tentativa de evitar a perda do recurso.

Segundo o Palácio Araguaia, o dinheiro é não reembolsável, ou seja, não representa empréstimo a ser pago pelo Estado. A gestão sustenta que os recursos seriam usados em frentes consideradas sensíveis, como a análise do Cadastro Ambiental Rural (CAR), modernização do Naturatins, fortalecimento do Ruraltins e ações de fiscalização ambiental. Só para o CAR, o governo afirma que estão previstos cerca de R$ 22 milhões. Outros R$ 10 milhões seriam destinados ao Naturatins e R$ 7 milhões ao Ruraltins, além de recursos para outras estruturas da política ambiental.

Ao responsabilizar os dois parlamentares, Wanderlei transformou um entrave regimental em crise política aberta. A leitura do governo é a de que, sem o avanço do projeto nas comissões, o Estado fica impedido de concluir a etapa final exigida pelo banco e, assim, corre o risco de perder um aporte já aprovado tecnicamente. Foi justamente essa linha que o Executivo adotou ao ampliar a cobrança pública contra a Assembleia.

A resposta veio em tom firme. Em nota enviada ao Diário Tocantinense, o deputado Jorge Frederico negou que tenha travado qualquer matéria e afirmou que essa não é sua postura política nem seu perfil de atuação. Segundo o parlamentar, a narrativa levada ao governador não corresponde ao que efetivamente ocorreu no Legislativo. “Essa informação está totalmente equivocada”, declarou, acrescentando ainda que “quem levou essa informação a ele merece um puxão de orelha”.

Jorge ressaltou que, embora presida uma das comissões citadas no debate, o projeto em questão sequer chegou ao colegiado sob sua responsabilidade, o que, segundo ele, inviabiliza qualquer acusação de retenção ou engavetamento. Na avaliação do deputado, o episódio precisa ser tratado com responsabilidade institucional e respeito aos fatos, sobretudo porque envolve interesse público e repercussão direta sobre a imagem da Assembleia e dos parlamentares.

Ao mesmo tempo, Jorge fez questão de mencionar o deputado Olyntho Neto, afirmando que o colega abriu a sessão da comissão no dia anterior, mas que a base do governo não estava presente para discutir o tema. A fala reposiciona a disputa, porque desloca parte da responsabilidade para a articulação palaciana dentro da Casa e enfraquece a tese de sabotagem deliberada. Eles chegaram a encaminharem vídeos.

Também em manifestação encaminhada ao Diário Tocantinense, Olyntho Neto rebateu a versão do governo e afirmou que não houve omissão do seu lado. Segundo ele, “não houve quórum necessário” para a realização da reunião da comissão, motivo pelo qual a matéria não avançou. O deputado sustentou que esteve presente no dia e horário regimentais, às 14h da quarta-feira, para dar início aos trabalhos, mas sem número mínimo de parlamentares não havia como deliberar sobre o projeto.

Olyntho ainda reforçou que o problema não ficou restrito à comissão. Segundo ele, também a sessão em plenário deixou de acontecer por ausência de presença mínima para deliberação. Na prática, a versão apresentada pelo deputado tenta desmontar a acusação de travamento político e recolocar o episódio no campo do funcionamento regimental da Assembleia.

Os registros públicos conhecidos até aqui indicam que o projeto realmente não avançou na data esperada. Portais de noticia informaram que o PL do Executivo nº 01/2026 não foi apreciado em 15 de abril por falta de quórum, tanto nas sessões quanto na expectativa de abertura das comissões. A mesma cobertura mostrou que a proposta era tratada como urgente por aliados do governo, justamente porque o calendário do BNDES se aproximava do limite.

Por outro lado, a comunicação alinhada ao governo afirmou que a resistência dos deputados Olyntho Neto e Jorge Frederico em votar o projeto criou um impasse que já obrigou o Estado a pedir mais prazo ao banco. A narrativa oficial apostou no desgaste político ao associar diretamente os nomes dos dois parlamentares à retenção do recurso.

No fundo, o caso deixou de ser apenas um debate sobre rito legislativo. Ele passou a simbolizar uma disputa mais ampla por força, narrativa e controle político dentro da Assembleia. Ao expor publicamente Olyntho e Jorge, Wanderlei elevou o conflito e sinalizou que não pretende tratar o episódio como mero atraso burocrático. Já os deputados, ao rebaterem de forma dura, mostram que não aceitam carregar sozinhos o custo político de uma falha que, segundo eles, envolveu ausência de quórum e deficiência de articulação da própria base governista.

Com isso, o projeto dos R$ 56 milhões do BNDES/Fundo Amazônia virou mais que uma pauta ambiental: tornou-se termômetro da relação entre Executivo e Legislativo no Tocantins. E, pelo tom das declarações, o caso ainda deve render novos capítulos nos bastidores e no plenário da Aleto.

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