Portelinhando Crônicas: O CHORO INAUGURAL

Choramos ao nascer porque o mundo nos recebe sem pedir licença. As luzes do hospital, o ar cortante nos pulmões, o toque apressado das mãos que nos erguem inauguram um palco que não ensaiamos. Ninguém nos consulta se queremos entrar em cena; apenas se abre a cortina, acende-se o refletor, e um choro irrompe como estreia forçada. Talvez seja esse choro o primeiro ato de lucidez: uma recusa instintiva diante do espetáculo que nos aguarda.
Depois, vão nos explicando que não é nada disso, que foi só o choque térmico, a claridade na retina, a palmada necessária para “ativar” a respiração. Organizam o trauma em linguagem técnica, dão-lhe nome científico, protocolam a dor. Assim, a lucidez inicial é lentamente traduzida em diagnóstico, e o grito se transforma em dado estatístico.
Chamam isso de desenvolvimento, mas talvez seja apenas o início de uma longa pedagogia da anestesia.
Crescemos entre paredes pintadas de cores suaves, com desenhos didáticos que prometem futuros brilhantes. Ensaiamos as primeiras palavras diante de telas que já nos oferecem slogans, jingles, manuais de felicidade instantânea. Aprendemos a conjugar verbos no tempo verbal do desempenho: eu produzo, tu competes, ele fracassa.
A cada boletim, a cada meta batida, vamos ajustando o figurino para caber no script social: seja forte, sorridente, eficiente, resiliente. A demência, aqui, não está no indivíduo, mas no roteiro que exige que se sorria enquanto tudo desaba.
Também nos dizem que vivemos em sociedades racionais, guiadas por leis, indicadores, políticas públicas bem desenhadas. Mas, quando olhamos com atenção, vemos filas de gente exausta esperando por direitos mínimos; vemos tribunais abarrotados tentando traduzir injustiças antigas em sentenças novas; vemos parlamentos discutindo privilégios enquanto a fome atravessa a praça em silêncio.
O cenário é sofisticado, com discursos polidos e relatórios de impacto social, mas o enredo continua o mesmo: muitos servem de plateia para poucos que contracenam no palco principal.
No noticiário, a coreografia da loucura se repete com leve variação de figurino: guerras que se justificam em nome da paz, destruição do ambiente em nome do progresso, cortes em educação em nome da responsabilidade fiscal.
A cada tragédia, uma hashtag, uma nota de pesar, um minuto de silêncio, seguido por horas de entretenimento para que tudo volte à normalidade. E é precisamente essa normalidade que deveria nos espantar. O manicômio é tão bem organizado que aprendemos a chamá-lo de rotina.
No plano íntimo, a demência assume formas mais discretas. Famílias que não se escutam, casais que se suportam por medo da solidão, amizades transformadas em networking. Nas redes sociais, exibimos versões editadas de nós mesmos: vidas filtradas, dores maquiadas, opiniões embaladas para consumo rápido.
Rimos sozinhos diante da tela, acumulamos “amigos” contáveis em algoritmos, e, ainda assim, a sensação de vazio nos visita na hora em que as notificações silenciam. Nesse instante, o choro inaugural, há muito esquecido, parece sussurrar: “Eu avisei.”
Quem ousa perceber esse descompasso é prontamente rotulado. Se questiona demais, é pessimista; se se indigna, é radical; se não se adapta a qualquer custo, é fraco. As lágrimas, que poderiam ser sinais de sensibilidade, viram sintomas a serem corrigidos. Inventamos pílulas para dormir, pílulas para acordar, pílulas para caber. Em nome da produtividade, medicamos a alma até que ela pare de incomodar.
O choro, que um dia foi protesto, vira efeito colateral.
Talvez por isso a frase de Shakespeare — ou de quem quer que tenha dado nome a esse sentimento — encontre tanto eco: nascemos chorando porque chegamos a um imenso cenário de dementes, um palco cheio de atores que esqueceram o próprio papel.
A demência aqui não é um diagnóstico clínico, mas uma metáfora daquilo que aceitamos sem perguntar: injustiças reiteradas, desigualdades naturalizadas, violências diárias convertidas em estatística. É um mundo que se acostumou tanto à própria brutalidade que passou a chamá-la de ordem.
Mas a verdade é que o choro não precisa ser sentença, pode ser semente. Há lágrimas que lavam, que desembaçam o olhar, que impedem a acomodação da alma. Chorar não é apenas sofrer; às vezes é perceber além da superfície, recusar o papel de figurante num roteiro alheio.
Quem chora diante das misérias do mundo ainda não foi totalmente capturado pela lógica do “é assim mesmo”. Um olho que se umedece diante da dor do outro é um olho que ainda não enlouqueceu.
Talvez devamos, então, reaprender a chorar — não só ao nascer, mas ao longo da vida.
Chorar quando a injustiça se disfarça de lei, quando o ódio se veste de patriotismo, quando a indiferença se apresenta como maturidade. Chorar não para nos rendermos, mas para nos lembrarmos de que ainda estamos vivos e, portanto, capazes de não compactuar. Entre o cinismo confortável e a lágrima incômoda, talvez a sanidade more justamente no desconforto.
No fim, o imenso cenário de dementes continua aí, iluminado por holofotes de propaganda e efeitos especiais de tecnologia. A loucura coletiva segue chamando a si mesma de normalidade, de meritocracia, de mercado, de “vida real”. Mas, em algum lugar, uma criança nasce e chora, inaugurando de novo a possibilidade de outro olhar sobre esse palco.
Talvez nossa tarefa seja honrar esse primeiro choro: não deixando que ele se perca na estatística dos nascimentos, mas permitindo que ecoe em nossas escolhas, nossos silêncios e nossas resistências.
Porque, se o mundo insiste em ser um grande teatro de loucos, a verdadeira lucidez pode estar em não atuar no automático — e em manter, dentro de nós, um lugar onde o choro ainda seja sinal de humanidade.