Justiça suspende terceirização das UPAs de Palmas e manda prefeitura retomar gestão em 15 dias
A Justiça do Tocantins suspendeu a terceirização da gestão das UPAs Norte e Sul de Palmas e determinou que a Prefeitura reassuma o comando direto das unidades no prazo de 15 dias. A decisão liminar foi assinada pela desembargadora Hélvia Túlia Sandes Pedreira, do Tribunal de Justiça do Tocantins (TJTO), e interrompe os efeitos do contrato firmado entre o município e a Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de Itatiba, entidade escolhida para administrar as duas unidades.
Além de suspender imediatamente a parceria, a magistrada determinou que a entidade contratada devolva, em até cinco dias, os valores já recebidos. Em caso de descumprimento, a decisão prevê multa pessoal que pode variar de R$ 20 mil a R$ 800 mil, segundo a publicação que repercutiu a liminar.
O que pesou na decisão
Embora o inteiro teor completo da decisão ainda não estivesse integralmente disponível em consulta pública nas buscas abertas, os elementos já expostos no processo e nos desdobramentos do caso apontam quatro fatores centrais que pesaram contra a terceirização:
- Dispensa de chamamento público
Um dos principais questionamentos é o uso de dispensa de chamamento para a escolha da entidade. O Ministério Público e a ação popular sustentam que esse formato pode ter comprometido a transparência e a competitividade do processo. - Suspeita de direcionamento na escolha da entidade
A contratação da Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de Itatiba também foi alvo de questionamentos sobre possível direcionamento, ponto levantado nos autos como risco ao interesse público. - Ausência de deliberação do Conselho Municipal de Saúde
Outro ponto sensível foi a falta de deliberação prévia do Conselho Municipal de Saúde, órgão que tem papel de controle social e participação na formulação de políticas públicas da área. Para os críticos do modelo, a ausência dessa etapa enfraqueceu a legitimidade da mudança. - Diferença de custo entre o modelo antigo e o novo contrato
O volume financeiro do novo modelo chamou atenção. O contrato previa repasse anual de R$ 139,1 milhões, com potencial de chegar a cerca de R$ 700 milhões em cinco anos, segundo informações levadas ao processo. Esse montante foi comparado a gastos anteriores com serviços médicos terceirizados nas unidades, que, em 2024, teriam somado R$ 16,8 milhões, alimentando a tese de desproporcionalidade e possível sobrecusto.
Esse foi, inclusive, um dos pontos mais explorados no debate público. Ao reagir à decisão, o prefeito Eduardo Siqueira Campos contestou a tese de superfaturamento e rebateu a leitura de que haveria aumento “explosivo” de custos. Em entrevista à Gazeta do Cerrado, ele afirmou: “Falam em aumento de 800%, mas 800% em cima de quê?”, argumentando que o novo modelo agregou serviços como ortopedia, pediatria, informatização, reestruturação física e novos equipamentos.
O que muda para pacientes
Na prática, a decisão não determina o fechamento das UPAs, mas obriga a prefeitura a reorganizar rapidamente a gestão para que o atendimento continue sob administração direta do município.
Para o paciente, o risco maior não é a suspensão em si, mas a transição. O desafio agora é garantir que não haja descontinuidade de plantões, falta de profissionais, ruptura em contratos de insumos e instabilidade em escalas médicas durante o período de readaptação.
Esse é o ponto mais delicado do caso: a Justiça barrou o modelo, mas o município terá de provar que consegue reassumir a operação sem comprometer a urgência e a emergência, justamente o coração das UPAs.
O que muda para os servidores
A decisão também reaqueceu a disputa sobre o destino dos servidores que atuavam nas unidades. A prefeitura sustentou que parte dos profissionais já teria migrado para outros pontos da rede, o que tornaria o retorno mais complexo. Mas o Sindicato dos Servidores Públicos Municipais de Palmas (Sisemp) contestou essa versão e afirmou que a remoção foi compulsória, não voluntária.
Segundo o sindicato, os trabalhadores foram deslocados por meio de Edital de Movimentação Funcional Obrigatória, sem escolha real e sem negociação institucional. A entidade sustenta que os servidores seguem aptos a retornar às UPAs e que muitos têm experiência específica em urgência e emergência.
Esse ponto é decisivo porque derruba um dos argumentos usados pela gestão para sustentar a dificuldade de cumprimento imediato da ordem judicial.
Prefeitura deve recorrer
A Prefeitura de Palmas já sinalizou que pretende recorrer da decisão. O prefeito Eduardo Siqueira Campos afirmou que considera o prazo curto e sustenta que a população já percebeu melhora no atendimento desde a adoção da gestão compartilhada. Em reação pública, ele defendeu que o novo modelo ampliou a resolutividade das unidades e trouxe especialidades antes inexistentes nas UPAs.
Antes da liminar, a própria gestão vinha defendendo que a parceria com a entidade filantrópica era uma estratégia para enfrentar escalas incompletas, falta de profissionais, desabastecimento de insumos e baixa capacidade de respostanas unidades. A prefeitura também dizia que o contrato seria acompanhado por metas e indicadores de desempenho.
Por que essa decisão é politicamente pesada
A suspensão vai além da saúde e entra direto no campo político. A terceirização das UPAs era uma das apostas da nova gestão para mostrar resposta rápida em um serviço de alta visibilidade e desgaste histórico. Ao barrar o contrato, a Justiça atinge uma vitrine administrativa do município e abre uma frente de pressão simultânea sobre gestão, servidores, oposição, Ministério Público e controle social da saúde.
Também expõe um ponto recorrente no debate brasileiro sobre saúde pública: o conflito entre