OMS entra em alerta após avanço do hantavírus e casos monitorados no Brasil

Chefe da OMS desembarca em área isolada, remédios são lançados por paraquedistas e autoridades monitoram risco de disseminação internacional
A confirmação de novos casos de hantavírus ligados ao surto registrado em um cruzeiro internacional colocou autoridades sanitárias em estado de atenção máxima neste domingo (11). O episódio mobilizou a Organização Mundial da Saúde, que enviou representantes às áreas isoladas onde passageiros seguem em quarentena e medicamentos passaram a ser entregues por paraquedistas em regiões de difícil acesso.
O temor internacional não ocorre apenas pela velocidade da deterioração clínica dos pacientes, mas principalmente pela identificação da cepa Andes, considerada a única variante conhecida do hantavírus com possibilidade documentada de transmissão entre humanos.
Segundo atualização divulgada pela OMS nesta segunda-feira, ao menos nove casos relacionados ao surto já foram reportados oficialmente, incluindo sete confirmações laboratoriais. Três mortes já foram registradas.
O cenário gerou preocupação porque surtos anteriores de hantavírus costumavam estar associados exclusivamente ao contato com fezes, saliva ou urina de roedores silvestres. Desta vez, cientistas investigam a possibilidade de transmissão interpessoal em ambiente fechado e prolongado, como ocorreu no navio.
No Brasil, o Ministério da Saúde confirmou monitoramento reforçado após registros recentes em estados como Minas Gerais e Paraná. Em Minas Gerais, um homem de 46 anos morreu após contato com roedores silvestres em uma lavoura.
O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, afirmou que os casos brasileiros não possuem relação com a cepa andina identificada no cruzeiro internacional. Segundo ele, o Brasil registra historicamente entre 38 e 45 casos anuais de hantavirose, mas nunca identificou circulação sustentada da variante Andes em território nacional.
Ainda assim, especialistas avaliam que o alerta internacional não deve ser ignorado.
O infectologista Alberto Chebabo, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, afirmou à imprensa que a preocupação global ocorre porque a cepa andina apresenta comportamento epidemiológico diferente das variantes tradicionais do vírus.
Dados do Centers for Disease Control and Prevention mostram que a síndrome pulmonar por hantavírus pode alcançar taxas de letalidade superiores a 35% em alguns surtos registrados nas Américas.
A hantavirose é considerada uma zoonose viral aguda. Nas Américas, a doença costuma evoluir para a chamada Síndrome Cardiopulmonar por Hantavírus, quadro que pode provocar insuficiência respiratória severa em poucos dias.
Os sintomas iniciais incluem febre, dores musculares, dor lombar, fadiga, náusea e tosse seca. Em casos graves, o paciente pode desenvolver edema pulmonar, queda brusca de pressão arterial e falência respiratória.
O avanço da doença reacendeu discussões sobre a capacidade global de resposta após a pandemia de Covid-19. Epidemiologistas lembram que surtos localizados podem ganhar dimensão internacional em razão da hiperconectividade aérea e marítima.
O caso do cruzeiro internacional chamou atenção justamente porque envolveu passageiros de múltiplos países confinados por vários dias em ambiente fechado, condição considerada favorável para investigação de eventual transmissão entre humanos.
Apesar do alerta, a própria OMS afirma que, até o momento, não há evidências de risco iminente de pandemia global. O órgão avalia que o atual episódio permanece restrito e sob monitoramento epidemiológico internacional.
Ainda assim, governos passaram a reforçar protocolos de vigilância sanitária, especialmente em regiões rurais e áreas com presença de roedores silvestres.
No Brasil, o hantavírus já provocou episódios de preocupação sanitária anteriormente, especialmente em estados do Centro-Oeste, Sul e Sudeste. O Ministério da Saúde recomenda atenção redobrada em atividades agrícolas, galpões fechados e locais com acúmulo de fezes de roedores.
Especialistas destacam que o principal fator que diferencia o atual episódio é o contexto internacional e a mobilização inédita da OMS no local do surto, algo que remete às respostas emergenciais observadas em crises sanitárias recentes.
A corrida agora ocorre para entender se o episódio representa apenas um surto localizado ou um sinal de mudança no comportamento epidemiológico do vírus.