Justiça suspende pesquisa eleitoral em Palmas após ação do PSDB-TO
A Justiça Eleitoral do Tocantins suspendeu a divulgação de uma pesquisa de intenção de voto registrada para Palmas após identificar inconsistências no cronograma do levantamento e falhas relacionadas à metodologia apresentada pelo instituto responsável.
A decisão foi assinada pela juíza Carolynne Souza de Macêdo Oliveira, do Tribunal Regional Eleitoral do Tocantins (TRE-TO), e atendeu a uma representação movida pela Federação PSDB/Cidadania contra o instituto Lucro Ativo Ltda.
O levantamento, registrado sob o número TO-09810/2026, tinha divulgação prevista para este domingo (10).
Segundo os autos do processo nº 0600061-39.2026.6.27.0000, a ação questionou dois pontos centrais:
- inconsistência cronológica nas datas do levantamento;
- ausência de detalhamento adequado da fonte de dados usada na composição da amostra.
Cronograma previa divulgação antes do fim da coleta
Na decisão, a magistrada destacou que o cronograma apresentado pelo instituto previa início da coleta em 5 de maio e encerramento em 11 de maio, mas a divulgação dos resultados estava marcada para 10 de maio — um dia antes da conclusão oficial da pesquisa.
Para a juíza, o cenário apresentou incompatibilidade lógica entre as etapas do levantamento.
“Fato que denota a existência de incoerência lógica intransponível nas etapas da pesquisa”, escreveu Carolynne Souza de Macêdo Oliveira na decisão.
A magistrada também apontou problemas relacionados à identificação das bases utilizadas para definição do plano amostral.
Justiça questiona uso genérico de dados do IBGE
Segundo a decisão, o instituto informou apenas “dados do IBGE” como referência estatística utilizada na estratificação socioeconômica da pesquisa.
A representação apresentada pela Federação PSDB/Cidadania argumentou que a ausência de detalhamento inviabilizaria a verificação técnica da proporcionalidade da amostra utilizada no levantamento.
O processo também cita discrepância superior a 15 pontos percentuais entre os números apresentados pelo instituto e dados oficiais do Censo 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Na decisão, a magistrada afirmou que a falta de clareza compromete a possibilidade de fiscalização da metodologia.
“A falta de clareza ou a indicação genérica da fonte de dados impossibilita a averiguação da proporcionalidade amostral, proscrevendo, por via de consequência, a divulgação da pesquisa impugnada”, fundamentou.
Multa diária foi fixada em caso de descumprimento
Ao conceder a tutela de urgência, a juíza determinou a suspensão imediata da divulgação da pesquisa e fixou multa diária de R$ 5 mil em caso de descumprimento da decisão, limitada ao teto de R$ 20 mil.
O instituto Lucro Ativo Ltda foi citado para apresentar defesa no prazo de dois dias.
Instituto já teve outros levantamentos questionados neste ano
A suspensão da pesquisa TO-09810/2026 não é um caso isolado envolvendo o instituto Lucro Ativo Ltda neste ciclo eleitoral.
Levantamentos anteriores realizados pela empresa também foram alvo de ações judiciais e decisões liminares da Justiça Eleitoral do Tocantins.
Pesquisa TO-02251/2026
Em fevereiro, uma pesquisa registrada sob o número TO-02251/2026 foi suspensa após questionamentos relacionados a irregularidades documentais e inconsistências no registro.
Posteriormente, a liminar acabou parcialmente revertida, permitindo a divulgação do levantamento com ressalvas e nota explicativa relacionada à identificação partidária do vice-governador Laurez Moreira.
Pesquisa TO-07413/2026
Já em abril, outro levantamento do instituto foi suspenso pela mesma magistrada após nova representação apresentada pelo PSDB.
Na ocasião, a decisão apontou:
- inconsistências metodológicas;
- divergências no plano amostral;
- ausência de documentação obrigatória.
Segundo os autos, o instituto recebeu multa de R$ 53,2 mil.
Judicialização de pesquisas aumenta nos bastidores eleitorais
Nos bastidores políticos do Tocantins, interlocutores avaliam que a judicialização envolvendo pesquisas eleitorais deve aumentar gradualmente à medida que o cenário de 2026 começa a ganhar definição.
Analistas apontam que levantamentos de intenção de voto passaram a ter peso ainda maior nas estratégias de construção política, articulação partidária e formação de alianças estaduais.
A cientista política Simone Alencar, especialista em comportamento eleitoral e legislação política, afirma que o rigor técnico das pesquisas se tornou tema central nas disputas eleitorais contemporâneas.
“As pesquisas deixaram de ser apenas instrumentos de medição eleitoral. Hoje elas também influenciam percepção política, formação de alianças e movimentação de grupos partidários”, afirma.
Segundo ela, o aumento da judicialização acompanha justamente o crescimento da importância política dos levantamentos.
“Quanto maior o impacto político de uma pesquisa, maior tende a ser também o nível de questionamento jurídico e metodológico sobre ela”, explica.