PORTELINHANDO CRÔNICAS: O Banquete dos Aliados

PORTELINHANDO CRÔNICAS: O Banquete dos Aliados
João PortelinhaPor João Portelinha 18 de maio de 2026 0

Na política, a lealdade quase sempre tem prazo de validade. Às vezes, dura uma campanha. Em outras, resiste até a primeira pesquisa ruim. Mas, na maioria das vezes, ela permanece firme apenas enquanto a música toca, os aplausos ecoam e o poder ainda oferece cadeira à mesa.

É no banquete dos aliados que a política mostra seu lado mais humano — e também o mais frio.

Enquanto há vitória, todos se aproximam. Fazem questão da foto, do abraço, da legenda, da presença no palanque. O sorriso é largo, a mão no ombro é firme e a palavra “companheiro” ganha ares de promessa eterna. Mas basta o primeiro tropeço para que o salão mude de temperatura.

Uma frase mal colocada.
Um áudio vazado.
Um silêncio interpretado como culpa.
Um gesto fora do roteiro.

Pronto. O abraço de ontem vira distância calculada. O aliado que antes dividia o palanque passa a observar de longe. Alguns, mais rápidos, trocam a roupa de parceiro pela toga imaginária de juiz moral da República.

Foi assim no episódio envolvendo Flávio Bolsonaro.

O áudio caiu no chão da política brasileira como um copo de cristal quebrado em jantar de família poderosa. O estrondo não está apenas na queda. Está, sobretudo, na velocidade com que alguns convidados fingem não conhecer o dono da taça.

E então apareceu Romeu Zema.

Sem rodeios, sem cerimônia e sem escolher palavras suaves, classificou o episódio como um “tapa na cara dos brasileiros de bem”. A frase veio afiada. Dura. Cirúrgica. Dessas que parecem carregar indignação, mas também leitura de cenário.

Porque política também é isso: a arte de perceber quando o navio começa a inclinar e decidir, antes dos demais, em qual lado do convés vale a pena permanecer.

Os antigos parceiros, quando percebem desgaste, costumam se transformar nos juízes mais severos. Talvez porque conheçam os corredores internos do poder. Talvez porque saibam onde a ferrugem começou. Talvez porque tenham sentido o cheiro do incêndio antes mesmo da fumaça alcançar a opinião pública.

No fundo, a cena revela uma velha verdade da política brasileira: em tempos de força, muitos querem se sentar à mesa; em tempos de crise, começa o festival dos talheres abandonados.

O curioso é que os aplausos e as pedradas, muitas vezes, vêm das mesmas mãos.

A política segue, não como templo de convicções eternas, mas como arena de conveniências bem vestidas. Um lugar onde fidelidade pode ser discurso, distância pode ser estratégia e indignação, algumas vezes, pode ser apenas o nome elegante do reposicionamento.

No banquete dos aliados, ninguém deixa a mesa por acaso.

Alguns saem por princípios.
Outros, por cálculo.
E há aqueles que só se levantam quando percebem que a sobremesa já não será servida.

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