Deolane é presa em operação contra suposto esquema ligado à família de Marcola; caso acende alerta no Tocantins

Influenciadora é investigada por suspeita de lavagem de dinheiro; operação mira movimentações financeiras, empresas e patrimônio supostamente usados para ocultar recursos de facção criminosa
A prisão da influenciadora e advogada Deolane Bezerra, nesta quinta-feira, 21, em São Paulo, voltou a colocar no centro do debate nacional a ligação entre fama, movimentações financeiras suspeitas, lavagem de dinheiro e o avanço de organizações criminosas para dentro de atividades aparentemente legais.
A operação do Ministério Público de São Paulo e da Polícia Civil mira um suposto esquema de lavagem de dinheiro ligado ao Primeiro Comando da Capital, o PCC. Além de Deolane, a ação também tem como alvos Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, apontado pelas autoridades como principal líder da facção, familiares dele e operadores financeiros suspeitos de movimentar recursos do grupo criminoso.
Entre os nomes citados na investigação estão Alejandro Camacho, irmão de Marcola, Paloma Sanches Herbas Camacho e Leonardo Alexsander Ribeiro Herbas Camacho, apontados como familiares do líder da facção. Também aparece Everton de Souza, conhecido como “Player”, apontado como operador financeiro do grupo.
A investigação apura se empresas, terceiros e contas bancárias foram usados para ocultar a origem de dinheiro ligado ao crime organizado. No caso de Deolane, os investigadores apontam movimentações financeiras suspeitas, depósitos fracionados e valores que teriam circulado sem comprovação formal compatível.
Apesar da gravidade das suspeitas, todos os investigados têm direito à defesa, ao contraditório e à presunção de inocência. Prisão preventiva e investigação não significam condenação.
O caso também chama atenção do Tocantins porque o Estado já apareceu em investigações nacionais relacionadas à atuação de organizações criminosas e lavagem de dinheiro. Em novembro de 2025, a Operação Carbono Oculto 86 apurou a infiltração do PCC no setor de combustíveis e interditou 49 postos no Piauí, Maranhão e Tocantins. No Tocantins, a investigação citou São Miguel do Tocantins entre os municípios alcançados pela ação.
Segundo as apurações da operação, o esquema usava empresas de fachada, fundos de investimento e fintechs para lavar dinheiro, fraudar o mercado de combustíveis e ocultar patrimônio. O caso mostrou que o crime organizado não atua apenas em grandes capitais e pode usar negócios aparentemente comuns para movimentar valores de origem ilícita.
O Tocantins também já foi alvo de operações da Força Integrada de Combate ao Crime Organizado no Tocantins, a FICCO/TO, formada por Polícia Federal, Polícia Civil, Polícia Militar e Polícia Penal. Em abril de 2025, a Operação Criminalis Littera apurou uma organização criminosa que, segundo a Polícia Federal, planejava ataques contra autoridades públicas, juízes, promotores, delegados e policiais penais, além de uma possível fuga em massa por meio de rebelião com reféns.
Em abril de 2026, a FICCO/TO voltou a deflagrar operação em Palmas para apurar a infiltração de organização criminosa no sistema de Justiça. A Operação Prerrogativa de Fachada mirou um investigado apontado como articulador estratégico de grupo criminoso, suspeito de usar identidade profissional de advogado fraudulenta para transitar e operar a logística do narcotráfico.
Outro caso relevante no Tocantins ocorreu ainda em 2020, quando a Polícia Civil e o Ministério Público, por meio da Denarc e do Gaeco, deflagraram a Operação Feynman. A ação cumpriu mandados no Tocantins e em São Paulo, bloqueou contas bancárias e investigou lavagem de dinheiro oriunda do tráfico interestadual de drogas. Na época, foram apontadas remessas de entorpecentes de São Paulo para o Tocantins e movimentações financeiras que chegavam à casa dos milhões.
Esses episódios mostram que o Tocantins não está fora da rota de atenção das autoridades. O Estado, por sua posição geográfica, crescimento econômico, expansão de negócios, circulação de cargas, setor de combustíveis, eventos, publicidade, imóveis e serviços, exige acompanhamento constante dos órgãos de controle.
A prisão de Deolane, pela repercussão nacional, chama atenção pelo nome famoso envolvido. Mas o centro da investigação é mais amplo: seguir o caminho do dinheiro. A pergunta das autoridades é saber de onde vieram os recursos, quem movimentou, quem recebeu, quem emprestou nome, quem ocultou patrimônio e quem se beneficiou.
No Tocantins, o alerta serve para empresários, influenciadores, agentes públicos, comunicadores, contadores, advogados, donos de postos, organizadores de eventos e prestadores de serviço. O crime organizado costuma buscar ambientes onde possa misturar dinheiro ilegal com atividades regulares. Por isso, contratos, patrocínios, pagamentos, publicidade, compra de veículos, imóveis e movimentações bancárias precisam ter origem comprovada.
A atuação das facções mudou. Hoje, o enfrentamento não se limita às ruas ou aos presídios. Passa também por empresas, contas digitais, fundos, fintechs, laranjas, contratos e negócios usados para disfarçar dinheiro ilícito.
O caso Deolane, somado às operações que já alcançaram o Tocantins, reforça uma mensagem direta: fama, influência, empresa aberta ou atividade aparentemente legal não blindam ninguém de investigação. O combate ao crime organizado passa cada vez mais pela inteligência financeira, pelo bloqueio de bens e pela identificação de estruturas usadas para lavar dinheiro.
Créditos: G1
Para o Tocantins, o episódio serve como alerta institucional. O Estado precisa crescer com segurança, transparência e fiscalização. Onde há desenvolvimento, também deve haver controle. Onde há dinheiro circulando, também deve haver responsabilidade sobre sua origem.