Da abóbora ao quiabo: inflação silenciosa transforma feira em desafio diário para famílias tocantinenses
O brasileiro percebe a inflação antes mesmo dos índices oficiais. Ela aparece no carrinho de compras, na feira do bairro e no susto diante das gôndolas dos supermercados. Em Tocantins, produtos básicos da alimentação cotidiana, como abóbora, quiabo, beterraba, melão e feijão, acumulam variações que começam a alterar hábitos de consumo e pressionam principalmente famílias de baixa renda.
Levantamento realizado com base em dados das Centrais de Abastecimento (Ceasas), cotações regionais e valores praticados em supermercados de Palmas, Araguaína, Gurupi e Colinas mostra diferenças que chegam a ultrapassar 100% entre o atacado e o varejo em alguns itens.
Na Ceasa, a abóbora cabotiá apresentou média entre R$ 2,80 e R$ 4,50 o quilo em diferentes regiões do país. Já em supermercados tocantinenses, o produto foi encontrado entre R$ 6,99 e R$ 9,50. O quiabo, um dos alimentos mais sensíveis às alterações climáticas e ao custo do transporte, chegou a superar R$ 18 o quilo em redes varejistas, enquanto no atacado variava entre R$ 7 e R$ 10.
O melão também registrou alta em razão da entressafra e do custo logístico. Em algumas cidades, a fruta foi comercializada acima de R$ 11 a unidade. A beterraba apresentou oscilações provocadas pelo excesso de chuvas em polos produtores do Sudeste, fator que reduziu a oferta e pressionou o abastecimento nacional.
Já o feijão, um dos principais itens da alimentação brasileira, continua entre os produtos mais afetados pela combinação entre clima irregular, custo do diesel e instabilidade agrícola. Em supermercados de Palmas, pacotes de um quilo chegaram próximos de R$ 10 dependendo da marca e da variedade.
Segundo dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), o comportamento dos preços de hortaliças e frutas sofreu impacto direto das mudanças climáticas registradas nos últimos meses. Ondas de calor, excesso de chuva em algumas regiões e dificuldades logísticas alteraram o ritmo da produção agrícola em diversos estados.
Especialistas do setor apontam que o consumidor percebe primeiro os alimentos frescos porque são produtos extremamente sensíveis ao clima, ao transporte e ao tempo de armazenamento. Diferentemente de itens industrializados, frutas, verduras e legumes respondem quase imediatamente às oscilações da produção.
Nas feiras e mercados populares, comerciantes relatam mudança no comportamento dos clientes. Muitos consumidores passaram a substituir produtos, reduzir quantidades ou procurar alimentos da estação para tentar equilibrar o orçamento doméstico.
A inflação dos alimentos também expõe um problema estrutural: embora o Brasil seja uma potência agrícola global, parte significativa da população enfrenta dificuldade crescente para manter uma alimentação variada e saudável. O peso da comida no orçamento das famílias mais pobres continua sendo um dos principais termômetros da economia real.
Enquanto indicadores macroeconômicos discutem juros, crescimento e mercado financeiro, a inflação cotidiana segue sendo medida no preço do feijão, da abóbora e do quiabo colocados na mesa do brasileiro.