Brasil entra pela primeira vez no grupo de “muito alto desenvolvimento”, mas desigualdade ainda define o país real

Brasil entra pela primeira vez no grupo de “muito alto desenvolvimento”, mas desigualdade ainda define o país real
Fernanda CappellessoPor Fernanda Cappellesso 27 de maio de 2026 1
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O Brasil alcançou, pela primeira vez na história, o patamar de “muito alto desenvolvimento humano”. O dado foi divulgado nesta terça-feira (26) pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), dentro do relatório Radar IDHM 2024. O país atingiu índice de 0,805 no Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM), superando a marca de 0,744 registrada em 2012.

Na prática, o indicador coloca o Brasil acima da linha considerada de desenvolvimento humano “muito alto”, reservada a países e territórios com índice superior a 0,800. O resultado representa um marco histórico para um país que durante décadas conviveu com crescimento econômico acompanhado de profundas desigualdades sociais.

O levantamento considera três pilares centrais: renda, educação e longevidade. Segundo o Pnud, o avanço brasileiro foi impulsionado principalmente pela melhora educacional, expansão de políticas sociais e aumento da renda média nos últimos anos.

Mas o próprio relatório revela o principal paradoxo brasileiro: o país melhora nos indicadores gerais enquanto mantém abismos sociais que continuam separando ricos e pobres em diferentes regiões do território nacional.

Os recortes por raça, gênero e território mostram que o desenvolvimento não ocorre de maneira uniforme. Embora a população negra tenha apresentado crescimento proporcional maior no período analisado, os indicadores continuam inferiores aos da população branca em praticamente todos os critérios avaliados.

A desigualdade regional também permanece evidente. Enquanto capitais e grandes centros urbanos avançam em renda, escolaridade e expectativa de vida, municípios do Norte e Nordeste ainda enfrentam dificuldades estruturais ligadas a saneamento, acesso à saúde, evasão escolar e renda per capita.

No Tocantins, o avanço do IDHM acompanha um movimento gradual de crescimento econômico impulsionado pelo agronegócio, expansão urbana e aumento do acesso à educação básica nas últimas décadas. Palmas continua entre os municípios com melhores indicadores do estado, puxada principalmente pela renda média e escolaridade. Araguaína e Gurupi também aparecem em posição de destaque regional devido ao crescimento econômico e à expansão de serviços.

Especialistas ouvidos pela reportagem afirmam, porém, que crescimento do IDH não significa automaticamente melhoria proporcional na qualidade de vida cotidiana da população.

“O IDH é uma fotografia importante do desenvolvimento estrutural do país, mas ele não consegue medir integralmente desigualdade social, insegurança alimentar, violência urbana e precarização do trabalho”, afirma a economista e pesquisadora em desenvolvimento regional Helena Duarte.

Segundo ela, o Brasil vive um fenômeno contraditório: melhora estatística em indicadores macroestruturais enquanto parte da população continua convivendo com dificuldade de acesso a moradia digna, saúde especializada e mobilidade social.

“O país melhora em média, mas continua extremamente desigual na distribuição das oportunidades. O CEP ainda define expectativa de vida, renda e acesso à educação no Brasil”, afirma.

Para o sociólogo Ricardo Mendes, especialista em desigualdade social, o avanço do IDHM revela também uma mudança silenciosa na estrutura brasileira das últimas décadas.

“O Brasil conseguiu ampliar acesso à escola, programas de transferência de renda e expectativa de vida. Isso produz efeito direto no índice. Mas a desigualdade brasileira deixou de ser apenas econômica e passou a ser territorial, digital e educacional”, avalia.

Dados do Atlas do Desenvolvimento Humano mostram que municípios brasileiros ainda convivem com realidades extremamente distintas dentro do mesmo país. Enquanto cidades com alto dinamismo econômico se aproximam de padrões internacionais de qualidade de vida, outras regiões enfrentam déficits históricos de infraestrutura e renda.

O avanço brasileiro também ocorre em meio a uma disputa internacional por produtividade, inovação e capital humano. Em um cenário global marcado por inteligência artificial, envelhecimento populacional e transformação tecnológica acelerada, especialistas afirmam que educação de qualidade e redução das desigualdades serão decisivas para determinar quais países conseguirão sustentar crescimento nas próximas décadas.

Para além da celebração estatística, o novo IDHM reacende um debate antigo: até que ponto crescimento econômico e melhora de indicadores conseguem, de fato, transformar a vida real da população.

Porque, no Brasil, o desenvolvimento continua avançando em velocidades diferentes dependendo da cidade, da renda, da cor da pele e do endereço onde cada brasileiro nasceu.

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