Tarifas de Trump e ofensiva contra PCC podem fortalecer Lula e criar desgaste para bolsonarismo

Tarifas de Trump e ofensiva contra PCC podem fortalecer Lula e criar desgaste para bolsonarismo
Especialistas avaliam que medidas defendidas por aliados de Bolsonaro nos Estados Unidos podem produzir efeito político inverso ao esperado ao reforçar a narrativa de soberania nacional explorada pelo governo federal
Fernanda CappellessoPor Fernanda Cappellesso 3 de junho de 2026 0

As novas tensões entre Brasil e Estados Unidos abriram uma disputa que vai além da economia e da segurança pública. A proposta de tarifas adicionais sobre produtos brasileiros e a pressão para que facções como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) sejam enquadradas como organizações terroristas pelo governo norte-americano passaram a alimentar um debate político que pode produzir consequências inesperadas para o bolsonarismo.

Embora as iniciativas sejam vistas por setores da oposição como uma forma de pressionar o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), cientistas políticos avaliam que o efeito pode ser exatamente o contrário. A razão está na crescente associação entre essas medidas e a percepção de interferência externa em temas considerados estratégicos para o Brasil.

Nas últimas semanas, Lula intensificou um discurso baseado na defesa da soberania nacional. O presidente passou a associar temas como o Sistema Único de Saúde (SUS), o Pix, a política industrial, a autonomia diplomática e a ampliação de mercados internacionais à capacidade do país de formular soluções próprias para seus desafios.

Nesse contexto, qualquer medida vinda de Washington tende a ser incorporada à narrativa construída pelo Palácio do Planalto.

O efeito da soberania

Para o cientista político e especialista em semiótica André Luiz Penaforte, existe um risco político relevante para os setores que apostam no endurecimento da posição norte-americana contra o Brasil.

“Quando uma pressão externa passa a ser percebida como uma ação contra interesses nacionais, o debate deixa de ser apenas partidário. O foco se desloca para a defesa da soberania. Historicamente, esse tipo de cenário costuma beneficiar quem ocupa a Presidência da República”, afirma.

Segundo o especialista, a proposta de novas tarifas possui potencial de ampliar esse efeito porque afeta diretamente setores econômicos relevantes para o país.

“Quando exportações, empregos, empresas e produtores entram na discussão, a narrativa deixa de ser apenas política. Ela passa a envolver interesses econômicos nacionais, e isso amplia o alcance do discurso de soberania”, avalia.

A preocupação ganhou força após a divulgação da proposta de tarifa adicional de 25% sobre determinados produtos brasileiros. Embora itens estratégicos como carne bovina, café, aeronaves, energia e minerais críticos tenham ficado fora da lista inicial, o movimento foi interpretado pelo governo brasileiro como um sinal de endurecimento das relações bilaterais.

PCC, Comando Vermelho e o debate institucional

O mesmo raciocínio se aplica à discussão sobre o enquadramento do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas.

Embora haja consenso sobre a necessidade de combate ao crime organizado, especialistas observam que a classificação envolve implicações jurídicas e diplomáticas complexas. O debate passa por temas como soberania, cooperação internacional e os limites da atuação de governos estrangeiros em assuntos tradicionalmente conduzidos pelas instituições brasileiras.

“Ninguém discute a gravidade das facções. A questão é que, quando a solução passa a ser apresentada a partir de uma pressão externa, abre-se espaço para uma reação nacionalista. Isso permite que o governo se apresente como defensor das instituições brasileiras”, afirma Penaforte.

Na avaliação do especialista, o resultado pode representar um paradoxo político. Medidas concebidas para aumentar o desgaste do governo acabam fornecendo elementos para que Lula fortaleça uma narrativa baseada na defesa da autonomia nacional.

 

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