Portelinhando Crônicas: “Não é um bezerro de ouro”
Dizem que não é um bezerro de ouro.
É apenas um presidente erguido em metal amarelo, punho cerrado, um milagre polido em 24 quilates contra balas e derrotas eleitorais.
Ao redor, pastores levantam as mãos, fecham os olhos, aspergem palavras em nome de Deus sobre o pedestal do Trump National Doral. Juram que ali não há culto, apenas honra. Mas a oração corre pelas veias da estátua como se o ouro fosse carne e a liga metálica pudesse, enfim, salvar a América.
Entre slogans — resiliência, liberdade, patriotismo, força — e o silêncio dos profetas antigos, algo range. É o som de páginas finas sendo viradas às pressas, de escrituras remendadas para caber nos interesses do presente.
Recitam-se máximas religiosos como mantras políticos; invoquem‑se versos sagrados e sejam dobradas as escrituras à maneira de quem dobra uma bandeira ao vento.
Não é bezerro, repetem, talvez para convencer primeiro a si mesmos. E, enquanto negam, desenha‑se uma linha tênue que separa devoção de vaidade.
Nas margens do texto sagrado, uma nota de rodapé pisca: a idolatria não começa quando o ídolo é declarado, mas quando já não se distingue quem é o Deus e quem é o dourado.
O verdadeiro altar pode não estar no gramado da Flórida, mas no coração de quem troca o Cordeiro por um colosso de terno e gravata. Não é só a estátua — é o gesto de transferir fé, esperança e perdão para uma imagem brilhante e inabalável. É a promessa de proteção transformada em talismã; a política transformada em liturgia.
O deserto, que antes era metáfora de ausência e provação, hoje tem wi‑fi, iluminação cênica e cobertura em tempo real. Há transmissão ao vivo para um público que ora via streaming e assiste, no feed, as bênçãos serem distribuídas em slots patrocinados.
Só o velho mandamento permanece escrito à mão, à margem da festa: “Não terás outros deuses diante de mim.” A escrita é a mesma; o risco, talvez, seja maior, porque agora a imagem tem alcance global.
Pior do que a presença do ídolo é a complacência que o sustenta. Idolatria não é apenas adorar uma figura; é naturalizar que o poder responda a rituais e promessas, e não a instituições e regras.
É transformar a crítica em heresia e o dissenso em traição, enquanto se transforma um homem em símbolo invulnerável.
Há, porém, uma ironia crua: todo ídolo pede proteção, e todo protetor teme a queda. A estátua reluz, mas sua sombra evidencia fissuras.
A história registra inúmeros colossos que, por maiores que fossem, acabaram por tombar. A fé, quando colocada em ouro, não se torna indestrutível — apenas mais cara quando quebra.
Assim, o debate devia voltar ao essencial: quem são os salvadores que elegemos e por que depositamos neles confiança quase religiosa? Queremos líderes que inspirem, ou líderes que ocupem o lugar do sagrado? É possível separar o carinho patriótico da veneração cega? Essas perguntas deveriam constar em qualquer sermão cívico.
Se a política é, em boa medida, uma prática de convivência, então a cidadania exige discernimento — a capacidade de olhar para imagens que seduzem e perguntar: “Isso me serve a mim, ou serve ao espetáculo?” A resposta determinará se, na praça pública, continuaremos erguendo estátuas ou reconstruindo instituições.