Fujimori x Sánchez: eleição presidencial no Peru tem disputa acirrada, ruas em tensão e resultado pode demorar

Fujimori x Sánchez: eleição presidencial no Peru tem disputa acirrada, ruas em tensão e resultado pode demorar
Crédito: Divulgação
Ricardo Fernandes AlmeidaPor Ricardo Fernandes Almeida 9 de junho de 2026 0

A eleição presidencial no Peru entrou em clima de suspense, tensão política e disputa voto a voto entre Keiko Fujimori, da direita, e Roberto Sánchez, da esquerda nacionalista. A segunda volta, realizada no domingo, 7 de junho de 2026, deixou o país sem vencedor definido nas primeiras horas de apuração e reacendeu o histórico de instabilidade política que marca a nação sul-americana nos últimos anos.

Com a apuração avançando lentamente, Roberto Sánchez passou a aparecer numericamente à frente de Keiko Fujimori, mas por uma margem considerada extremamente apertada. Segundo atualização da Oficina Nacional de Processos Electorales, a ONPE, divulgada na madrugada desta terça-feira, 9 de junho, com 95,685% das atas contabilizadas, Sánchez somava 8.901.069 votos, o equivalente a 50,074% dos votos válidos. Keiko Fujimori aparecia com 8.874.597 votos, ou 49,926%.

A diferença entre os dois era de apenas 26.472 votos. O número mostra o tamanho da disputa e explica por que o Peru ainda não tem um presidente eleito proclamado oficialmente. A distância é pequena em um universo de milhões de votos e pode ser impactada por atas pendentes, votos vindos do exterior, impugnações e revisões do processo eleitoral.

A ONPE informou que ainda havia 2.474 atas pendentes e 1.529 atas para envio ao Jurado Electoral Especial, o JEE. Na prática, isso significa que o resultado ainda pode sofrer alterações antes da proclamação final. O órgão eleitoral peruano pediu que partidos, candidatos e eleitores aguardem a conclusão de 100% do processamento das atas.

A disputa começou com Keiko Fujimori à frente nas primeiras parciais. A candidata do Fuerza Popular teve desempenho mais forte em Lima, em áreas urbanas e em setores do eleitorado mais conservador. No entanto, à medida que votos de regiões rurais, andinas e do interior passaram a ser contabilizados, Roberto Sánchez cresceu e virou a corrida.

Essa virada aprofundou a tensão política. De um lado, apoiadores de Fujimori defendem que votos do exterior e atas ainda não processadas podem reduzir a vantagem de Sánchez. De outro, aliados do candidato de esquerda afirmam que o avanço no interior confirma a força de sua campanha entre agricultores, comunidades indígenas, trabalhadores rurais e eleitores descontentes com a elite política de Lima.

Nas ruas, o sentimento foi de incerteza. Em Lima, o movimento nos locais de votação foi considerado menor do que em pleitos anteriores, mesmo com voto obrigatório para peruanos entre 18 e 70 anos. Em muitos centros de votação, houve menos filas do que o esperado. O clima nas ruas misturou cansaço, desconfiança e preocupação com o futuro do país.

A eleição também foi marcada por forte rejeição aos dois nomes. Muitos peruanos chegaram ao segundo turno sem entusiasmo, obrigados a escolher entre dois projetos políticos que dividem profundamente o país. Houve eleitores que optaram pelo voto em branco ou nulo como forma de protesto contra a classe política. O sentimento de frustração é resultado de anos de crise institucional, sucessivas trocas de presidentes, denúncias de corrupção e aumento da violência urbana.

A segurança pública foi um dos temas centrais da campanha. O Peru enfrenta preocupação crescente com crime organizado, extorsões, mineração ilegal e sensação de insegurança nas cidades. Keiko Fujimori apostou em um discurso de linha dura, defendendo presença mais forte das forças de segurança, controle de fronteiras, tecnologia contra extorsão e medidas mais duras contra criminosos. Sánchez, por sua vez, falou em reformas estruturais, reorganização policial, desenvolvimento rural e mudanças econômicas para atacar causas sociais da violência.

Keiko Fujimori chega a esta eleição carregando o peso e a força do sobrenome. Filha do ex-presidente Alberto Fujimori, ela representa para parte do eleitorado a promessa de ordem, autoridade e combate ao crime. Para seus críticos, porém, o fujimorismo continua associado ao autoritarismo, a denúncias de corrupção e a um passado político que ainda divide o Peru.

Roberto Sánchez, candidato do Juntos por el Perú, cresceu como representante de um voto rural, popular e de esquerda. Ex-ministro do Comércio Exterior e Turismo no governo de Pedro Castillo, Sánchez é visto por seus apoiadores como alternativa contra a elite tradicional. Já seus adversários o associam ao legado turbulento de Castillo, ex-presidente que acabou preso após tentar dissolver o Congresso em 2022.

O caminho até o segundo turno já havia mostrado a fragmentação política peruana. Na primeira volta, Keiko Fujimori terminou em primeiro lugar com cerca de 2,8 milhões de votos, o equivalente a 17,19%. Roberto Sánchez ficou com aproximadamente 2,015 milhões de votos, ou 12,03%. Nenhum dos dois chegou perto de 20% do eleitorado, e mais de 70% dos votantes escolheram outros candidatos na primeira etapa.

Esse dado é fundamental para entender a crise de legitimidade que acompanha o processo. O próximo presidente do Peru será eleito em uma disputa apertada, mas começou a corrida final com apoio inicial limitado. O vencedor terá de governar um país dividido, com Congresso fragmentado e população desconfiada das instituições.

A apuração lenta também tem explicação técnica. O sistema eleitoral peruano trabalha com atas de votação que precisam ser processadas e, em alguns casos, enviadas fisicamente ou revisadas por instâncias eleitorais. Além disso, votos do exterior podem demorar mais para entrar no cálculo final. Há peruanos votando em dezenas de países, e esse bloco pode ser relevante em uma eleição decidida por margem tão pequena.

O presidente do Jurado Nacional de Elecciones pediu responsabilidade democrática aos atores políticos enquanto a contagem prossegue. A orientação é evitar declarações precipitadas de vitória e respeitar o processo oficial. A previsão é que a proclamação final possa demorar dias ou até semanas, dependendo da análise das atas observadas e eventuais questionamentos.

A indefinição preocupa porque o Peru vive um dos períodos políticos mais instáveis da América Latina. O país teve oito presidentes em cerca de uma década e atravessou protestos, quedas de governo, confrontos entre Executivo e Congresso e forte desgaste das instituições. O vencedor da eleição será o nono presidente peruano em dez anos e deve tomar posse em 28 de julho de 2026, caso o calendário seja mantido.

O resultado também interessa ao mercado e aos países vizinhos. Uma vitória de Fujimori tende a ser lida como continuidade de uma agenda mais conservadora e pró-mercado, com foco em segurança e estabilidade econômica. Uma vitória de Sánchez pode indicar guinada à esquerda, com promessa de reformas sociais, maior presença do Estado e atenção ao interior do país.

No entanto, qualquer que seja o vencedor, o desafio será enorme. O novo governo terá de enfrentar insegurança, descrédito político, desigualdade regional, pressão social e um Congresso que pode dificultar a governabilidade. A eleição mostra um Peru partido entre Lima e o interior, entre direita e esquerda, entre medo do crime e desejo de mudança, entre memória do fujimorismo e frustração com a esquerda castillista.

Até a última atualização, Roberto Sánchez liderava por pouco mais de 26 mil votos. Keiko Fujimori ainda tentava reduzir a distância com votos pendentes e do exterior. A disputa segue aberta, e o Peru permanece em compasso de espera.

Números da eleição presidencial no Peru

Roberto Sánchez: 8.901.069 votos

Percentual de Sánchez: 50,074%

Keiko Fujimori: 8.874.597 votos

Percentual de Fujimori: 49,926%

Diferença entre os candidatos: 26.472 votos

Atas contabilizadas: 95,685%

Atas pendentes: 2.474

Atas ainda para envio ao JEE: 1.529

Data da votação: 7 de junho de 2026

Possível posse do vencedor: 28 de julho de 2026

Notícias relacionadas