Editorial: Antes da campanha, pré-candidatos já disputam apoio com promessas e articulações no Tocantins
A campanha eleitoral ainda não começou oficialmente, mas no Tocantins a disputa de 2026 já está nas ruas, nos gabinetes, nos encontros reservados, nas redes sociais e nas declarações públicas de apoio. O que se vê, neste momento, é uma pré-campanha intensa, marcada por promessas, articulações, rearranjos partidários e tentativa de ocupação de espaço antes mesmo das convenções.
O calendário eleitoral entrou em fase decisiva. As convenções partidárias, responsáveis por oficializar candidaturas e coligações, devem ocorrer entre 20 de julho e 5 de agosto, conforme as regras eleitorais de 2026 divulgadas pela Justiça Eleitoral. Até lá, todos ainda são pré-candidatos, e muita coisa pode mudar.
No campo do governo, a senadora Professora Dorinha aparece como uma das principais forças da disputa. Pré-candidata ao Palácio Araguaia pelo União Brasil, ela tem buscado consolidar apoios de prefeitos, vereadores, ex-prefeitos e lideranças regionais. Sua estratégia é clara: apresentar-se como nome de experiência, articulação em Brasília e capacidade de entrega aos municípios. Nos últimos meses, agendas políticas pelo interior têm reforçado a tentativa de mostrar musculatura antes da largada oficial.
Do outro lado, Vicentinho Júnior tenta se firmar como alternativa competitiva ao governo. O deputado federal tem apostado no discurso de renovação, no apoio de lideranças municipais e na construção de uma frente com partidos e nomes de peso. A adesão da ex-prefeita de Palmas, Cinthia Ribeiro, ao projeto PSDB/MDB, ao lado de Amélio Cayres como pré-candidato a vice e Alexandre Guimarães ao Senado, mostra que a pré-campanha de Vicentinho busca ocupar espaço entre grupos que não querem ficar sob o guarda-chuva do governismo tradicional.
Laurez Moreira também se movimenta. Vice-governador e pré-candidato pelo PSD, ele tenta construir uma candidatura com discurso próprio, defendendo que o debate eleitoral não fique preso apenas às composições de bastidor. Sua articulação com lideranças como Irajá e Mauro Carlesse indica tentativa de formar um campo alternativo, capaz de dialogar com prefeitos, empresários e grupos regionais que ainda não se acomodaram nas chapas maiores.
No Senado, a disputa é ainda mais embolada. Duas vagas estarão em jogo, o que aumenta o apetite político e amplia o número de pré-candidatos. Eduardo Gomes, atual senador e presidente regional do PL, trabalha pela reeleição com forte presença em Brasília e articulação municipal. Ele aparece como um dos nomes mais estruturados da corrida, inclusive em pesquisas divulgadas neste ano.
Wanderlei Barbosa, governador do Tocantins, também é apontado como força central na disputa . Mesmo com o peso da máquina estadual e com capital político acumulado no governo, Wanderlei terá o desafio de transferir sua presença administrativa para uma campanha majoritária, em um cenário em que aliados e adversários disputam o mesmo eleitorado de centro e direita. Pesquisa Real Time Big Data divulgada em março apontou Eduardo Gomes e Wanderlei entre os líderes da corrida ao Senado.
Carlos Gaguim aparece como outro nome em movimentação. Deputado federal e ex-governador, ele tem buscado demonstrar capilaridade no interior, com apoio de vereadores e lideranças municipais. A pré-candidatura de Gaguim ao Senado ganhou novo combustível com manifestações públicas de apoio, como a de oito dos nove vereadores de Almas.
Alexandre Guimarães também se coloca no tabuleiro, especialmente dentro da composição ligada ao projeto de Vicentinho Júnior. Sua pré-candidatura ao Senado é estratégica para dar densidade à chapa e ampliar o discurso de representação regional e política do grupo. Ao lado de Vicentinho e Amélio, ele integra uma montagem que tenta enfrentar o bloco governista com uma estrutura de oposição organizada.
Há ainda nomes que buscam espaço fora das estruturas tradicionais. Vanderlei Luxemburgo ao Senado, pelo Podemos, tem percorrido municípios e defendido que poderia ser uma voz nacional em favor do Tocantins no Senado. Sua presença na pré-campanha tem um componente diferente: mistura notoriedade pública, discurso de renovação e tentativa de transformação de fama nacional em voto regional.
Kátia Abreu segue como personagem incontornável. Mesmo quando não está no centro formal de uma chapa, seu nome movimenta bastidores, gera expectativa e pesa nas conversas sobre Senado, governo e composição nacional. A ex-senadora tem histórico eleitoral, presença nacional e capacidade de interferir no jogo político tocantinense. Em uma eleição com duas vagas ao Senado, qualquer movimento dela pode redesenhar alianças.
Nas proporcionais, a disputa será ainda mais silenciosa e, ao mesmo tempo, mais agressiva. É nessa arena que deputados estaduais, federais, secretários, ex-prefeitos, vereadores e lideranças emergentes lutam para sobreviver politicamente. A eleição proporcional será marcada por três elementos: montagem de nominatas competitivas, busca por bases municipais e disputa direta por prefeitos e vereadores.
Na Câmara Federal, partidos tentam montar chapas com nomes de mandato e novos puxadores de voto. O Republicanos, por exemplo, reuniu uma chapa com nomes como Ricardo Ayres e Eli Borges para o Senado em busca de reeleição, além de figuras ligadas à gestão estadual, como Fábio Vaz, Atos Gomes, coronel Márcio Antônio, Alfredo Júnior e Enfermeira Sol. A estratégia mostra como o governo tenta transformar secretários e quadros administrativos em capital eleitoral.
O Podemos, comandado em Palmas pelo prefeito Eduardo Siqueira Campos, também se movimenta para as proporcionais. O partido projeta nomes para federal e estadual, com especulações envolvendo figuras como Thiago Dimas e Sandoval Cardoso, embora a direção tenha tratado parte dessas composições com cautela.
Na Assembleia Legislativa, a briga será por território. Deputados estaduais de mandato tentam proteger suas bases, enquanto pré-candidatos novos buscam espaço em cidades onde os grupos tradicionais estão divididos. O efeito disso já aparece no interior: prefeitos são procurados por vários lados, vereadores se tornam peças decisivas e lideranças comunitárias passam a ser valorizadas como cabos eleitorais antecipados.
O risco dessa antecipação é transformar promessa em moeda política antes mesmo da campanha. O eleitor começa a ouvir discursos sobre obras, recursos, cargos, apoio a municípios, saúde, educação, estradas, agricultura, juventude e segurança. Mas a pergunta que precisa ser feita é simples: o que é compromisso público e o que é apenas estratégia de pré-campanha?
O Tocantins conhece bem esse roteiro. Em ano eleitoral, aparecem projetos para todos os setores, soluções para problemas antigos e alianças vendidas como definitivas. Depois das urnas, muitas promessas somem, muitos aliados mudam de lado e muitos municípios descobrem que eram importantes apenas no período de disputa.
Por isso, a eleição de 2026 exigirá mais atenção do eleitor. Não basta olhar quem promete mais. Será preciso observar quem tem história de entrega, quem respeita os municípios fora do período eleitoral, quem apresenta propostas viáveis e quem usa a pré-campanha apenas para negociar espaço.
O cenário ainda está aberto. Dorinha, Vicentinho, Laurez, Eduardo Gomes, Wanderlei, Gaguim, Alexandre, Luxemburgo, Kátia e tantos outros nomes das proporcionais seguem em movimento. Mas a disputa real, neste momento, não é apenas pelo voto. É pela narrativa, pelos palanques, pelas bases municipais e pela formação das chapas que chegarão às convenções.
Antes da campanha oficial, o Tocantins já vive uma eleição por dentro. E quem entender melhor essa fase de promessas, apoios e articulações sairá na frente quando a disputa começar de fato.