ICE detém mais de 10 mil imigrantes em cinco dias nos EUA e acende alerta durante a Copa do Mundo

ICE detém mais de 10 mil imigrantes em cinco dias nos EUA e acende alerta durante a Copa do Mundo
Ricardo Fernandes AlmeidaPor Ricardo Fernandes Almeida 3 de julho de 2026 0

Ofensiva migratória ocorre enquanto os Estados Unidos recebem a Copa de 2026 e gera preocupação entre comunidades estrangeiras, trabalhadores imigrantes e torcedores

O Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas dos Estados Unidos, o ICE, deteve mais de 10 mil imigrantes em apenas cinco dias, em meio ao aumento das ações de fiscalização migratória no país.

A ofensiva ocorre enquanto os Estados Unidos recebem a Copa do Mundo de 2026, realizada em parceria com México e Canadá. A situação acendeu alerta entre comunidades estrangeiras, trabalhadores imigrantes, famílias em situação migratória irregular e torcedores que circulam pelas cidades-sede.

Segundo dados divulgados pela imprensa internacional, as prisões representam uma forte escalada nas ações migratórias do governo norte-americano. A média chegou a cerca de 2 mil detenções por dia no período analisado, número considerado alto por organizações que acompanham a política migratória dos Estados Unidos.

A intensificação das operações acontece em um momento de grande circulação de pessoas no país. A Copa do Mundo começou em 11 de junho e segue até 19 de julho, com a maior parte dos jogos em cidades norte-americanas. O torneio movimenta aeroportos, hotéis, restaurantes, estádios, transportes, áreas turísticas e serviços que contam com forte presença de trabalhadores imigrantes.

O governo dos Estados Unidos afirma que as ações fazem parte da aplicação das leis migratórias e da política de deportação de estrangeiros em situação irregular, especialmente aqueles com antecedentes criminais. Já entidades de defesa dos direitos humanos afirmam que operações em massa podem gerar medo, separação familiar, constrangimentos e risco de abuso em abordagens.

A preocupação aumenta porque muitos imigrantes trabalham em setores ligados direta ou indiretamente ao evento, como limpeza, alimentação, hotelaria, transporte, segurança privada e comércio. Mesmo quando as ações não acontecem dentro dos estádios, o temor é que ocorram em regiões próximas a fan fests, estações, bairros com grande presença de estrangeiros e locais de concentração de torcedores.

Organizações de direitos civis também alertam para o impacto sobre famílias mistas, formadas por pessoas com diferentes situações migratórias. Nesses casos, uma abordagem pode atingir pais, mães, filhos e parentes que vivem nos Estados Unidos há anos.

Brasileiros nos EUA também vivem apreensão

A ofensiva do ICE também preocupa a comunidade brasileira nos Estados Unidos. Estimativas divulgadas pela imprensa brasileira apontam que milhares de crianças tiveram pais brasileiros presos por agentes migratórios nos últimos meses, dentro do novo ciclo de endurecimento da política de deportações.

Comunidades brasileiras vivem especialmente em estados como Flórida, Massachusetts, Nova Jersey, Geórgia, Connecticut, Califórnia e Texas. Parte desses locais também recebe jogos, turistas ou fluxo ligado à Copa.

Advogados de imigração orientam brasileiros a manter documentos em ordem, evitar informações falsas, não assinar papéis sem entender o conteúdo e procurar assistência jurídica em caso de abordagem ou detenção.

O que dizem especialistas

Andrea Florence, diretora executiva da Sport & Rights Alliance, coalizão internacional que atua na defesa de direitos humanos no esporte, avalia que a Copa ocorre em um ambiente de medo para imigrantes, trabalhadores, torcedores e jornalistas. Para ela, políticas migratórias agressivas e ações de deportação em massa colocam pressão sobre a promessa de um torneio inclusivo.

Jamil Dakwar, diretor do Programa de Direitos Humanos da ACLU, organização norte-americana de defesa das liberdades civis, afirma que há desconfiança sobre a atuação do ICE durante o torneio. Segundo ele, diante do histórico recente de operações migratórias, comunidades vulneráveis temem que a presença de agentes gere intimidação mesmo fora dos estádios.

Jennefer Canales-Pelaez, advogada do Immigrant Legal Resource Center, em Houston, alerta que todas as pessoas em território norte-americano, independentemente da situação migratória, possuem direitos constitucionais básicos. Entre eles estão o direito de permanecer em silêncio, de não autorizar buscas sem ordem judicial válida e de procurar um advogado.

Alexandra Lopez, advogada especialista em imigração em Chicago, também reforça que agentes de imigração estão sujeitos à Constituição dos Estados Unidos. Segundo a especialista, ações amplas de fiscalização exigem cuidado ainda maior para evitar violações de direitos, especialmente em abordagens em locais públicos, residências e ambientes de trabalho.

Marta Mitico Valente, advogada internacional e especialista em direito migratório, avalia que os Estados Unidos têm soberania para aplicar suas regras de entrada, permanência e deportação. No entanto, ela destaca que eventos globais como a Copa exigem planejamento, comunicação clara e proteção a visitantes, trabalhadores e delegações, para evitar constrangimentos diplomáticos e humanitários.

Direitos em caso de abordagem

Especialistas em imigração orientam que qualquer pessoa abordada pelo ICE deve manter a calma e evitar correr ou discutir com os agentes.

A pessoa tem o direito de permanecer em silêncio e não é obrigada a responder perguntas sobre país de origem, situação migratória ou forma de entrada nos Estados Unidos.

Também é possível perguntar se está livre para ir embora. Caso o agente diga que sim, a orientação é sair de forma calma.

Em residências, agentes do ICE não podem entrar sem mandado judicial assinado por um juiz. Ordens administrativas de imigração não têm o mesmo peso de um mandado judicial para entrada forçada em casa.

Especialistas também recomendam não assinar documentos sem orientação jurídica, não apresentar documentos falsos e não mentir para autoridades. Em caso de prisão, a pessoa deve pedir para falar com um advogado.

Turistas também devem ficar atentos

Turistas com visto regular não são o alvo principal das operações do ICE, mas especialistas alertam que todos devem portar documentos válidos, respeitar o prazo de permanência e evitar qualquer situação que possa gerar questionamento migratório.

No caso de torcedores estrangeiros, a recomendação é manter passaporte, visto ou autorização de entrada acessíveis, além de contatos de emergência e informações do consulado do país de origem.

Atenção durante a Copa

A Copa do Mundo de 2026 é o maior evento esportivo do planeta e deve atrair milhões de pessoas aos Estados Unidos, México e Canadá. Nos EUA, o torneio ocorre em cidades como Nova York/Nova Jersey, Miami, Los Angeles, Dallas, Atlanta, Houston, Kansas City, Filadélfia, Boston, San Francisco Bay Area e Seattle.

Com a intensificação das detenções, entidades de direitos humanos defendem que a Fifa, governos locais e autoridades federais adotem protocolos claros para proteger torcedores, trabalhadores e comunidades imigrantes.

A preocupação é que o medo de abordagens afaste famílias dos eventos públicos, reduza a participação de trabalhadores e gere tensão em regiões próximas aos jogos.

O governo norte-americano, por outro lado, sustenta que a fiscalização migratória seguirá sendo aplicada e que as ações fazem parte da política de segurança e cumprimento da lei.

Copa fora de campo

A ofensiva do ICE mostra que a Copa do Mundo de 2026 vai além do futebol. Fora dos gramados, imigração, direitos humanos, segurança pública, política internacional e proteção de comunidades vulneráveis também entraram no centro do debate.

Enquanto seleções disputam vaga nas fases finais, milhares de famílias estrangeiras vivem dias de medo e incerteza nos Estados Unidos. Para especialistas, o desafio é equilibrar segurança, cumprimento das leis e respeito aos direitos fundamentais de imigrantes, trabalhadores e visitantes.

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