Estudo aponta quanto uma família precisa ganhar para viver com dignidade no Tocantins
Pesquisa inédita calcula salário digno e renda digna para diferentes regiões do estado e amplia debate sobre remuneração, custo de vida e desigualdade social
Quanto custa viver com dignidade no Tocantins? A resposta para essa pergunta, que há anos mobiliza economistas, gestores públicos e especialistas em políticas sociais, passa a contar com uma referência inédita no estado. Pela primeira vez, o Tocantins integra o mapa brasileiro de estimativas de salário digno e renda digna, indicadores que procuram medir quanto um trabalhador e sua família precisam receber para atender às necessidades básicas sem abrir mão de condições mínimas de bem-estar.
O levantamento foi elaborado pelo Anker Research Institute (ARI), em parceria com o Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), dentro da iniciativa Salário Digno Brasil, considerada uma das principais referências internacionais para estimar o custo real de uma vida digna. O estudo utiliza a Metodologia Anker®, adotada em diversos países e construída a partir dos custos efetivos de alimentação, moradia, transporte, saúde, educação, vestuário e outras despesas essenciais de cada território.
Os resultados mostram que o custo para viver com dignidade varia pouco entre as duas mesorregiões tocantinenses definidas pelo IBGE. Na região Ocidental, que reúne municípios como Araguaína, Gurupi e Colinas do Tocantins e concentra cerca de 60% da população estadual, o salário digno foi estimado em R$ 2.234 por trabalhador. Já na região Oriental, onde está Palmas, a estimativa chega a R$ 2.298.
Quando o cálculo considera uma família composta por quatro pessoas, a chamada renda digna alcança R$ 3.392 mensais na região Ocidental e R$ 3.488 na Oriental. Os valores têm como base os custos observados em junho de 2025.
Muito além do salário mínimo
Embora frequentemente comparado ao salário mínimo, o conceito de salário digno possui outra finalidade. Enquanto o piso nacional é definido por critérios legais e econômicos, o salário digno busca responder quanto realmente custa manter uma família em condições consideradas adequadas para uma vida saudável e segura.
Para chegar às estimativas, os pesquisadores analisam despesas relacionadas à alimentação nutritiva, habitação adequada, transporte, saúde, educação, vestuário, comunicação e outras necessidades básicas, além de incluir uma reserva destinada a despesas inesperadas.
Segundo o diretor da iniciativa ARI-Cebrap, Ian Prates, a principal contribuição do estudo é oferecer uma referência baseada na realidade local.
“O Tocantins agora passa a contar com uma referência territorializada de salário digno e renda digna. Isso é muito importante porque o estado não pode ser analisado apenas pela média nacional. O estudo mostra que viver com dignidade tem um custo concreto e mensurável. Ter esse dado é o primeiro passo para um debate mais qualificado sobre remuneração, desenvolvimento e redução das desigualdades.”
De acordo com o pesquisador, o objetivo não é substituir negociações salariais nem estabelecer um novo piso de remuneração, mas fornecer uma ferramenta técnica para orientar políticas públicas, negociações coletivas, estratégias empresariais e iniciativas voltadas ao desenvolvimento social.
Palmas apresenta custo semelhante ao restante do estado
Um dos resultados que mais chamam atenção é a pequena diferença entre os valores estimados para as duas regiões do Tocantins. Mesmo concentrando maior renda e serviços, Palmas não aparece com um custo de vida significativamente superior quando o cálculo considera apenas os itens essenciais para uma vida digna.
Segundo Ian Prates, isso ocorre porque a metodologia observa o custo do consumo básico e não os padrões de consumo das classes média e alta.
“Para quem possui maior renda, viver em Palmas pode representar custos bem superiores aos observados em outras cidades. Mas, quando analisamos exclusivamente o conjunto de despesas indispensáveis para uma vida digna, essa diferença diminui bastante.”
Essa abordagem diferencia a Metodologia Anker® de indicadores baseados exclusivamente em médias nacionais ou em linhas oficiais de pobreza, que muitas vezes não conseguem refletir as particularidades econômicas de cada região.
Ferramenta pode orientar políticas públicas
Especialistas avaliam que a criação de estimativas regionalizadas representa um avanço para estados que buscam formular políticas de desenvolvimento mais alinhadas às características locais.
Além de subsidiar governos e empresas, os dados também podem servir de referência para sindicatos, negociações coletivas, programas de responsabilidade social e estratégias voltadas à redução das desigualdades.
Segundo Ian Prates, o conceito de salário digno vai além da remuneração.
“Ele ajuda a responder uma pergunta fundamental: quanto uma família precisa ganhar, em determinado território, para viver com dignidade? Quando essa referência passa a existir para o Tocantins, trabalhadores, empresas, gestores públicos e a sociedade ganham uma base comum para discutir desenvolvimento econômico, produtividade e qualidade de vida.”
O Tocantins passa a integrar um grupo de estados brasileiros que já possuem estimativas próprias de salário digno, entre eles Goiás, Minas Gerais, São Paulo, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Mato Grosso do Sul, Espírito Santo, Pernambuco, Maranhão, Paraíba, Piauí e Rio Grande do Norte.
Mais do que apresentar números, o estudo pretende ampliar o debate sobre remuneração adequada e mostrar que o custo de uma vida digna varia conforme as características econômicas e sociais de cada território, reforçando a necessidade de políticas públicas cada vez mais regionalizadas.