Portelinhando Crônicas: Trump quer ser o árbitro do mundo
Há homens que chegam ao poder e passam a acreditar que o mundo inteiro é uma extensão do seu gabinete.
Não lhes bastam as fronteiras, os decretos, os exércitos, os mercados, as tarifas, as sanções e as ameaças.
Querem também mandar no apito do árbitro, discutir a cor dos cartões e transformar o futebol em mais uma sala do palácio.
Quando Donald Trump pretende que se retire um cartão vermelho aplicado a um jogador, o problema deixa de ser apenas esportivo. Torna-se simbólico.
Porque um cartão vermelho não é apenas um pedaço de cartolina erguido no ar. É uma decisão tomada dentro de um sistema de regras. Pode ser justa ou injusta. Pode ser revista pelos mecanismos próprios da competição.
Pode provocar protestos, recursos e debates intermináveis. Mas não pode depender da vontade de um presidente.
Nem de um rei.
Nem de um general.
Nem do homem mais poderoso do mundo.
O futebol talvez seja uma das últimas grandes repúblicas populares do planeta. Dentro das quatro linhas, ao menos em princípio, o poderoso e o desconhecido submetem-se à mesma regra. O craque pode ser expulso. O campeão pode perder.
O pequeno pode vencer.
E o árbitro, com todos os seus erros humanos, não deveria receber ordens de quem governa países.
É justamente aí que mora a beleza do jogo.
Mas Trump parece querer andar pelo mundo como se a Terra inteira fosse uma propriedade sua. Interfere aqui, ameaça acolá, exige, pressiona, determina. E agora até o cartão vermelho parece precisar passar pelo crivo de sua vontade.
Que perigo!
Porque, se um presidente pode pedir que se apague uma expulsão, amanhã outro poderá exigir que se anule um gol. Depois, alguém pedirá que se troque um árbitro. Mais adiante, talvez um governo pressione para escolher adversários, mudar resultados, alterar punições ou favorecer seleções.
E então já não teremos futebol.
Teremos geopolítica de chuteiras.
Uma Copa do Mundo só é grande porque o mundo acredita nela. A taça vale porque existe confiança na competição. O gol emociona porque supomos que não foi decretado por um gabinete.
A vitória comove porque imaginamos que nasceu do talento, do esforço, do acaso, da estratégia e até do erro — mas nunca da ordem pessoal de um governante.
Quando a política entra no campo para torcer, é festa.
Quando entra para mandar, é ameaça.
O futebol já carrega dinheiro demais, interesses demais, patrocinadores demais, bastidores demais. Não precisa também de presidentes distribuindo absolvições esportivas como quem concede indultos.
Um cartão vermelho pode parecer uma coisa pequena.
Mas, às vezes, é nas pequenas coisas que o autoritarismo ensaia os seus maiores passos.
Primeiro, manda-se retirar um cartão.
Depois, manda-se retirar uma regra.
Mais tarde, retira-se a independência.
E, quando percebemos, já retiraram do jogo aquilo que fazia dele um jogo: a incerteza, a igualdade das normas e a liberdade do resultado.
Trump pode ser presidente dos Estados Unidos.
Mas não pode ser presidente do mundo.
Muito menos árbitro de todas as partidas.
Porque, no dia em que um homem puder mandar até na cor do cartão levantado dentro de um estádio, talvez a maior derrota não seja a do jogador expulso.
Será a derrota do próprio futebol.
E uma Copa desacreditada não perde apenas espectadores.
Perde a alma.