Laurez e Mourão mantêm campanha, mas Kassab desmente versão de Irajá e aprofunda rachadura no PSD
Laurez Moreira e Paulo Mourão mantiveram a agenda conjunta de pré-campanha pelo interior do Tocantins, mesmo depois de o senador Irajá anunciar Ivanete Lima como mais um nome do PSD para disputar o Senado. Enquanto os dois percorreram municípios do sudeste tocantinense para reafirmar a aliança entre PSD e PT, o presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, negou ter convidado ou autorizado Ivanete a entrar na disputa, contrariando publicamente a versão apresentada por Irajá.
A fala de Kassab expôs ainda mais a falta de alinhamento dentro do partido. Ao ser questionado sobre Ivanete, o dirigente nacional chegou a perguntar: “Como é o nome lá da…?”. Em seguida, explicou que o contato ocorreu porque Irajá telefonou e colocou a líder comunitária na ligação. Kassab afirmou que apenas desejou boa sorte, sem fazer convite ou assumir qualquer compromisso com sua candidatura.
“Não estou participando da decisão. A minha participação é de procurar harmonizar o partido, não é de lançar A, B ou C”, declarou Kassab.
O presidente nacional também deixou claro que a tentativa de retirar o PT da disputa direta pelo Senado seria uma estratégia de Irajá. Segundo ele, o senador avalia que teria mais facilidade para se reeleger caso os petistas não apresentassem outro candidato ao mesmo cargo dentro da aliança.
A declaração contrariou o discurso utilizado por Irajá no lançamento de Ivanete. Durante a coletiva, o senador afirmou que o nome da líder comunitária havia sido discutido com a Executiva Nacional e recebido apoio integral de Kassab. A pré-candidatura foi apresentada como parte do fortalecimento do PSD para a disputa das duas vagas ao Senado.
Além de Ivanete, Irajá anunciou o ex-governador Mauro Carlesse como integrante de sua chapa de reeleição, inicialmente colocado em uma das suplências. O evento ocorreu sem a presença de Laurez, que é presidente estadual do PSD e pré-candidato ao Governo do Tocantins.
Laurez afirmou que sequer havia sido comunicado sobre a coletiva.
“Não fiquei sabendo do evento”, disse.
Ao comentar a decisão tomada por Irajá, o vice-governador foi direto:
“Eu acho absurdo o que ele fez.”
Laurez sustenta que o entendimento firmado com o PT prevê uma candidatura de cada partido ao Senado. Irajá ocuparia a vaga destinada ao PSD, enquanto o ex-deputado Paulo Mourão seria o representante dos petistas.
Para Laurez, Ivanete somente poderia permanecer na disputa caso um dos nomes já definidos desistisse. O pré-candidato ao Governo reafirmou que não pretende romper o acordo com o PT.
“O candidato nosso ao Senado é Paulo Mourão. O partido tem compromisso. Eu sou homem de uma palavra só”, declarou.
A resposta política veio também por meio da agenda de pré-campanha. Laurez e Mourão passaram juntos por Taguatinga, Aurora do Tocantins, Combinado, Lavandeira e Novo Alegre. A programação foi ampliada para outros municípios do sudeste, com reuniões com prefeitos, vereadores, produtores rurais, empresários e lideranças locais.
A presença dos dois lado a lado funcionou como demonstração de que o acordo entre PSD e PT continua sendo colocado em prática, apesar da movimentação de Irajá.
Durante as reuniões, Paulo Mourão defendeu uma chapa alinhada ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e apresentou Laurez como o candidato do grupo ao Palácio Araguaia.
“Nossas reuniões são para preparar nossa caminhada nas ruas. Precisamos encontrar e conversar com todos”, afirmou Mourão.
O petista também defendeu a eleição de representantes aliados ao governo federal para o Senado, a Câmara dos Deputados e o Governo do Tocantins. A estratégia é apresentar a aliança como um palanque para Lula no estado e associar a candidatura de Laurez ao apoio da direção nacional do PT.
Laurez concentrou parte de suas falas em propostas para infraestrutura, produção agropecuária e desenvolvimento regional. No sudeste, defendeu investimentos em energia, estradas, reservação de água e agricultura irrigada. Segundo ele, a região possui potencial para ampliar a produção de grãos, frutas e hortaliças, mas depende de planejamento e estrutura pública.
A agenda conjunta mostrou que Laurez e Mourão decidiram não interromper a pré-campanha para esperar uma solução interna no PSD. Ao contrário, passaram a ocupar o interior e reforçar publicamente a composição que já havia sido acertada entre as direções partidárias.
O PT decidiu apoiar Laurez ao Governo e indicar Paulo Mourão para uma das duas vagas ao Senado. O acordo também busca construir no Tocantins um palanque competitivo para a campanha de reeleição de Lula.
Irajá, por sua vez, tentou diminuir o impacto da crise. Em nota, afirmou que o lançamento de Ivanete fazia parte de um processo natural de articulações, testes de cenário e sondagens anteriores à convenção partidária.
O senador declarou que a aliança com o PT estaria preservada, mas defendeu inicialmente que os petistas fossem acomodados em uma das suplências de sua candidatura, e não como titulares de uma das vagas ao Senado. A proposta alteraria diretamente o entendimento firmado por Laurez e Mourão.
Depois, Irajá mudou o tom e afirmou que o PT teria liberdade para lançar candidatura própria, mesmo com Ivanete mantida na disputa. Segundo ele, não caberia ao PSD interferir nas decisões tomadas pelos petistas.
O senador continuou defendendo Ivanete e disse que sua presença ampliaria a representatividade da chapa.
“Nós precisamos, neste momento, agregar forças políticas, e não desagregar”, declarou Irajá.
Ele também argumentou que Ivanete, por ser mulher, negra, evangélica e ligada às comunidades da periferia, acrescentaria força eleitoral ao projeto. Para o senador, tanto ela quanto Carlesse possuem potencial de votos e podem fortalecer sua candidatura à reeleição.
Ivanete também sinalizou que não pretende retirar seu nome. Ela afirmou ter sido convidada por Irajá depois de perder espaço na chapa proporcional do PSD e declarou que buscará garantir sua candidatura na convenção.
“Vou até o final”, afirmou.
A líder comunitária ainda reclamou da falta de diálogo com Laurez e afirmou que o senador foi o único dirigente que tentou encontrar uma alternativa para sua participação nas eleições.
O PSD chega, portanto, às vésperas da convenção com três nomes relacionados à disputa das duas vagas ao Senado: Irajá, Ivanete e Paulo Mourão. O problema é que apenas dois poderão integrar a chapa oficial do mesmo grupo.
A fala de Kassab torna a situação ainda mais delicada. Ao negar que tenha convidado Ivanete, ele retirou de Irajá o argumento de que a movimentação possuía autorização da direção nacional. O dirigente também afirmou que, desde abril, os diretórios estaduais possuem autonomia para conduzir as decisões eleitorais, sem mudanças impostas pela cúpula nacional.
Na prática, a declaração preserva a autoridade formal de Laurez como presidente estadual, mas não encerra o conflito. Irajá continua defendendo Ivanete, Ivanete afirma que não desistirá e Laurez mantém Paulo Mourão como candidato do grupo.
A convenção marcada para 20 de julho será o momento em que o PSD precisará transformar as articulações em decisões oficiais. Até lá, Laurez e Mourão seguem em campanha, Irajá mantém sua movimentação paralela e Kassab evita intervir diretamente.
A rachadura deixou de ser apenas uma disputa de bastidores. Ela foi exposta em coletivas, notas, entrevistas e agendas separadas. Laurez e Mourão demonstram que o acordo com o PT continua em vigor, enquanto Irajá tenta reorganizar a chapa de forma mais favorável à própria reeleição.
Com a versão de Irajá desmentida por Kassab, a crise agora envolve não apenas a escolha dos candidatos, mas também a autoridade dentro do PSD. A convenção terá de mostrar se o partido conseguirá apresentar uma chapa unificada ou se a disputa pelo Senado continuará comprometendo o projeto de Laurez ao Governo do Tocantins.