Terras indígenas perdem 55% da superfície de água e crise ameaça alimentos tradicionais, diz Cientistas do Infoamazônia

Terras indígenas perdem 55% da superfície de água e crise ameaça alimentos tradicionais, diz Cientistas do Infoamazônia
Ricardo Fernandes AlmeidaPor Ricardo Fernandes Almeida 14 de julho de 2026 0

As terras indígenas da bacia do Alto Juruena, em Mato Grosso, perderam 55% da superfície ocupada por rios, lagoas, córregos e nascentes entre 1985 e 2025. A informação foi revelada por uma análise da InfoAmazonia, com base em dados ambientais sobre a região.

Na Terra Indígena Tirecatinga, localizada no município de Sapezal, a situação é ainda mais grave. A redução da superfície de água chegou a 75% no período analisado.

O levantamento mostra que rios, lagoas e nascentes estão desaparecendo em uma região cercada por grandes áreas de cultivo de soja, milho e algodão, além de extensas pastagens. A seca prolongada, o aumento das temperaturas e o avanço da agropecuária no entorno dos territórios indígenas têm provocado impactos diretos na rotina das comunidades.

Moradores relatam que lagoas secaram, nascentes mudaram de lugar e o volume de água não voltou ao nível normal nem mesmo durante os períodos de chuva. A redução da água também prejudica a pesca, afasta animais utilizados na alimentação e altera o calendário de plantio das comunidades.

Cultivos tradicionais, como mandioca, milho, feijão, cará, inhame e araruta, passaram a enfrentar dificuldades causadas pelo calor intenso e pela irregularidade das chuvas. Frutas nativas, como pequi, mangaba, bacaba, cajuzinho-do-cerrado e jabuticaba, também estão amadurecendo fora de época ou desaparecendo de algumas áreas.

Segundo lideranças indígenas ouvidas pela InfoAmazonia e divulgadas ao Diário Tocantinense, a mudança no clima já ameaça diretamente a segurança hídrica e alimentar dos povos que vivem na bacia do Alto Juruena.

Diante da crise, as comunidades começaram a retomar antigas roças e variedades de alimentos que haviam deixado de ser cultivadas. Na Terra Indígena Tirecatinga, mulheres indígenas passaram a recuperar o plantio da araruta, da mandioca, do milho, do feijão e de outras culturas tradicionais.

Atualmente, parte das aldeias já desenvolve atividades de agricultura familiar como forma de reduzir a dependência de alimentos comprados nas cidades.

As comunidades também criaram um calendário ecológico para registrar mudanças nos períodos de chuva, seca, floração, frutificação, reprodução dos peixes, caça e plantio.

O documento deverá ajudar os povos indígenas a adaptar a produção de alimentos e cobrar medidas dos governos para proteger as nascentes e os territórios.

A análise divulgada pela InfoAmazonia reforça que a redução da água não representa apenas um problema ambiental. A crise ameaça a alimentação, a cultura, a saúde e a sobrevivência das comunidades indígenas do Alto Juruena.

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